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João Pessoa

A boca do povo

Aprendi há muito que, na vida, o fundamental é a manutenção. Como evitar que uma casa caia? Checar sempre por cupins, infiltrações, fios defeituosos… Como fazer as roupas durarem uma vida? Nunca guardar roupas sujas, nunca lavar uma peça colorida junto às roupas brancas, toalhas lavadas semanalmente… Como não se esquecer a ortografia francesa? Escrevendo. Lembrar que “hoje” se escreve “hau-jour-d-‘-hui”. Em espanhol, “zurdo” é “canhoto” e “sordo” que é surdo.

É conhecidíssima a frase que diz que o hábito que faz o monge. Não a vestimenta homônima, mas a pratica cotidiana de sua fé. Com tudo na vida se passa isso. Não à toa que chamamos uma pessoa inteligente e “estudada” de “culta”. O conhecimento também é um cultivo, diário, intensivamente laborioso e infinito.

Não há muito li que a Professora e Linguista Maria Helena de Moura Neves, aos 91 anos de idade e 70 de profissão não concordava com a chamada “linguagem neutra”. Seria um purismo linguístico ou conservadorismo político? Não. Muito pelo contrário, a professora defende que a língua pertence ao povo, não à academia ou às elites, assim, “forçar” o uso da linguagem neutra, por mais nobre que seja o seu objetivo, vai contra a constituição de uma linguagem.

Historicamente, acredita-se que a linguagem tenha surgido espontaneamente em três regiões do globo mais ou menos ao mesmo tempo, cerca de 3500 anos antes de cristo. Na Ásia Central, na região mesoamericana e no Oriente Médio. O que historiadores e antropólogos debatem é o porquê do surgimento da escrita. Uma tese amplamente difundida é a de que a escrita surgiu com a sedentarização das populações humanas e o desenvolvimento da agricultura, assim, passou-se a haver a necessidade de registrar-se a produção agrícola, seus excedentes e, consequentemente, os cálculos dos impostos devidos.

O fato é que, indiscutivelmente, a linguagem escrita surgiu, e mantém-se assim até hoje, com a finalidade de registro físico da palavra falada. E por mais que tenham havido tentativas de criar-se línguas “neutras”, o resultado foi sempre o mesmo: fracasso acachapante. Alguém lembra do esperanto?

Das poucas coisas que as elites nunca conseguiram tirar de nós, uma delas foi a língua. A escrita pode até ser algo extremamente elitista, mas a língua é nossa. Não foram monges nem acadêmicos que transformaram o “vossa mercê” em “vosmecê”, este transformado em “você”, quem vem sendo abreviado para um prosaico “cê” e escrito simplesmente como “vc”.

A chamada linguagem neutra que vem se conclamando nos últimos anos, apesar de ter os melhores objetivos de inclusão de populações marginalizadas, seja da tentativa de subverter a lógica machista gramatical do plural sempre masculino; seja a tentativa de abarcar, na linguagem, a existência de pessoas que não se identificam com o binarismo biológico de macho e fêmea, masculino e feminino, tentando-se incluir aqueles que não se identificam com nenhum dos gêneros, ou com aqueles que identificam ora com um ora com outro.

O fato é que percebi que a linguagem é, per se, neutra. Explico: a linguagem nada mais é que uma espécie de termômetro antropográfico. Não se pode culpar os termômetros pelo frio ou pelo calor, eles apenas exibem os fatos. A linguagem não difere em nada disso. Quem já teve a oportunidade de ler alguma obra escrita em português, que não seja o brasileiro, pôde observar que, apesar da estrutura gramatical e ortográfica ser idêntica, as línguas são completamente diferentes. E isso tem um motivo.

Fonte: Internet

No caso brasileiro, desde a independência, perdemos qualquer paixão à língua lusa. Com a independência, perdeu-se o sentido de manter “pura” uma língua que sequer era nossa. Até a chegada da família real em 1808, a língua mais falada no território brasileiro era um híbrido de português e tupi. Sendo a língua metropolitana presente de certa maneira mais homogênea apenas no litoral do nordeste, de colonização mais antiga. Então impor os modos puristas e nacionalistas de uma língua alienígena não fazia sentido, ainda que na construção de um Estado recém-nascido. Do lado de cá do atlântico adotamos um cosmopolitismo em que adotamos “barbarismos” franceses, italianos, alemães e ingleses, sem nunca esquecermos da língua comum falada aqui por quase 300 anos.

Assim, os portugueses, mantiveram seu purismo, traduzindo termos, que para nós, são ridiculamente intraduzíveis. Alguém já imaginou usar um “rato” para posicionar o cursor no seu computador? Nós, seres do mundo, usamos mouses, sentamos em tamboretes, fazemos muita encrenca e nos cobrimos de perebas.

Mas voltando à neutralidade linguística, usar termos que podem ser facilmente aplicáveis no inglês, que tem por natureza, termos neutros, em línguas românicas, como o português, o espanhol, o francês e afins, a coisa não se adapta tão bem. Essas línguas tem palavras com gêneros, e usos de expressões como “todes” como plural para um conjunto de pessoas, pode parecer inclusivo, contudo, o cotidiano “todos” já abarca masculino e feminino, e por que não convencionarmos que abarque todas as outras identidades de gênero?

Antes de mais nada, me defendo. Não digo isso por purismo e relutância à mudança, pelo contrário. A língua vem da boca do povo, não de termos e neologismos criados por acadêmicos e eruditos. Então, por mais que reconheçamos a existência de uma pluralidade de expressões do ser, enquanto o povo, a massa, todo mundo não entender isso, a língua permanecerá estática. O movimento de inclusão é fundamental, mas ele deve ser focado na ampla base e subir até o topo da pirâmide onde repousa a gramática brasileira. Se o caminho for o oposto será apenas um debate elitista e fadado não à inclusão dos excluídos, mas à exclusão dos “ignorantes” e um debate de grande importância será sepultado e em sua lápide será escrito “aqui dorme um debate inútil”.

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