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Dona Fideralina Augusto Lima: Um Coronel de saia

Em Lavras da Mangabeira, a Velha Fideralina escreve com o bacamarte e depois lê e assina (Anônimo)

As terras fecundas do Salgado deram ao Cariri e ao Ceará corajosos, valentes, poderosos e prestigiosos coronéis. Podemos citar alguns nomes que elevaram o Município de Lavras ao apogeu econômico, social e política até meados do século XX. Foram eles: Tenente-Coronel João Carlos Augusto, Major Ildefonso Correia Lima, Coronel Honório Correia Lima, Coronel Gustavo Augusto Lima, Coronel Raimundo Augusto Lima e Coronel João Augusto Lima. 

Acontece que de 1856 a 1919, imperou em Lavras da Mangabeira, a vontade de um coronel nada comum para sua época, Dona Fideralina Augusto Lima, sim, ela mesma era a mandatária do lugar. Proprietária de j no inúmeras terras, muito gado, muitos negros e muitos cabras foi uma das maiores expressões políticas do Estado do Ceará em todos os tempos. Herdou do pai, o Tenente-Coronel João Carlos Augusto as terras, os irmãos para criar, o mando e o poder, tornando-se símbolo de mulher destemida, audaz,  guerreira e poderosa. Hoje tem seu nome citado no coronelismo sendo reconhecida e respeitada como tal. Mandou e desmandou em tudo e em todos e ao seu bel prazer. 

Muitas são as histórias e lendas em torno do seu nome. Apesar do poder, prestígio e valor que desfrutou durante sua longa existência, sua vida foi marcada por muitas tragédias que o poder impõe; teve seu pai, um irmão e um neto assassinado, além de uma desavença com seu primogênito que não deixou de ser uma morte para a matriarca, pois, teve que usar da força das armas para mostrar quem mandava na política Local.

Foi inimiga ferrenha do vigário da Freguesia de São Vicente das Lavras, Mons. Meceno Clodoaldo Linhares e implacável quando usou do seu prestígio e denunciou o padre na Assembleia Provincial do Ceará, tomando dele o cargo de presidente da Assembleia para seu filho cel. Gustavo; foi resoluta quando despôs à bala seu filho Honório da Intendência Municipal de Lavras; foi valente ao liderar um exército de cabras para invadir a vizinha cidade de Cajazeiras/Pb e libertar seu filho Joaquizinho da prisão, foi corajosa e audaciosa quando enviou para Vila de Princesa/PB cem homens armados até os dentes para vingar a morte do seu neto Dr. Ildefonso Augusto de Lacerda Leite, desafiando um dos mais prestigiosos coronel nordestino, Marcolino Pereira. Fato que consolidou seu nome no coronelismo do Nordeste brasileiro

Dona Fideralina Augusto Lima foi parte integrante das grandes decisões políticas do Cariri cearense no final do Século XIX e primeira década do Século XX. Participou ativamente da Sedição de Juazeiro fornecendo arma, munição e cabras ao movimento sedicioso, além de confiar a liderança ao seu filho cel. Gustavo quando invadiu com as tropas caririenses o Palácio da Luz na capital cearense. Com o feito aumentou seu prestígio e trouxe para seu feudo desenvolvimento e visibilidade. Usou do seu prestigio político, trazendo a extensão Estrada de Ferro de Baturité até Lavras em dezembro de 1917. Empreendedora administrou suas terras, engenho, casa de farinha, bolandeira, casa de pólvora e senzala com mãos de ferro e muita competência. 

Antes, porém, seus habitantes tinham de ir até Iguatu, mais ao norte, para embarcarem. O prolongamento até Lavras ocorreu por influência política, depois dos 7 anos de espera em Iguatu: “Em 1914 (dona Fideralina) reuniu cabras, armas e munições, e enviou, aos cuidados do filho Gustavo, como ajuda a seus partidários, numa tentativa de retomar o poder, apoiando a ‘Revolução de 14’. O episódio, vitorioso, chamado pelos rebelistas ‘A Sedição de Juazeiro’, devolveu o poder às oligarquias antigas, dele alijadas após o movimento popular ocorrido por volta de 1911. Essa participação foi imortalizada em folheto de cordel. ‘Nós íamos relando o chão/Temendo a bala ferina/Mas quando ele conheceu/Que lá havia ruína/Correu com medo dos cabras/Da dona Fideralina‘. Dois anos antes de morrer, a sua grande influência fez chegar a Lavras a via férrea que tornaria mais fáceis e menos lentas as viagens à capital. No dia da inauguração da estação, a velha mostrava-se alegre, forte; com seu vasto corpo jogado numa cadeira de balanço conversava em altos brados. Sempre gritou.

A estação de Lavras (à direita) em 1922. Revista Ilustração Brasileira

Visionária e apaixonada pelo poder tratou de educar seus filhos e seus netos para terem assentos garantidos nas Câmaras e Assembleias Legislativas. No seio familiar fez dos casamentos dos seus filhos e filhas negócios e conchaves políticos. Casava os filhos com as sobrinhas, detendo o poder do clã em suas mãos, e, as filhas com filhos, netos e sobrinhos de chefes políticos da Região do Ceará, Paraíba e Pernambuco. Não foi por acaso que no final do século XIX, Dona Fideralina detinha 70% do eleitorado cearense em suas mãos.

A família Augusto de Lavras da Mangabeira é considerada a maior oligarquia política do Nordeste brasileiro.  Foram 200 anos de mando direto, desde 1774 com a fundação do Povoado até 1974, quando um descendente perdeu a eleição municipal. Mesmo perdendo o poder local, a família sempre teve e têm grandes nomes na política nacional, estadual e municipal Ceará a fora, tem nomes consagrados nas Artes Plásticas, Cinema, Educação, Direito e Literatura. Dona Fideralina Augusto Lima é hoje Tese de Dourado, Dissertação de Mestrado e Monografia de Graduação

As histórias dos seus feitos, as lendas atribuídas a ela e as muitas opiniões a seu respeito foram escritas e contadas por pesquisadores e historiadores, e cantadas pelos repentistas e cantadores populares.  Em 7 de agosto de 1946, em um artigo publicado pelo Revista O Cruzeiro, a escritora cearense Raquel de Queiroz, diz ser Dona Fideralina a mais famosa dona do Nordeste e a senhora de maior cartaz do seu tempo, uma espécie de rainha sem coroa. O historiador lavrense Joaryvar Macedo, considera Dona Fideralina “uma mulher forte e a maior expressão política do seu tempo“. Para o ex-reitor da UFC (Universidade Federal do Ceará) Dr. Antônio Martins Filho, Dona Fideralina foi valente espírito feminino há quem muito interessava a política do Ceará, para o pesquisador João Alves de Albuquerque, foi Dona Fideralina a respeitável senhora que durante muitos anos dirigiu a política de Lavras, cuja chefia lhe fora arrebatada pela morte, pois, só assim, lhe seria abatido o grande prestígio que sempre desfrutou em sua terra. Certa feita, afirmou Padre Cicero que não se podia escrever a história do Cariri sem deter na pessoa dessa digna matrona. E muitos são os depoimentos e considerações a respeito da matriarca lavrense.

Roda de conversa na casa /museu de Fideralina

Em 2019, a Academia Lavrense de Letras celebrou em grande estilo o seu centenário de morte, um marco na história de Lavras da Mangabeira, assim como foi a sua existência. Na longa trajetória de sua vida ninguém nunca reinou como Dona Fideralina Augusto Lima em sua terra natal. Seus dias foram vividos entre lutas, glórias, tragédias e muitas emoções. Ela fez e assinou sua história com estilhaços de pólvora do seu bacamarte, e, hoje seus pesquisadores, historiadores e biógrafos escrevem sua vida com tinta das suas canetas trazendo a tona uma das mais bela e fascinante história de um tempo que durante décadas seus inimigos tentaram enterrar. 

Mas, a fênix lavrense nos surpreende ressurgindo das cinzas, imperiosa, poderosa e audaciosa como sempre foi. O tempo passa e a história registra.

Fontes: 

COUTO, Cristina. A Tragédia de Princesa: O caso Dr.Ildefonso Augusto de Lacerda Leite. Fortaleza: Expressão Gráfica. 2018.

MACEDO, Dimas. Dona Fideralina Augusto: Mito e Realidade. Fortaleza: Armazém da Cultura. 2017.

FOTO:Dimas Macedo : Literatura . Arte . Direito: Dona Fideralina Augusto

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6 COMENTÁRIOS

  1. Veridiano me mandou pelo privado:

    "História encantadora !
    Me sinto lisonjeado por ter conhecido Lavras e ter fotos com Dr. Tavinho, com vc e tambem dentro ds Casa de Fideralina ( Em Lavras )
    Foi uma visita que marcou minha ida ao Ceará pela .primeira vez.
    Um dia ainda vou voltar aí !".

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