Eles fazem falta

 

Por: José Nunes;

Retornei à paisagem de Alagamar. Deparei-me com os mesmos homens de rosto enrugado e olhares esperançosos como há trinta e cinco anos, quando não temiam as baionetas.

Reencontrei dois personagens, com os quais recordei a luta pela conquista da terra. Falamos do apoio oferecido pela Igreja e do governo que oprimia. Lembramo-nos daqueles que arriscaram a vida por um pedaço de terra, numa causa abraçada pela fé.

Para mim, os sítios exalam poesia. Meus olhos de criança viram muitos lugares cheios de magia. Muitas imagens guardadas na memória, às vezes lembradas nas minhas divagações, motivam-me. As paisagens de Alagamar nunca se afastaram de mim.

As primeiras notícias que tive do lugar vieram-me das reportagens dos jornais. No jornal “O Norte”, as discussões relacionadas aos incidentes entre agricultores e a polícia, intermediadas pela Igreja, tendo à frente Dom José Maria Pires, Dom Helder Câmara e Dom Marcelo Carvalheira chamavam a atenção deste repórter que engatinhava na atividade das redações.

Voltei ao cenário das lutas. As famílias esperançosas, ainda esperam consolidar sonhos. Já não dormem escondidas na noite nem carecem da Lua para alumiar seus terreiros. Um pedaço de terra e alguns benefícios chegaram, a muito custo.

Quando a posse das terras era aspiração, Severino Izidro e Expedito Gonçalves, poetas guiadas pela Natureza, assumiram o compromisso de luta mesmo enfrentando poderosos proprietários. A presença da Igreja, não temeu as ameaças nem fugiu ao latido dos cães, foi fundamental para que hoje os agricultores exibam a coroa da vitória.

Em Alagamar aconteceu a vitória da união, sem derramamento de sangue. No cenário de tensão, Dom Helder bradou a não violência, a luta da mão estendida contra o braço armado. Não precisou interditar estradas nem invadir ou destruir o patrimônio alheio. Havia consciência cristã para a luta.

Naqueles tempos, a Igreja já vivia sob o reflexo do Vaticano II e da encíclica Populorum Progressio de 1967, assinada Papa Paulo VI, que trata do desenvolvimento do povo, era a luz para os movimentos sociais. Tinham na mente o que disse Santo Agostinho, “a terra foi para todos e não apenas aos ricos”.

Expedito e Izidro proporcionaram-me recordar momentos vividos por todos, olhando para o cenário em tudo aconteceu.

Expedito recorda que os bispos celebravam missa debaixo de frondosa mangueira, com agricultores e observados por militares, que apontavam as armas na direção de todos. Depois se dirigiram para tanger o gado que comia as plantações.

Dom Helder, de braços erguidos em forma de cruz, bradou:
– Filho, você é pequeno também! Tenente, atire em mim, mas deixe os agricultores em paz.
– Não se aproxime, padre!..
– Vou passar…
E passou! O tenente não atirou. Os militares abaixaram as armas. Municiados com talos de jurema, marmeleiro e carrapateira, Dom José, religiosos e agricultores tangeram o gado das plantações.

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