Relato de uma leitora de “A farra do meu cadáver”

Por:Mirtzi Lima Ribeiro;

Eu já havia lido matérias na web sobre a performance e os prêmios literários auferidos pelo escritor e dramaturgo Tarcísio Pereira, membro da APL – Academia Paraibana de Letras, mas não havia lido nenhuma de suas obras publicadas. Entretanto, em evento recente na APL, pude adquirir duas de suas obras, uma lançada em 2023 e outra em 2025, obtendo o seu autógrafo. Um dos livros foi A Farra do meu Cadáver (Editora Penalux, 2023).

Esse livro retrata a peregrinação do esquife de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, então presidente da Parahyba do Norte, assassinato em 26 de julho de 1930, na cidade do Recife, no Estado de Pernambuco, evento que cronologicamente antecedeu a deflagração da revolução 1930, em 24 de outubro.

Qual era o contexto político do país à época? Aqui eu faço um breve resumo: Getúlio Vargas foi alçado ao poder pela Revolução de 1930 em conflito armado, que se constituiu um marco na história do Brasil, encerrando a República Velha, através da Aliança Liberal, que foi política e militar entre três estados que foram chave: Paraíba, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Vargas havia se candidatado a presidente da República tendo como vice, o paraibano João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. No Sertão da Paraíba, um município se declarou independente do Estado e, inusitadamente, foi municiado de armas pelo governo federal visando um levante belicoso e brutal que ameaçava depor João Pessoa da cadeira de presidente da capital do Estado.

Nas eleições presidenciais de 1º de março de 1930, Getúlio e João Pessoa perderam a eleição para Júlio Prestes, o candidato da situação, que seria o sucessor do presidente Washington Luís. Mas o assassinato de João Pessoa forneceu o motivo que faltava para o estopim da revolução armada, a tomada do poder, a deposição de Washington Luís e a impossibilidade da posse de Júlio Prestes. A partir de então, tudo foi construído para entrar em vigor o Estado Novo, uma fase ditatorial que teve início no ano de 1937, com o fechamento do Congresso Nacional. Esse regime permaneceu até o ano de 1945, tendo fim através de outro golpe de Estado em 29 de outubro, quando Getúlio foi deposto.

Quanto à obra A Farra do meu Cadáver, eu achei a trama bem elaborada especialmente dentro do enquadramento que o autor estabeleceu, tendo por recorte a provável visão do morto sobre os acontecimentos naquele período que levaram à sua morte. A obra não faz análises ou julgamentos, nem pugna por nenhum dos lados que foram precursores do evento do assassinato.

A definição do morto como o narrador dessa história teve como pano de fundo o cenário caótico já descrito, um enorme torpor político local e nacional, com comoções viscerais da população. O fato foi tão marcante que após a trágica morte, a cidade da Parahyba do Norte teve seu nome mudado, tomando o prenome composto do morto: João Pessoa. A bandeira do Estado também foi substituída por um novo padrão, passando a ser vermelha e preta (sangue e luto por sua morte), com o nome Nego em branco gravado na bandeira, representando a negação de seu apoio a Washington Luís.

O narrador, a alma ou o espectro de João Pessoa que acompanhava o esquife, observava e ouvia conversas de terceiros durante o deslocamento de seu corpo em peregrinação pelas diversas cidades do país, ora no navio, ora nas missas celebradas e solenidades de porto em porto, em seu trajeto até o destino no Rio de Janeiro, onde sua família estava residindo e esperava receber o corpo.

Imagino o nível de pesquisa efetuada pelo autor em jornais antigos guardados em arquivos mortos, livros relatando esse evento na época, inclusive a adequação de linguagem mais condizente com o período da narrativa desse drama.

Toda a obra está incrementada com detalhes e nomes tanto de pessoas comuns quanto de autoridades envolvidas no fato histórico. A obra deixa nas entrelinhas a comoção nacional criada pela romaria do caixão pelo país (por isso o termo “farra” faz parte do título), fato que ofereceu combustível para a ebulição da pretendida revolução de 1930, com a deposição do então presidente do Brasil e o impedimento da posse daquele que havia sido eleito para o cargo.

A morte trágica e o cortejo fúnebre por muitos dias, se constituiu um palco fértil para as elucubrações magistralmente construídas na obra, em que o morto se expressa com conotações pessoais, emocionais e relacionadas aos disse-me-disse dos bastidores do alto escalão do regime político. Retrata também como o morto via as implicações que essa intricada situação levou à vida dos personagens envolvidos na engrenagem local e nacional, com desfechos pessoais desagradáveis no enredo.

O mais interessante é que no enquadramento ou recorte oferecido, não há julgamentos, embora permita que os leitores possam fazê-lo, porque dá ferramentas de análise para quem está acompanhando passo a passo a trama em todo esse percurso. Eu fiquei pensando e avaliando a narrativa com a minudência de aspectos, que me permitiram como leitora, de raciocinar a respeito da utilidade de dramas como esse que alavancam pessoas ao poder, além dos golpes de Estado que já vivenciamos enquanto sociedade brasileira.

O desfecho da obra é também inusitado e se dá no ano de 1997 quando as cinzas de João Pessoa e sua esposa são trazidas pela única filha ainda viva, para a capital paraibana, em solenidade muito prestigiada. Vale a pena conferir a obra e refletir sobre ela.

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