Acordos, Poder e Assimetria

Por: João Vicente Machado Sobrinho;

O acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia, cuja negociação se arrastou por mais de 25 anos, apesar de muito importante para a multipolaridade, não pode ser compreendido fora de um contexto histórico, marcado pela assimetria estrutural entre o centro e a periferia. Desde o período colonial, a Europa construiu sua riqueza a partir da exploração sistemática das colônias da América Latina e da África, estruturando uma divisão internacional do trabalho que relegou essas regiões ao papel de exportadoras de bens primários, commodities e importadoras de manufaturas e tecnologia. O processo de desenvolvimento do Brasil, é um exemplo emblemático do que pretendemos tratar neste artigo.

A primeira infraestrutura ferroviária da região nordeste, foi constituída de ramais estratégicos, todos eles implantados nos séculos XIX e XX, por iniciativa de um grupo industrial britânico, denominada Great Western of Brasil Railway Company.

A malha ferroviária então construída, teve um duplo propósito, de fazer chegar aos rincões nordestinos a produção industrial do Reino Unido no alvorecer da 1ª Revolução Industrial. De lá ela traria a matéria prima bruta,  sem valor agregado como o algodão e minerais diversos, destinados ao suprimento do parque industrial britânico.

A chegada do trem da GWBR em Campina Grande em 2 de outubro de 1907.

Como muito bem nos lembra Celso Furtado: “o subdesenvolvimento não é uma etapa, mas uma condição estrutural produzida pelo próprio desenvolvimento do centro”.

A propósito disso, o acordo recém firmado entre o Mercosul e a União Europeia-(UE), surge não como um ponto fora da curva, mas como parte de uma longa tradição europeia de inserção econômica de forma assimétrica com o Sul Global — agora revestida do discurso contemporâneo da multipolaridade, do “livre comércio”, da “sustentabilidade” e da “integração”.

Pela ótica aguçada do filósofo e pensador Karl Marx, o desenvolvimento do capitalismo industrial na Europa, dependia da opressão do trabalho forçado nas colônias periféricas. Essa tese de Marx  é fundamentada em fatos como:

. Acumulação Primitiva e Pilhagem: nesse aspecto, Marx argumentava que a faustosa riqueza que impulsionou o capitalismo europeu, foi acumulada à custa da destruição e da expropriação das populações nativas das colônias e da escravidão e do  saque de recursos naturais. Como exemplo ele citava o domínio britânico na Índia e a escravidão nas Américas.
Quando vemos os documentários sobre a construção  do acervo arquitetônico europeu e a disseminação de dezenas de milhares de castelos, palácios, catedrais e basílicas suntuosas, nos vem logo à mente que tudo aquilo foi construído à custa da pilhagem e  exploração  predatória das colonias.


. Destruição dos Modos de Produção locais: Marx observou também, a estratégia predatória das potencias europeias, que eram habitués em impedir, as iniciativas industrias autóctones, como estratégia para aprofundar a dependência econômica. Citamos o exemplo da manufatura de lã na Irlanda e o assassinato, ainda hoje misterioso, do cearense Delmiro Gouveia no Brasil. Ele porque se negou a vender a pioneira fábrica de linhas da Pedra, que operava  com energia gerada a partir de uma mini usina hidrelétrica artesanal, instalada na Cachoeira de Paulo Afonso.

. O Contagio Exploratório de Classe: Uma outra observação importante de Marx, foi o contagio pedagógico difundido na Europa em relação à exploração colonial, imposta aos trabalhadores. O racismo e a competição que era prática comum nas colônias, pelo exemplo acabariam por enfraquecer a luta da classe trabalhadora como um todo. A escravidão velada que ameaçava o mundo do trabalho na Europa era consequência da escravidão real e ostensiva nas colônias.
Em síntese Marx enxergava na relação metrópole-colônia uma exploração de classe em nível internacional, na qual uma banda do mundo exigia o saque da outra banda.

A despeito de toda essa expropriação e do processo de dominação econômica e ideológica dos países europeus, alguns países periféricos conseguiram estruturar as bases da sua industrialização e se sobressair.

Mesmo iniciando com um modelo industrial  incipiente, voltado para a indústria de base, a iniciativa corajosa de alguns governantes nacionalistas promoveu relevante desenvolvimento em um curto espaço relativo de tempo. Esse foi o caso dos países que, bem depois, viriam fundar os BRICS como: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Os intelectuais orgânicos comprometidos com o modelo de desenvolvimento liberal-capitalista dos países centrais, capitaneados pelos Estados Unidos da América do Norte-USAN, cuidaram de sufocar de imediato esse anseio de desenvolvimento, usando mais uma vez a velha teoria liberal de Adam Smith repaginada. A “novidade” engendrada por eles foi um modelo econômico genérico, gestado no ventre do Consenso de Washington, ao qual deram o nome “chique” de Neo-liberalismo. Essa fórmula que na verdade nada tinha de novo, foi a forma encontrada para obstaculizar a todo custo, quaisquer iniciativa de desenvolvimento técnico-cientifico dos países periféricos, sugerindo a adoção de um vetusto receituário econômico nada republicano prescrevendo:

Disciplina fiscal, Reorientação dos Gastos Públicos, Reforma Tributária, Liberalização Financeira, Cambio Competitivo, Liberalização Comercial, Investimento Estrangeiro Direto, Privatizações, Desregulamentação, Direitos de Propriedade.

As medidas propostas, num primeiro momento, contribuíram para estabilizar a inflação, como ocorreu com o Brasil da década de 1990. Pudera! Com o arrocho salarial que se instalou o dinheiro concentrou-se em mãos de poucos que podiam gastar, portanto não tinha como haver inflação. Destarte, o receituário recessivo proposto, além de aprofundar a desigualdade social, jamais entregou o crescimento econômico que era reiteradamente prometido. O bolo econômico cresceu muito como mostram os PIBs, mas poucos puderam ter acesso a ele, como mostra a manchete estampada na publicação Brasil de Fato, edição do dia 19 de janeiro de 2026. A manchete foi antecedida da indagação: alguém acha isso normal? Vejamos:

Os 12 mais ricos do mundo concentram em 2025, uma riqueza que equivale a que é destinada aos 4 bilhões mais pobres: Brasil lidera desigualdade na América latina.”

Continua no corpo da matéria:

O mundo chegou a 2026 com um retrato extremo da desigualdade crescente. Segundo o novo relatório da Oxfam, divulgado neste domingo (19), no marco da abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, os 12 bilionários mais ricos do planeta concentram mais riqueza do que os 4 bilhões de pessoas mais pobres do mundo, o equivalente à metade da população global.
O estudo mostra que 2025 foi um ano recorde para os super-ricos. Pela primeira vez, o número de bilionários ultrapassou a marca de 3 mil pessoas, enquanto a riqueza total desse grupo chegou a cerca de US$ 18,3 trilhões (aproximadamente R$ 91,5 trilhões), o maior patamar já registrado. Apenas no último ano, esse patrimônio cresceu US$ 2,5 trilhões (R$ 12,5 trilhões) – valor que, segundo a própria Oxfam, seria suficiente para erradicar a pobreza extrema 26 vezes.
O dado chama ainda mais atenção quando comparado ao Orçamento da União para 2026, sancionado pelo governo federal no valor total de R$ 6,54 trilhões – ou seja, a fortuna dos bilionários cresceu, em um único ano, o dobro de todo o orçamento federal do Brasil.
Esse avanço acelerado da riqueza no topo contrasta com a estagnação e o agravamento das condições de vida da maioria da população mundial. O relatório aponta que uma em cada quatro pessoas no planeta enfrenta insegurança alimentar, enquanto quase metade da humanidade vive abaixo da linha de pobreza ampliada utilizada pelo Banco Mundial.
Para a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, esse cenário não pode ser tratado como um fenômeno natural. Ao Brasil de Fato, ela afirmou que a existência de mais de 3 mil bilionários é, antes de tudo, “a expressão de um mundo profundamente desigual”, construído a partir de decisões políticas. Segundo ela, “essa concentração de renda não caiu do céu, ela é resultado da atuação de governos, de potências e dos próprios bilionários para manter e ampliar esse modelo.

Os indicadores têm provado que, apesar dos países da América Latina terem atingido um grande crescimento dos seus Produtos Internos Brutos-(PIB), não houve um correspondente crescimento no tocante ao Índice de Desenvolvimento Humano-(IDH), que ainda hoje deixa muito a desejar.

No caso do Brasil, o (PIB) do ano de 2025 fechou em US$ 2.127 trilhões , colocando a riqueza do país na 11ª colocação. No entanto, em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano-IDH, ocupamos apenas a 79ª colocação.
Já o PIB da China, alcançou a cifra de US$ 19,53 trilhões, ocupando a 2ª colocação, com o IDH na 79ª colocação.
A índia, por sua vez, teve um PIB de US$ 4,3 trilhões ocupando a 4ª colocação, com o IDH na 129ª colocação.

A Rússia teve um PIB de US$ 2,54 trilhões alcançando a 9ª colocação, com o maior IDH entre os membros dos BRICS. Na 49ª colocação. Por fim a África do Sul cujo PIB é de US$ 418,00 bilhões enquanto tem um IDH na 113ª colocação.

Na dificuldade de criação de polos econômicos isolados, para dissuadir a fixação expansionista imperial dos USAN, os países emergentes resolveram se unir em um forte bloco que exibe os seguintes indicadores:

Ninguém, em sã consciência, poderá prever o rumo de uma geopolítica ambiciosa, de viés expansionista, conduzida por Donald Trump que, igualmente a um vírus, dirige um país imperial com um forte poderio militar. Trump, o imperador de plantão, em que pese não divergir muito dos seus antecessores, é uma figura ambiciosa, espalhafatosa e imprevisível.

Sem embargo, isso nos estimula a avaliar o nosso potencial econômico enquanto país emergente e adotar um modelo de desenvolvimento inclusivo, universal e republicano, embasado na disciplina, no planejamento plurianual, no centralismo democrático e na igualdade. Alguém já disse:

“Não queremos a fome nem a opulência. Queremos apenas que o pão que nos chega, seja em  igual quantidade ao que é dado aos filhos do padeiro.”

Essa frase é uma poderosa metáfora sobre igualdade, justiça social e distribuição de recursos. É sobre ela que os países signatários do acordo Mercosul- União Europeia deverão se debruçar e convergir para a construção da tão desejada independência e soberania.

 

 

Referências:
A desordem mundial – Luiz Alberto Moniz Bandeira;
A Ideologia Alemã- Livro | Amazon.com.br
Os 12 mais ricos do mundo concentram mais riqueza que os 4 bilhões mais pobres; Brasil lidera desigualdade na América Latina – Brasil de Fato;
PIB: Brasil deixa lista das 10 maiores economias do mundo e cai para 11º | CNN Brasil;
Lista de países por Índice de Desenvolvimento Humano – Wikipédia, a enciclopédia livre;
A arrancada da indústria automobilística no Brasil | Quatro Rodas;

Fotografias:
Estação velha Campina Grande -GWBR. Pesquisa Google;
Revelada a maior mina de prata do mundo na América Latina: 60.000 toneladas – superando EUA, Austrália e China com mais de 500 anos de atividade – CPG Click Petróleo e Gás;
https://www.historiadobrasil.net/brasil_colonial/extracao_ouro.htm;
6 motivos por que a indústria é importante para o desenvolvimento do Brasil, na opinião da população – Agência de Notícias da Indústria;
Brasil tem 2ª maior concentração de renda do mundo, diz relatório da ONU | G1;

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