Por: Antonio Henrique Couras;
Outro dia rolando o feed do meu Instagram me deparei com uma sketch de humor inglesa em que dois diplomatas explicavam porque políticos nunca devem se meter em diplomacia. Além da incapacidade técnica, diziam eles, a diplomacia busca a sobrevivência do país até o próximo século, enquanto a política quer que o governo sobreviva até sexta-feira.
A ironia mordaz da piada ficou ecoando na minha cabeça. No fundo, ela expunha algo essencial e trágico: a curta visão dos políticos que olham apenas para o que os beneficia a curto prazo, sem nenhum interesse genuíno pelo bem-estar da nação ou de seu povo. E nisso eu vi claramente a situação de Israel: um primeiro-ministro que se importa apenas consigo mesmo.
Israel, está afundando cada vez mais em uma guerra de proporções catastróficas. O conflito com os palestinos, longe de ser uma questão puramente religiosa ou territorial, é uma ferida aberta que políticos usam e manipulam de acordo com suas conveniências. E quem mais se aproveita disso, atualmente, é o próprio primeiro-ministro.
Benjamin Netanyahu. O nome que provoca reações apaixonadas, de amor ou ódio, dependendo de quem o menciona. Ele governa Israel há mais de uma década, com interrupções pontuais, e é uma das figuras mais polarizadoras do cenário político internacional. Para alguns, é um defensor incansável da segurança de Israel. Para outros, é um manipulador habilidoso que usa o medo como combustível para alimentar sua permanência no poder.
O problema é que o combustível é inflamável. E ele parece não se importar nem um pouco com isso. O que interessa é manter-se sentado na cadeira mais alta, custe o que custar.
Netanyahu enfrenta diversas acusações de corrupção, incluindo suborno, fraude e quebra de confiança. E é aí que reside o cerne da tragédia: sua permanência no poder não é apenas uma questão de ego, é uma questão de sobrevivência pessoal. Ele sabe que, fora do gabinete, as portas da prisão podem se abrir a qualquer momento. E por isso, se agarra ao poder como se sua própria liberdade dependesse disso — porque, de fato, depende.
Enquanto isso, o país afunda em crises sucessivas. A política interna é um caos. A reforma judicial proposta por Netanyahu, que pretende limitar drasticamente o poder da Suprema Corte, foi vista por muitos como um ataque frontal à democracia. Milhares de pessoas foram às ruas protestar contra o projeto, temendo que Israel fosse transformado em um Estado autoritário, onde as decisões do Executivo não poderiam ser contestadas por um Judiciário independente.
Essas manifestações não foram episódicas. Elas se tornaram parte do cotidiano israelense. A sociedade civil, cansada de ver a democracia ser esfarelada diante de um governo autoritário, resiste como pode. Marchas, greves, boicotes. Tudo para tentar fazer ouvir uma voz que Netanyahu insiste em calar.
Mas o caos interno não parece importar para o primeiro-ministro. Tampouco a devastação de Gaza ou as centenas de milhares de palestinos que sofrem com o bombardeio incessante e a destruição sistemática de suas casas, de suas escolas, de seus hospitais… As vidas perdidas — israelenses e palestinas — são tratadas como números em um jogo de poder onde a única vitória que importa é a permanência no cargo.
Enquanto famílias choram seus mortos, Netanyahu discursa sobre segurança e força, prometendo derrotar o inimigo externo enquanto destrói o próprio tecido social de seu país. E o pior é que parte da população ainda acredita que esse homem é o único capaz de protegê-los. O medo é um veneno poderoso, especialmente quando administrado em doses cuidadosamente calculadas.
O mundo assiste chocado, mas o choque é cada vez mais impotente. Declarações oficiais, resoluções da ONU, apelos humanitários — nada disso parece surtir efeito diante da obstinação de um homem que prefere sacrificar a paz a encarar a própria responsabilidade por seus atos.

Enquanto isso, Israel enfrenta um isolamento diplomático crescente. Países que antes mantinham relações amigáveis começam a repensar suas alianças. E os que já eram críticos da ocupação e do tratamento dado aos palestinos encontram, na atual administração, motivos ainda mais contundentes para condenar o governo israelense.
A economia também paga o preço desse autoritarismo disfarçado de liderança. Investimentos estrangeiros recuam, o turismo despenca, o custo de vida dispara. E no meio de tudo isso, cidadãos comuns — judeus e árabes — veem suas vidas serem destroçadas por um governo que prefere olhar para sexta-feira em vez de olhar para o futuro.
A diplomacia, essa arte lenta e cuidadosa de construir pontes em meio às ruínas, é ignorada em nome de uma retórica belicosa que só aumenta a devastação. E quem se atreve a apontar o óbvio é taxado de inimigo, traidor, antipatriótico. A máquina de propaganda que Netanyahu alimenta com precisão milimétrica transforma qualquer crítica em ameaça.
Mas a verdade é que o verdadeiro inimigo do povo israelense e palestino é justamente essa política míope e predatória. Uma política que não se interessa pela paz porque a paz não serve aos interesses de quem só quer sobreviver até sexta-feira.
Quando a sketch de humor terminou, me peguei pensando que, talvez, os comediantes ingleses tivessem razão. Talvez a diplomacia deva ser deixada para os diplomatas, para os que enxergam além do próprio umbigo e compreendem que governar é, acima de tudo, garantir a sobrevivência coletiva.
O problema é que, enquanto Netanyahu se apegar ao poder como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira, a única coisa que irá afundar é o próprio Israel.
Mas como lutar contra alguém que se recusa a largar o poder porque, para ele, o poder é a única coisa que resta? Como fazer a nação voltar a olhar para o futuro quando seu líder só olha para sexta-feira?
Talvez a solução seja justamente entender que, enquanto a liderança estiver focada na própria sobrevivência, a paz será sempre uma miragem. Porque a paz exige coragem. E essa, infelizmente, Netanyahu já deixou de ter há muito tempo.