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HISTÓRIA DE PESCADOR. Boqueirão de Lavras da Mangabeira CE

De beleza descomunal e valor inigualável o Boqueirão de Lavras é uma enorme garganta aberta na serra, dando passagem às águas do rio Salgado e  as demais  água fluentes do sul do estado do Ceará. Lugar cheio de mistérios, lendas e mitos herança dos nossos ancestrais indígenas da Tribo Calabaça, os primeiros habitantes e os verdadeiros donos do lugar, segundo o escritor lavrense Joaryvar Macedo:

Com uma altura de noventa e três metros e uma largura de quarenta, com um poço permanente à época da estação seca, constituindo uma das mais lindas e fascinantes paisagens que os olhos humanos possam contemplar. (1984- p.106).

A Serra, a gruta, a caverna, o poço, a fauna e a flora sempre deram lugar as mais belas histórias envolvendo os mistérios que cercam a floresta e o rio. Toda criança da minha geração conhecia tais histórias. Sem televisão, as noites de lua cheia eram mais divertidas e mais humanas, o que tornava os indivíduos mais ricos em experiências transmissíveis. Nos terreiros das casas das fazendas ajuntavam-se homens, mulheres e crianças, interagindo entre conversas, gargalhadas e rodadas de café; sem garrafa térmica, sem fogão a gás e sem copos descartáveis; a cada xícara ou caneca do delicioso cafezinho torrado e pilado na cozinha da casa e adoçado com rapadura (hoje açúcar mascavo) os assuntos corriam soltos, quando a noite avançava nas horas, os contos iam apurando o imaginário, o gestual e o timbre de voz do contista que sem cenário físico mergulhava na imaginação e adentrava no desconhecido. 

Essas histórias também eram contadas nas rodas das calçadas no centro ou na periferia da pequena cidade. Sem televisão e sem jornal, a diversão era os acontecimentos do cotidiano, a vida alheia e as misteriosas histórias que ocorriam no lugar. Alma penada que vagava no interior das casas, nos terreiros e nas ruas e nos sonhos a entregar botijas para salvação da alma eram aparições corriqueiras, lobisomem que atacava moças donzelas e mula sem cabeça que apareciam nas estradas a assustar os transeuntes desavisados. Falavam que no Sítio Calabaço, nas noites das sextas-feiras transitava na estrada uma Mula sem Cabeça, ora escaramuçando, ora espojando-se, atribuíam ao espírito de uma tal Marica que sendo casada foi amante do padre Luiz do Calabaço, com quem teve cinco filhos e segunda a tradição mulher de padre é mula sem cabeça. As histórias de encantamento e magias também faziam parte do repertório sinistro.

Os seres encantados que habitavam a floresta e as águas do rio se transformavam em lendas que seduziam a criançada, formando um grande círculo e com ouvidos bem abertos e olhinhos arregalados ouviam silenciosa e atentamente contos que passava de geração em geração, criando memórias inesquecíveis e preservando a nossa cultura.  Essa tradição era quase uma oração, todos tinham que saber.

Por Lavras ter nascida da exploração do ouro, fazendo parte das Minas dos Cariris Novos, contava-se que existia uma enorme corrente de ouro presa no altar da Matriz de São Vicente Ferrer até a furna do Boqueirão e uma imensa cobra que vivia nas águas, transitava entre a barragem e o poço localizado em baixo das pedras do Boqueirão. Era a guardiã daquela riqueza. Sempre aparecia alguém que jurava ter visto a cobra, ter chegado perto, espiado e depois fugido aterrorizado, dizendo nunca ter visto nada tão assustador. 

As noites de lua cheia eram as mais propícias para as aparições e encantamentos, tanto no fundo do poço, como no interior da gruta era comum se ver salas ricamente atapetadas, mesas e altares com lindíssimas toalhas bordadas, baixelas de metal precioso e quando a água serenava era visto um carneiro de ouro em pé sobre uma pedra, prenunciando ali haver um intenso cabedal subterrâneo. Nas escâncaras da gruta que só se pode chegar lá de balsas pelo poço ou subir os degraus nas pedras.  Contava-se que quem se arriscava a alcançar a tal mesa com longas varas e derrubar toda aquela riqueza, era em vão, pois, em poucos minutos estava novamente composta.

Falavam que nas profundezas daquelas águas habitava a mãe d’água, uma mulher de longos cabelos negros, corpo escultural, sendo metade peixe e metade mulher, voz aveludada, quando ela pulava das pedras e mergulhava na água, os pecadores que estavam com suas redes na água não conseguiam pescar mais nada. Muitos até juravam ter vistos os longos cabelos desaparecerem nas águas.  

Porém, a mais famosa e mais conhecida de todas as lendas, era a da Princesa Encantada: diziam que em época de baixa do Rio Salgado um jovem vinha a cavalo pela margem do rio em direção a Lavras. Quando chegou a certo ponto da serra viu uma linda jovem sentada com sua almofada fiando, uma galinha com seus pintinhos dourados e um carneiro, também dourado. 

Ele parou, olhou, e, ela disse: – Bom dia! Vai a Lavras? Ele respondeu: – Sim. Então, ela fez um pedido: – Me traga 5 (cinco) objetos, mas, preste atenção, só me serve os cinco, não pode faltar nenhum. São cinco! Uma agulha dourada, um novelo de linha dourado, um pente dourado, um espelho com a armação dourada e….o último ela falou baixinho no ouvido do rapaz que seguiu viagem. Chegando a feira em Lavras com muito custo conseguiu os quatros primeiros objetos, esquecendo-se do quinto. 

Ao retornar encontrou a moça no mesmo lugar a sua espera. Ela adiantou-se e disse: – Você não trouxe tudo que lhe pedi. Pena que seu trabalho foi em vão, não vai me servir. Não posso quebrar o encanto do qual fui vítima. Ele tentou argumentar, mas de repente, a moça e tudo que estava ao seu redor desapareceram.

Durante semanas ele procurou em vão a bela moça, e durante alguns meses seus dias foram vagando pela serra em busca dela. Até que um dia ele sumiu, e seus familiares o encontraram morto entre as pedras. 

Além da beleza natural, material e imaterial – o Boqueirão de Lavras é um pequeno cânion e por estar numa área de transição de dois biomas, é comum encontrar plantas entre as quais se destacam: mangaba, pereiro, angico, pau-branco, xique-xique, imbê, gravatá, caroá, pau-d’arco roxo, jucá, cedro, trapiá, cajueiro, carnaúba, braúna, peroba, aroeira, jacarandá, ipê verde, canafístula e oiticica, aliás, no rochedo ao lado do cânion existe uma oiticica centenária que durante muitos anos serviu de ponto de encontro para os nossos saudosos piqueniques.

Toda essa maravilha, infelizmente, é, e sempre foi propriedade privada e passando de mão em mão, nos últimos anos vem sendo explorada, descaracterizada e agredida pelos proprietários. Construções de bares, chalés e portão de entrada, impedindo o acesso ao local, mostra o quanto o poder público não se importa com aquele lugar. O estado alega não ter recursos para mantê-lo e o município ignora sua existência. Nenhum prefeito tomou a iniciativa ou cogitou a possibilidade de desapropriação. O que é lamentável. A última vez que visitei me causou tristeza em ver a degradação e poluição do meio ambiente, muitas eram as garrafas, copos e colheres descartáveis espalhadas nas pedras, em baixo da oiticica, nas margens do rio e boiando nas águas.  

O percurso que dar acesso a serra foi completamente desmatado e loteado, ameaçando a fauna e flora do lugar, muitas espécies já em extinção encontram-se seriamente ameaçadas de desaparecerem.  

Apesar de fazer parte do roteiro turístico e dos cartões postais do estado do Ceará, nada e nenhum estudo ou projeto foi realizado por lá, só mesmo a especulação imobiliária e financeira do lugar. E como disse Joaryvar Macedo: Enquanto isso, o Boqueirão permanece escondido e perdido no sertão cearense, o velho e lendário Boqueirão de Lavras da Mangabeira, maravilha rústica, mas soberba e eterna, que, por ignorada, a História não incluiu entre as principais do mundo. (1984, p. 107).

Ao final apresentamos um vídeo contextualizando o Boqueirão e sua integração com a cidade, com um fundo musical do hino de Lavras da Mangabeira,  num solo de violão do violonista, instrumentista, compositor e concertista internacional Nonato Luiz, filho de São José das Lavras da Mangabeira,

 

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3 COMENTÁRIOS

  1. Fui transpotado de volta a minha infancia em Lavras da Mangabeira, com tao bela narrativa por CRISTINA COUTO, ILUMINADA, em suas palavras, que nos deixa de boca aberta.e trazendo para o debate a preservacao do BOQUEIRAO.

    Parabens

  2. Essa é, sem nenhuma dúvida, uma das maiores, se não a maior beleza natural do Ceará que como todo curso do Rio Salgado clama por socorro.
    O Bicho Humano, na ânsia da acumulação e do lucro fácil, vem agredindo impunimente um reverso natural que dá tudo sem cobrar, mas seguindo a regra inexorável da natureza, não se queixa, se vinga.

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