Carnaval: vazio e fé

Por:Neves Couras

Acabou o Carnaval. A festa mais popular de nosso Brasil, atrai milhões de foliões, nacionais e estrangeiros, para a avenida. Fico me perguntando se tanta alegria vivida nesses quatro dias de festa é uma espécie de “demanda reprimida” como nós economistas chamamos esse desbunde que as pessoas levam um ano inteiro para viver. Tantas fantasias seriam usadas para mostrar quem verdadeiramente se é? Seria o carnaval essa oportunidade de preencher de alegria o grande vazio que sente o homem na atualidade?

Se existe tanta alegria em um período determinado, por que por outro lado, no dia a dia as pessoas não demonstram essa mesma alegria? Será que ela é verdadeira, ou ela apenas disfarça um templo vazio, onde predomina o materialismo, e um massificado auto desconhecimento? vidas sem rumo e que se faz necessário uma festa regada a álcool e a outros estimulantes para essa sociedade parecer quem verdadeiramente é? O que será que está acontecendo com nosso povo?

Sabemos que o dia a dia muitas vezes pode ser cruel, mas será que essa imensa massa humana que vai para a avenida desfilar não consegue mais sentir alegria e felicidade mesmo que por pouco tempo? Outro questionamento que me surge é se esse tempo basta para trazer felicidade por todo ano? Precisamos pensar se a alegria de um período carnavalesco consegue nos preencher de tal forma que nos reabastece para vivermos o restante do ano e, assim, podermos suportar a realidade.

Espetáculo como o das Escolas de Samba, de muita tecnologia e história para contar, trazendo nossa ancestralidade, religiosidade e linguagem que se perderam, e que, precisamos conhecer sem julgamentos, sem preconceito e com a necessidade de não esquecer quem fomos, nos mostra como é fundamental que não excluamos tais temas do Ensino Curricular, do aprendizado comum.

A escola “Paraíso do Tuiuti”, falou em seu samba-enredo da nossa linguagem, sim nossa, o Iorubá, e que hoje está circunscrita aos terreiros e a seus adeptos. Essa linguagem é tão importante que seria termos fundamental termos aulas dela e de outras línguas africanas que tanto influenciaram o nosso vocabulário nacional, com seus “babá’, “cafuné”, “caçula” e tantas outras palavras tão nossas. Vemos claramente que precisamos voltar um pouco no tempo o conhecermos nosso passado para melhor traçarmos nosso futuro.

Lembrei-me do tempo que via minhas tias e seus amigos se preparando para os bailes em Pombal. Dos “bloco dos sujos”, onde precisava apenas de uma roupa qualquer, para sair às ruas. Os adereços eram a alegria de cada um e as marchinhas tão populares na época. Em João Pessoa, “Os Cafuçus”, o “Acorda Miramar” lembram um pouco esse tempo. Não sou inocente para achar que ninguém bebia e que o “lança perfume” não ajudava a segurar muitos dançando todas as noites de Carnaval, mas nada se assemelha aos perdidos de nosso tempo. Talvez a folia fosse menor, a loucura fosse menor, por que a sociedade de então nos permitisse sermos mais felizes durante o restante do ano e não nos sobrasse apenas o carnaval para celebrarmos.

Os desfiles das Escolas de Samba nos trazem verdadeiros espetáculos não só de tecnologia mais luxo, dinheiro que aumenta nosso PIB, turismo nas cidades, companhias aéreas etc., mas dá a voz a um povo que condenado a invisibilidade o ano inteiro, ali vira protagonista. Mulheres lindas, e em sua maioria nuas como deusas olímpicas, se desnudam para serem vistas. Infelizmente, talvez, após a quarta-feira de cinzas tenham de cair na real talvez voltar novamente ao vazio e a invisibilidade.

O que será que assistimos mesmo? A mídia noticiava dois extremos, de um lado pessoas celebrando como se não houvesse um amanhã, de outro, pessoas a procura de Deus com as Religiões buscando mais e mais adeptos numa louca corrida em busca do “ouro”.

Ainda que ache o momento inadequado, já que pela tradição cristã, os próximos 40 dias já são dedicados à introspecção e reflexão, sendo o carnaval realmente a data de nos darmos ao mundo e a quaresma o caminho metafórico para ao alto é evidente que tem um lado positivo nesta história. Se essa busca por Deus for real e que se dá continuidade a ponto de transformar e encher de Deus por todo restante do ano o vazio existencial, aquele que leva à tristeza, depressão e ao suicídio, Louvado seja! O mundo irá melhorar. Às fileiras do amor da caridade do autoconhecimento!

Que o carnaval seja esse momento de transformar essa sociedade, que as pessoas vivendo seus sentimentos, sejam de fé seja de folia, façam com que diminua as enfermidades, e que finalmente os dias de Carnaval tenham deixado os homens sadios com sua fé vibrante em uma divindade , possamos finalmente viver como irmãos com alegria e fé permanentes.

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