Por: Rui Leitão;
A BR-040 foi ocupada por dezenas de peregrinos em direção a Brasília sob a batuta do deputado Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais. O que se apresenta como manifestação popular nada mais é do que uma encenação cuidadosamente coreografada, à qual se somaram outros parlamentares da extrema direita brasileira. O objetivo é transparente: produzir imagens, gerar engajamento digital e alimentar a bolha ideológica que sustenta politicamente esses personagens. O suposto protesto se constrói contra o que chamam de “arbitrariedades”, entre elas a condenação por tentativa de golpe de Estado e a prisão do líder maior do bolsonarismo.
Não há qualquer traço de espontaneidade ou novidade nessa iniciativa. Trata-se de mais uma repetição da tática já conhecida da direita: simular mobilização popular para esconder o isolamento político e a derrota sofrida nas urnas. A narrativa, explorada com apelo quase cinematográfico, busca menos defender uma causa e mais promover a figura do jovem deputado mineiro, tratado como herói fabricado para consumo rápido nas redes sociais. Não é uma caminhada real; é um produto audiovisual. Marketing político travestido de sacrifício.
Desde Paracatu (MG), o percurso foi sendo inflado pela adesão dos bolsonaristas mais radicalizados. Os vídeos divulgados tentam vender a imagem de uma jornada extenuante, marcada por privações e esforço físico. A farsa, contudo, desmoronou quando veio à tona que, ao final do terceiro dia, as principais lideranças optaram pelo conforto de um hotel luxuoso, enquanto seguidores dormiam ao relento, estendidos nas calçadas. A hierarquia ficou escancarada: líderes no conforto, militantes na penúria — todos a serviço de likes, compartilhamentos e algoritmos.
Alguns tentam comparar a marcha à caminhada simbólica de Forrest Gump. A analogia não se sustenta. O personagem fictício caminhava sem pretensões políticas; já o deputado mineiro marcha com um objetivo claro: pressionar instituições para soltar um condenado pela Justiça. É a banalização do crime travestida de protesto cívico.
Os registros divulgados nas redes são fragmentos cuidadosamente escolhidos para dar verniz de autenticidade ao ato. Em vez de idealismo, o que se vê são dezenas de celulares em riste, operando como instrumentos de propaganda, numa tentativa pouco convincente de negar que se trata de uma excursão organizada, financiada e amparada por uma logística profissional — possivelmente com uso de recursos públicos.
O grito repetido durante a marcha — “Acorda, Brasil” — revela mais desespero do que convicção. O Brasil acordou em 2022, quando rejeitou nas urnas o autoritarismo, a mentira e a política do ódio. E é exatamente esse despertar democrático que apavora a extrema direita. Seu discurso reacionário já foi derrotado e tende a sê-lo novamente. Não haverá retorno ao passado. Sem anistia para golpistas. Ditadura, nunca mais.




