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Trinta Navios de Dimas Macedo

Navegar, mergulhar e voltar à tona sempre foi um desafio na vida de Dimas Macedo. Os Navios construídos por ele navegaram do Rio Salgado ao Alto Mar do Oceano Atlântico, levando em seu convés escritores neófitos que assim como eu necessitam do seu farol para nos guiar.

Os fantasmas acorrentados no porão estão sempre a nos perturbar com o barulho de suas correntes. São espíritos aprisionados no mundo inconsciente que não sossegam e nem deixam os escritores sossegar. Impacientes com fatos não realizados, com palavras e frases não ditas e com planos não concretizados ficam pairando no ar. Toda a energia emanada dessas não realizações criaram no plano real verdadeiros enigmas, lendas e mitos se perpetuando até os nossos dias. São desejos retraídos, nós não desatados, sentimentos não expressados, e vidas interrompidas.

Os clarões de sua memória atravessam as ruas da sua pequena e amada cidade, Lavras da Mangabeira, e nelas ele ver pessoas que já não existem mais, que já atravessaram o fio da existência humana, e com ele saem a cavalgar os estreitos do inconsciente a procura de momentos felizes, desafiadores e ousados do seu tempo de menino interiorano.

Vir ao mundo foi para o menino sensível e sensitivo uma tortura amarga, uma dor, um desalento e solidão. Nascer, crescer e conviver num ambiente completamente antagônico ao que trouxe na alma é muito confuso, incompreensível e angustiante. Seu mundo intelectual era grande demais para caber nos espaços da sua casa. Somente a amplidão da rua em que morava lhe dava a liberdade e atributos necessários para seus sonhos infantis. A Rua da Praia, a rua que desemboca no Rio Salgado, foi a praia dos sonhos, o mar onde o menino desaguou suas mágoas, suas angústias e seus ressentimentos.

A solidão dos dias atuais é a herança da solidão da infância, são espaços nunca preenchidos, são feridas abertas, choro reprimido, dor sufocada e luto não vivido, porque chorar era sinal de fraqueza. O grande desafio era conseguir o possível, algo simples lhe exigia um grande esforço até descobrir que tudo estava nele e que só dependia dele. O que resultou em mais solidão e mais dor.

A fé, a renúncia, a paixão e a esperança acompanham a vida dolorida e solitária do poeta, são sentimentos inerentes da sua alma inquieta e aflita, sempre em busca do invisível e do impossível, pois, o possível é imperceptível e pouco para ele. A dualidade é sua marca registrada, ao mesmo tempo em que se recolhe se entrega, nas noites escuras acende fogueiras que são clarões de dor e de paixão, busca a plenitude da vida no vazio e encontra sua verdadeira identidade.

No entendimento e na distância de todas as coisas descobriu que a vida é um rio e o grande desafio dessa imensidão é remar contra maré, driblando a correnteza, desviando as pedras até desaguar na cachoeira escusa do seu coração, transpondo e superando as imperfeições num eterno recomeço.

O cotidiano que hoje enche o adulto de aflições, de pessimismo e de solidão são os mesmos sentimentos que carrega na alma a oculta saudade e amor que o poeta nutre pela sua terra natal. Lavras da Mangabeira carrega uma rica e imponente história por ele revelada, reinventada e reverenciada com outro significado, outra simbologia, mas a mesma dor.

A dor e a nostalgia é uma constante na vida dos poetas. Nascer é uma dor, viver é um fardo, é como se ele carregasse toda a dor do mundo na sua alma, ele não só carrega, ele sente, vive até as dores que não são suas, e adoece.

De volta ao convés ele retoma o leme, dirige, comanda e lidera. Valente rasga o peito dolorido para enfrentar a vida e amparar os amigos na navegação literária. Numa tentativa heroica e libertadora solta os que se encontram presos ao cais; os mais arrojados são arremessados para o alto mar até atingirem outros portos, recebendo dele a chancela para aportarem seguros em terra firme.

Em seus Trinta Navios, Dimas Macedo mostra sua consciência divina dentro de um ser humano complexo, sensível e sensitivo. Ele tem uma visão simples e profunda do mundo que experimenta a vida com todas as prerrogativas dadas por ela, se regenerando e renovando a cada ato consciente com a mesma vitalidade vibracional independente da sua vontade e das sensações emanadas pelas suas emoções, onde tudo acontece formando esse grande SER que é um verdadeiro presente de Deus nas nossas vidas.

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