A doença que atingiu de reis a bispos

Por: Neves Couras;

A doença mais antiga da humanidade ainda está entre nós. Mais conhecida como “lepra”, ela ainda faz vítimas no mundo, no Brasil e na Paraíba, onde, em alguns municípios, a incidência é maior.

O Brasil é o segundo país com mais casos de hanseníase no mundo. Em 2023, foram identificados mais de 22 mil casos, representando um aumento de 16%. Na Paraíba, foram registrados 420 novos casos.

Embora os números sejam flutuantes, há focos de transmissão em 64 municípios, com grande preocupação em relação aos diagnósticos tardios e às sequelas. A doença é endêmica no Brasil e na Paraíba, afetando principalmente homens, pessoas pardas e com baixa escolaridade. Por isso, necessita de busca ativa para diagnóstico precoce, mesmo havendo cura disponível.

Situação no Brasil
Os focos: as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste concentram as maiores taxas de detecção.

Situação na Paraíba (PB)
Alta endemicidade: o estado é considerado endêmico, com casos presentes em 64 municípios.
Números recentes: 420 casos em 2023, segundo o jornal A União. Dados de 2024 mostram que 952 contatos de casos novos foram examinados, indicando alta exposição.

Preocupação com sequelas: em 2024, 321 dos 416 novos casos na Paraíba apresentaram sequelas, o que sinaliza diagnóstico tardio.

Perfil dos afetados: os homens são os mais atingidos, cerca de 56% dos casos. Em relação à raça, a maioria é parda, seguida por branca e preta. A maior parte possui baixa escolaridade (ensino fundamental incompleto). Quanto às condições sociais e socioeconômicas, o Ministério da Saúde as classifica como “desfavoráveis e de superlotação”. Ou seja, são pessoas que moram em pequenas residências, o que favorece o contágio, uma vez que este é maior com a convivência prolongada.

Ainda temos o desafio do diagnóstico tardio da doença, o que prolonga a transmissão. É importantíssimo observar os sintomas, pois o período de incubação varia de dois a sete anos.

Segundo dados do Ministério da Saúde na Paraíba, referentes a 2025, houve uma redução de 75%. No entanto, considerando que o período de incubação é longo e que a identificação da doença costuma ser tardia, esses dados precisam ser muito bem avaliados. Segundo a mesma fonte, no Brasil foram notificados:
• Brasil: 207.831 casos
• Paraíba: 4.069 casos, com predominância em homens.

Existe ainda um desafio apontado por pesquisas realizadas pela autora deste artigo: muitas pessoas ainda têm em mente o nome da doença como lepra. Quando o médico informa que o paciente tem hanseníase, na maioria das vezes ele não associa imediatamente do que se trata a doença.

Certa vez, estava em um consultório de dermatologia quando um casal se sentou perto de mim. Como pesquisadora, logo comecei a puxar conversa. Perguntei ao rapaz qual problema o havia levado ao médico. Ele respondeu como se estivesse com uma doença qualquer: Perguntei se ele sabia o que era aquela enfermidade, e ele disse que não, achava que não era nada grave.
Perguntei novamente:
— Você sabe o que é essa doença?
Ele respondeu:
— Não.
Então perguntei:
— Você sabe o que é lepra?
Ele respondeu:
— Ave Maria, eu sei!
Foi então que expliquei o que realmente era a doença. Ele disse que, no município dele, havia muitas pessoas com aquela doença chamada “hanseníase”, mas não sabia que se tratava da lepra. Falei sobre um dos primeiros sintomas, que são algumas manchas indolores na pele, e mencionei o contágio, que geralmente ocorre pela convivência prolongada.

Sei que foi apenas um caso, mas conheci comunidades com índices de hanseníase muito elevados.

Isso é preocupante, pois, se as pessoas se revoltaram com as autoridades de saúde durante a COVID-19, quando precisaram ficar em casa, não imaginam o que a “lepra” causou à humanidade ao longo da história. Como ainda existe certo descaso por parte de pessoas contaminadas que não procuram assistência médica, poderemos enfrentar novos surtos.

Graças a Deus e à ciência, existe medicação gratuita nas UPAs, mas a doença precisa ser identificada precocemente para evitar uma maior contaminação.
Mais informações em:

www.ministeriodasaude.gov.br

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