O pato e a garrafa

Nas técnicas adotadas pelo Zen Budismo existem os koans (pequenas histórias enigmáticas destinadas a confundir o intelecto até que apreenda que existe dimensão além do puro pensamento, a revelar alternativas que suplantem a compreensão pura e simples, confunda e desconcentre o raciocínio diante das revelações através da intuição). No dizer de Alan Watts, então o Zen conseguirá, assim que o discípulo chegue a um impasse intelectual e emocional, transpor a distância entre o contato conceitual de segunda mão com a realidade e a experiência em primeira mão.

O pato e a garrafa é uma dessas pequenas histórias-desafio. Nela o mestre oferece ao discípulo a chance da autodescoberta, solicitação de que descubra o jeito adequado de tirar um pato de dentro de uma garrafa sem que, nisso, mate o pato ou tenha que quebrar a garrafa.

Passados tempos de meditação, os postulantes da revelação interior buscam mil formas de solucionar o impasse. No meio tempo, visita o instrutor, a oferecer alternativas possíveis e imagináveis ao desafio recebido. Vasculha todos os cadinhos da mente, sem, contudo, encontrar resposta suficiente ao que caberia naquele exame, na intenção religiosa de oferecer o modo de pacificar o espírito em desenvolvimento.

Quando, então, lá um dia, apercebe que não existira pato, nem garrafa, e que tudo significava tão só a presença do ser em formação diante do Universo, razão suficiente de calma e equilíbrio, causas e fundamento da existência de tudo quanto há. E desperta…

Dia desses, alguém pediu que escrevesse a propósito de uma rosa presa em uma redoma. (Você atende a pedidos para texto? Eu adoraria ver um texto seu sobre a beleza da rosa sufocada numa redoma). Quis encontrar meios de responder à solicitação da amiga, no entanto insistentemente veio aos pensamentos essa história zen que resolvo deixar aqui registrada, talvez razão de frustração ou, quem sabe?, de lenitivo ao pedido que me fora feito naquela ocasião.

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