A homofobia como polícia do gênero

Por: Antônio Henrique Couras;

Quase todo mundo já ouviu, em algum momento da vida, frases como:
“fala que nem homem”,
“engole o choro”,
“senta que nem moça”,
“fecha as pernas”,
“isso não é coisa de menino”.
Essas frases costumam ser ditas como correção, conselho ou até cuidado. Mas elas não descrevem quem alguém é. Elas dizem quem essa pessoa deve parecer ser. É assim que aprendemos, desde cedo, os chamados papéis de gênero.

Papéis de gênero são exatamente isso: papéis. Roteiros sociais que nos ensinam como homens e mulheres devem se comportar, sentir, amar, trabalhar, falar e até ocupar espaço com o próprio corpo. Não vêm da natureza, nem da biologia, nem de alguma essência imutável. São criações humanas, escritas e reescritas ao longo do tempo por culturas, religiões, famílias e instituições. Parecem naturais apenas porque são repetidas desde sempre. A gente não nasce sabendo “sentar que nem moça” ou “falar que nem homem”. A gente aprende. E é corrigido quando erra a marca.

Esse aprendizado aparece no cotidiano de forma banal e persistente. Homens aprendem que não devem chorar, não devem se cuidar demais, não devem demonstrar fragilidade. Mulheres aprendem que cuidar é obrigação, que servir é prova de amor, que manter a harmonia emocional é responsabilidade delas. E todo mundo aprende que sair desse roteiro tem custo social. Às vezes o custo é uma bronca. Às vezes uma piada. Às vezes humilhação. Muitas vezes, vergonha.

Papéis de gênero só funcionam porque são vigiados o tempo todo. E é aqui que a conversa começa a ficar menos confortável.
A homofobia não é um sentimento isolado.
Ela é o braço armado do machismo.

Mais do que rejeitar pessoas LGBTQIA+, a homofobia cumpre uma função social muito clara: policiar fronteiras. Serve para vigiar quem está perto demais da linha, punir desvios e humilhar quem embaralha os códigos do que se espera de um homem ou de uma mulher.

Não é coincidência que, nos últimos tempos, venha surgindo nas redes sociais uma tendência de mulheres heterossexuais se gabando de seus maridos “hipermasculinos”. O orgulho raramente está na parceria, no cuidado ou no afeto, mas na performance: o homem que não se cuida, não demonstra emoção, não ameaça a ideia tradicional de masculinidade. O homem “raiz”, “bruto”, “de verdade”.

Isso não é estranho para quem já frequentou aplicativos de encontros. Ali, homens gays frequentemente exaltam a masculinidade como valor supremo. Quanto mais “macho”, melhor. Quanto mais distante de qualquer traço associado ao feminino, mais desejável. Muda o público, mas o roteiro é o mesmo. O que se celebra não é o homem real, mas o personagem.

Um personagem preso a uma ideia de masculinidade que parece ter ficado no paleolítico: mudo, caçador, peludo, emocionalmente opaco. Um tipo de homem que faria Fred Flintstone parecer uma vedete do teatro de revista.

Quando um homem foge minimamente disso — quando é delicado, vaidoso, sensível, quando cuida do próprio corpo ou fala sobre sentimentos — o ataque raramente é sobre orientação sexual. É sobre posição. É alguém dizendo, mesmo que não perceba:
“Não atravesse essa linha. Eu preciso que você fique aí.”
Porque se ele atravessa, todo o mapa começa a balançar.

Esse policiamento não vem apenas de homens. Muitas mulheres também o reproduzem porque foram educadas dentro do mesmo roteiro. O homem rígido parece previsível. Parece forte. Parece seguro. Questionar esse modelo implica questionar o próprio pacto que organizou relações afetivas por gerações. Se ele pode ser diferente, talvez tudo pudesse ter sido diferente. E essa possibilidade assusta.

Por isso a homofobia cotidiana, travestida de piada ou gosto pessoal, é tão eficiente. Ela não precisa gritar ódio. Basta rir. Basta desqualificar. Basta transformar autocuidado em suspeita, sensibilidade em fraqueza, afeto em desvio.

O mesmo mecanismo aparece nas relações afetivas quando servir vira prova de amor. Quando mulheres contam, quase sempre sem perceber o peso disso, que fazem o prato do marido porque “é assim que ele se sente amado”. O gesto, isolado, pode parecer inofensivo. Mas quando é exigência, ritual fixo e via de mão única, deixa de ser cuidado e vira confirmação de papel. Amor não deveria depender da infantilização do outro.

No fim das contas, essa polícia de gênero não protege ninguém. Ela empobrece todo mundo. Ela transforma gosto em suspeita, talento em desvio, desejo em transgressão. Faz homens acharem que pedir um coquetel em vez de cerveja é motivo de constrangimento. Faz mulheres se sentirem estranhas por gostarem de futebol, de mecânica ou de competição. Policia até o copo na mão e o assunto da conversa, como se masculinidade e feminilidade fossem porcelana frágil demais para aguentar um gole diferente.

Mas o estrago vai além do cotidiano. Esse mesmo policiamento ajuda a manter estruturas muito concretas no lugar. Ele empurra mulheres, desde cedo, para profissões de cuidado, como se cuidar fosse extensão natural do corpo feminino. E empurra homens para áreas vistas como mais “práticas”, técnicas ou racionais, como se sensibilidade fosse defeito e não habilidade. Mulheres viram enfermeiras, professoras, cuidadoras. Homens viram engenheiros, técnicos, gestores. Não porque uns nasçam para isso e outros não, mas porque o roteiro já estava escrito antes da escolha.

 

 

 

O resultado é um mundo menos livre e menos inteligente. Homens emocionalmente amputados, ensinados a desprezar tudo o que lembra cuidado. Mulheres sobrecarregadas, treinadas para sustentar o mundo emocional dos outros enquanto têm seus próprios desejos tratados como extravagância. Todos pagando o preço de manter papéis que nunca foram neutros.

Enquanto isso, chamamos isso de tradição, gosto pessoal ou “jeito de ser”. Mas tradição que precisa de vigilância constante não é natureza. É controle. Papéis de gênero só sobrevivem porque são policiados todos os dias, nos detalhes mais banais da vida.

Questionar essa polícia não é apagar diferenças. É recusar que elas virem prisão. Porque quando homens e mulheres podem gostar do que gostam, fazer o que sabem fazer e escolher quem querem ser sem pedir licença, ninguém perde. O que perde é apenas o roteiro antigo, estreito e cansado demais para dar conta da complexidade da vida real.

E talvez seja exatamente por isso que tanta gente ainda se agarra a ele com tanta força.

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