Por: João Vicente Machado Sobrinho;
O dia 28 de abril é uma data nacionalmente consagrada ao Bioma da Caatinga, uma das muitas dádivas da nossa mãe natureza. Genuinamente brasileira, a Caatinga é um bioma único no planeta terra e, apresenta características tipicamente sui generis. Em que pese a sua aparência tenebrosa, o bioma de que falamos é emblemático e além disso, possui contrastes visuais que talvez assustem os desavisados.
Geograficamente o bioma da Caatinga, se situa na região Nordeste do Brasil e tem uma área aproximada é de um milhão de Km2, o que equivale a 12% do território nacional. As suas características climáticas que mais chamam a atenção, é a escassez e a secular irregularidade das chuvas. Esse, por ser um fenômeno natural, foge ao nosso controle. Outras características da Caatinga é a baixa umidade relativa do ar, além das temperaturas elevadas e da baixa amplitude, que variam entre 28°C e 32°C.
Podemos até afirmar com convicção, que volumetricamente as precipitações caídas sobre o Semiárido e o Nordeste de um modo geral, podem até serem consideradas como suficientes para alguns dos microclimas da região. Todavia, o grande e crucial problema que foge ao nosso controle, é a má distribuição das chuvas, tanto no aspecto temporal quanto espacial.
Ora, se temos uma precipitação que varia entre 300mm e 800mm, não há como falar em sêca. Segundo as pesquisas cientificas do saudoso professor Manelito Dantas, no Nordeste chove mais do que em Paris, uma cidade que é situada num clima tropical úmido e onde não se fala em seca. A despeito de tudo isso disso, as estatísticas mostram que o Semiárido brasileiro, é aquele mais habitado entre todos os demais Semiáridos do planeta terra. Se tivermos a curiosidade de assentar a ponta de um lápis grafite na cidade do Recife marcada em um globo terrestre, iremos perceber que a capital de Pernambuco é a maior cidade daquele paralelo à linha equatorial.
Os solos do Semiárido, notadamente aqueles das áreas mais escarpadas, via de regra são pobres em nutrientes. Eles são subtraídos pelas erosões hídrica e eólica para serem depositados nas depressões, ou então fazerem parte do assoreamento dos rios e das planícies litorâneas. Essa é a realidade do forte impacto ambiental, que tem ocorrido cada vez com maior frequência como uma consequência direta do desmatamento desordenado da Caatinga, vítima de práticas agrícolas inadequadas e deletérias como é o caso do fabrico do carvão. Esse é um crime ambiental que vai passando ao largo do olhar leniente das autoridades federais, estaduais e municipais e provocando o surgimento de manchas já desertificadas, em que a regeneração é de alto custo.
Tal qual acontece em áreas desertificadas, o Semiárido também tem seus Oásis que emergem em manchas úmidas geralmente nas maiores altitudes. Um bom exemplo desses Oásis, são as manchas úmidas comuns nas áreas de chapadas tais como: Borborema, Araripe, Apodi e Ibiapaba, onde a umidade é maior e as temperaturas são mais amenas.
Em se tratando da vegetação do bioma da Caatinga, ela é composta na grande maioria, por Xerófilas e Xerófitas.
As plantas xerófilas são aquelas capazes de se desenvolver e viver em ambientes com muita pouca água. Têm raízes curtas e são pouco profundas e com o mínimo de chuvas ou até mesmo com a própria umidade natural ou o sereno, podem sobreviver. São espécies muito comuns nas estepes ou nas regiões semiáridas. Os exemplos que nos são mais conhecidos de plantas xerófilas são: as cactáceas, as plantas suculentas ornamentais, o capim buffel, o alecrim do campo, o agave e o carrapicho de cavalo.
As plantas xerófitas por sua vez, são plantas de maior porte que por precisarem de água, desenvolveram seus mecanismos especiais de sobrevivência. São plantas que possuem um sistema radicular mais robusto, mais longo e mais profundo, um caule mais grosso e a capacidade de encontrar água no lençol freático ou mesmo em fendas. Os exemplos mais conhecidos de plantas xerófitas são: O juazeiro, o umbuzeiro, o pau ferro ou jucá, a aroeira, a baraúna, o ipê, pau d’arco ou craibeira, o cumaru, a canafistula, o sabiá, a algaroba e árvores frutíferas diversas.
Os habitantes dos biomas úmidos e sub-úmidos, em que as estações do ano são bem definidas, ao avistarem o cipoal da Caatinga pela primeira vez, certamente imaginarão que aquela fauna está morta para sempre. Ledo engano! eles precisarão retornar ao mesmo local em época de chuvas para ver e reverenciar o inacreditável milagre do verde.
A flora esquisita do bioma da Caatinga é um exemplo único de adaptação, de resiliência, de resistência e de tenacidade, predicados que com certeza inspiraram Euclides da Cunha a definir o sertanejo catingueiro dessa maneira:“O sertanejo
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a expenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo — es, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.”
Pois bem, a flora do semiárido em avaliação feita e catalogada pelo Instituto Nacional do Semiárido-INSA, tem registradas mais de 11 mil espécies vegetais, onde estão presentes: as leguminosas, as gramíneas, as euforphorbiáceas, as bromélias e as cactáceas.
A fauna do bioma Semiárido por sua vez, também pode surpreender pelo número de espécies. De acordo com os números catalogados pelo INSA, o semiárido possui aproximadamente 1.307 espécies animais, das quais 327 são exclusivas da região e são assim distribuídos:
. 178 espécies de mamíferos.
. 591 espécies de aves.
. 177 espécies de répteis.
. 79 espécies de anfíbios.
. 241 espécies e peixes.
.221 espécies de abelhas.
A população do Semiárido apurada pelo censo do IBGE no ano de 2024, é de aproximadamente 28 milhões de pessoas, distribuídas nas zonas urbanas e rurais dos seus 1.262 municípios:
Malgrado, a região Nordeste do Brasil ter um clima comprovadamente irregular e não ser um bioma apropriado para a prática de uma agricultura de larga escala, a sua produção agrícola é variada, e seria perfeitamente suficiente para suprir o consumo interno.
Um manejo agrícola planificado, com certeza levaria em conta o vocacionamento dos microclimas internos para definir o que plantar, como plantar e onde plantar. O planejamento também guiaria as atividades agropastoris que seriam ditadas pelo vocacionamento de áreas ao longo do bioma.
Para exemplificar tomemos o caso do nosso estado da Paraíba, em que é fácil identificar três microclimas bem definidos a saber: A Zona da Mata, o Agreste da Borborema e o Sertão.
Zona da Mata: nela ocorreu um grande e desordenado desmatamento de origem secular, que a transformou em zona da cana de açúcar. As precipitações pluviais no espaço da Zona da Mata Atlântica, variam entre 750mm e 1.000mm. enquanto isso no clima tropical litorâneo contiguo, pode atingir até o índice pluviométrico de 1500mm.
A Zona da Mata, em conjunto com a faixa litorânea, é suficiente para abastecer o Estado da Paraíba de: arroz, milho, feijão, mandioca, inhame, macaxeira, variadas qualidades de frutas tropicais, além da própria cana de açúcar.
No entanto é nessa Zona Costeira que se concentram os maiores latifúndios do estado, e onde está instalada a chamada anarquia da produção, que é quando a agricultura praticada, prioriza aquilo que é conveniente para as oligarquias agrarias e os carteis econômicos.
Zona do Agreste: é intermediária entre as várzeas litorâneas aí incluída a Zona da Mata e o Sertão e Alto Sertão. No caso da Paraíba existe uma nomenclatura própria que denomina o Agreste Meridional como cariri e o Agreste Setentrional como Curimataú, nesse último contida uma mancha úmida encravada, denominada de Brejo.
É uma área em que o regime climático enseja o vocacionamento para as atividades agropastoris, com o foco voltado para a bovinocaprinovinocultura extensiva.
A escolha de raças adaptadas e resistentes e de pastagem adaptadas ao nosso clima não é mais uma aposta, haja vista a experiência exitosa dessa atividade na Fazenda Carnaúba em Taperoá, uma fazenda e laticínio/ laboratório.
Se olharmos para a região Centroeste dos Estados Unidos da América do Norte-USAN, iremos perceber que o clima local varia de Semiárido a Árido e é justo em estados de áreas desertificadas como: o Texas, o Novo México, o Arizona e Nevada, que encontramos os grandes rebanhos de corte daquele país, que são criados de forma extensiva ou em gigantescos confinamentos de mais de 100 mil cabeças.
A alimentação volumosa do rebanho vem da forragem à base de resistentes xerófilas, enquanto a proteína que é relativamente de muito menor volume e custo, pode ser adquirida e adicionada à ração de lactação ou de engorda.
Zona do Sertão e Alto Sertão: poderia ser uma área de atividade mista de produção dividida entre a agricultura familiar intensiva e a agropecuária já que o clima é propício para ambas. A água que foi um problema secular para o nordeste, não o é mais. A integração das bacias do Nordeste Setentrional com a bacia do Rio São Francisco- PISF, veio nos governos Lula e Dilma para assegurar a nossa garantia hídrica.
Esse conceito que insistem em nos impor de que o Nordeste, e principalmente o Semiárido são biomas inviáveis, é muito equivocado. Aqui nós temos sol, temos solo, temos energia, e temos a reconhecida disposição do nordestino, não de brigar contra a natureza, mas de conviver em harmonia com ela. A solução definitiva existe sim e ainda não foi aplicada devido a fatores como: o sistema fundiário, a mudança do modo de produção e de acumulação de riquezas.
Diante da evidência dos fatos e usando o conhecido tema dos poetas Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares, nós diríamos que essa mística de que “o Nordeste é ruim seco e ingrato,” é na verdade uma falácia preconceituosa para nos reduzir e explorar!
Referências:
SEMIÁRIDO – ASA Brasil – Articulação no Semiárido Brasileiro;
As precipitações médias no semiárido – Pesquisa Google;
Os Sertões: A Terra, O Homem, A Luta. III / Obras de Euclides da Cunha;
O Semiárido Brasileiro — Instituto Nacional do Semiárido – INSA;
Fotografias:
VENTO NORDESTE: AS VARIADAS FACES DA FLORA DA CAATINGA;
Mosaico de imagens das regiões semiáridas do mundo – Pesquisa Google;
Os 5 perigos da desertificação no Semiárido brasileiro;
Xerófilas evoluíram para sobreviver em solos secos e áridos;
Imagem da zona da mata na Paraíba – Pesquisa Google;
A História da Caatinga – Conheça a origem do único bioma completamente brasileiro – Tunes Ambiental;
Imagem da zona da mata na Paraíba – Pesquisa Google;
Agricultura irrigada em São Gonçalo pb – Pesquisa Google;