
Por: João Vicente Machado Sobrinho;
Na época contemporânea o mundo vem atravessando um período angustiante, marcado por uma onda de ansiedade indistinta, por uma insegurança permanente e por uma sensação coletiva de instabilidade. A promessa vã de “ordem internacional baseada em regras”, forjada no período pós-Guerra Fria, tem se revelado cada vez mais frágil diante da força bruta usada de forma recorrente, como instrumento central de política externa. Nesse contexto, os Estados Unidos com os mesmos métodos dos impérios pretéritos, assumem o protagonismo, não apenas como a potência hegemônica que é, mas como agente ativo da desestabilização global. Para tanto tem feito uso de ameaças explícitas, de sanções unilaterais, de intervenções diretas, indiretas e até de invasões como a acontecida na Venezuela.

Os tratados antiarmamentistas apresentados historicamente, como instrumentos de paz e cooperação, estão passiveis de uma reavaliação crítica. Esses tratados estão longe de promover um equilíbrio real entre as nações e muitos desses acordos, contribuíram para consolidar assimetrias estratégicas profundas, ao passo que uma única potência preservou — e ampliou — sua capacidade militar e sua tecnologia bélica. O resultado tem sido um clima geopolítico internacional desequilibrado, no qual a retórica da paz convive com a lógica permanente da guerra.
A mitificação do desarmamento como um caminho para a paz, está presente desde a metade do século XX, quando tratados de limitação de armas foram celebrados como marcos civilizatórios. Não obstante, como advertia o pensador alemão Hans Morgenthau, “a política internacional, como toda política, é uma luta pelo poder”. Portanto, desarmar-se em um sistema anárquico — sem autoridade supranacional efetiva — não elimina o conflito; apenas redistribui vulnerabilidades.
O fato é que enquanto a imensa maioria das nações aceitaram restrições severas aos seus arsenais, os Estados Unidos investiram maciçamente em inovação militar, em sistemas de defesa avançados, em guerras híbridas e em tecnologias de dupla utilização. O desarmamento, nesse sentido, funcionou menos como um pacto coletivo e muito mais como mecanismo de subordinação estratégica.

“Se vis pacem para bellum.” Ou seja-Se queres paz, prepara a guerra. Essa é uma frase atribuída a um escritor militar romano que viveu no século IV ou V d.C, de nome Flávio Vegécio.
Os Estados Unidos operam hoje em dia a maior e mais sofisticada estrutura militar da história da humanidade, dispondo de mais de setecentas e oitenta bases militares, distribuídas pelo planeta, um orçamento bélico superior ao de dezenas de países somados, além de uma capacidade de projeção global imediata. Essa não é apenas uma máquina defensiva; ela tem servido para sustentar uma política externa baseada na intimidação, no cerco geopolítico, na punição e no bloqueio econômico mundial.
George Kenan, historiador e ex conselheiro do Departamento de Estado dos USAN e arquiteto da política de contenção, reconhecia que o poder militar deveria ser instrumento último. No entanto, na prática contemporânea, essa lógica foi invertida pois, a ameaça precede o diálogo, e a força militar ostensiva substitui o consenso. O medo tornou-se, assim, ferramenta de governança global. O mundo assiste a tudo isso impotente, haja vista a gigantesca assimetria de poder entre os países.
O resultado são países desarmados ou fragilizados, totalmente reféns de pressões externas, enquanto populações inteiras vivem sob a sombra da ameaça de guerra permanente — seja ela militar, econômica ou informacional.
A impotência não é apenas militar, mas política e moral. Estados perdem autonomia decisória, sociedades vivem sob permanente instabilidade e o direito internacional transforma-se em retórica seletiva, aplicada apenas aos adversários do poder hegemônico.

A expansão da OTAN após o fim da Guerra Fria, se constitui talvez no exemplo mais emblemático da contradição entre o discurso pacifista e a prática beligerante. Criada para ser uma aliança defensiva, a organização perdeu a sua razão de existir, com o colapso da União Soviética. No entanto, em vez de ser dissolvida, como extemporaneamente aconteceu com o pacto de Varsóvia criado pela União Soviética e seus aliados, expandiram-se agressivamente em direção ao Leste Europeu, incorporando países que antes funcionavam apenas como zonas de equilíbrio geopolítico.

Com a expansão, foram violados compromissos políticos informais assumidos no início dos anos 1990, alimentando um ambiente de cerco estratégico à Rússia. Como alertava John Mearsheimer, expoente do realismo ofensivo, “grandes potências não toleram ameaças existenciais em suas fronteiras”. A crise ucraniana, nesse sentido, não pode ser compreendida como evento isolado ou mero conflito entre “democracia e autoritarismo” como é senso comum, mas como produto direto de uma arquitetura de segurança construída de forma unilateral e provocativa.
A Ucrânia é um pedagógico exemplo de guerra, como consequência e não como causa.
Aquele conflito revela o esgotamento do modelo de segurança assimétrico. O país foi incentivado a romper seus laços históricos, abandonando a sua condição de Estado tampão e confiar em garantias externas que jamais se materializaram plenamente. O resultado foi devastador: destruição material, perda de vidas, desestruturação econômica e dependência crescente de ajuda militar estrangeira.
Enquanto isso, os Estados Unidos lucram política e economicamente com o conflito, pois: fortalecem sua indústria bélica, ampliam sua influência sobre a Europa e enfraquecem simultaneamente a Rússia e a União Europeia. A guerra, nesse contexto, não é uma anomalia do sistema, mas um de seus subprodutos funcionais.

Como advertia Zbigniew Brzezinski, a Eurásia é o tabuleiro central da disputa global. A Ucrânia, tragicamente, converteu-se numa peça sacrificável nesse jogo de poder.
Já no caso do Oriente Médio a estratégia foi de: desarmar uns, para armar outros e a lógica é ainda mais explícita. Países considerados “inimigos” são pressionados por sanções, inspeções e tratados restritivos, enquanto aliados estratégicos recebem armamentos de última geração, independentemente de seu histórico democrático ou de seu respeito aos direitos humanos.

O caso específico do Irã é ilustrativo. O acordo nuclear, celebrado como vitória diplomática, foi abandonado unilateralmente pelos Estados Unidos, demonstrando que tratados valem apenas enquanto servem aos interesses da potência dominante. A mensagem ao mundo é clara: não há segurança jurídica nem previsibilidade institucional, apenas correlação de forças.
Aqui, o princípio Si vis pacem, para bellum ressurge com força brutal: quem abre mão de sua capacidade de dissuasão torna-se vulnerável; quem a mantém, mesmo sob acusações, preserva sua soberania.
Na América Latina, por sua vez, a estratégia tem sido diferenciada e o continente tem sido o laboratório da impotência estratégica. Os efeitos do desarmamento político e militar assumem outra forma: golpes institucionais, bloqueios econômicos, lawfare e intervenções indiretas. A região, historicamente submetida à Doutrina Monroe, exemplifica como a ausência de autonomia estratégica transforma países inteiros em zonas de influência permanente.

Venezuela, Cuba e Nicarágua sofrem sanções econômicas draconionicas, invasões e piratarias as quais funcionam como armas de guerra não convencionais. Ao mesmo tempo, governos alinhados recebem apoio político, financeiro e militar, independentemente de sua legitimidade política e social. A paz regional, nesse cenário, é menos resultado de estabilidade e mais fruto de contenção forçada.
Organismos multilaterais como a ONU revelam-se cada vez mais incapazes de arbitrar conflitos reais. O veto seletivo, a aplicação desigual de resoluções e a impotência diante de intervenções unilaterais corroem a credibilidade do sistema internacional.

Como observava o filósofo francês Raymond Aron, “a paz impossível e a guerra improvável” caracterizavam a Guerra Fria. Hoje, vive-se algo distinto: uma paz retórica e uma guerra permanente, fragmentada, híbrida e difusa.
Por fim é possível perceber que o mundo contemporâneo não vive uma crise pontual de segurança, mas um colapso estrutural da arquitetura internacional, construída sob uma hegemonia unilateral. Os tratados antiarmamentistas, longe de promoverem igualdade e confiança mútua, serviram para institucionalizar assimetrias, desarmando muitos enquanto legitimavam o monopólio da força por poucos.
A ansiedade global, portanto, é racional. Ela nasce da percepção de que a paz foi substituída pela gestão do medo e que o direito internacional cedeu lugar à força normativa do mais poderoso. Recuperar a estabilidade exige romper com a ilusão do desarmamento seletivo e reconstruir um sistema baseado em equilíbrio real, soberania efetiva e respeito mútuo — não em ameaças, sanções e canhões apontados. Enquanto isso não ocorrer, a humanidade seguirá prisioneira de uma ordem que fala em paz, mas vive da guerra.

Referências:
As Veias Abertas da América Latina-Eduardo Galeano – 50 Anos: Edição Comemorativa | Amazon.com.br;
Formação do império americano: da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira;
A desordem mundial – Luiz Alberto Moniz Bandeira;
Fotografias:
Onde os EUA têm bases militares? – 27.11.2023, Sputnik Brasil;
BLOG DO PROFESSOR MARCIANO DANTAS: A OTAN E O PACTO DE VARSÓVIA;
CEBRI-Revista | A guerra russo-ucraniana: impactos sobre a segurança regional e internacional;
Países do Oriente Médio: quais são e suas características – Toda Matéria;
A nova guerra na América Latina não é por território, é por fluxos | Brasil 247;




