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Ter ou pertencer

Alguns acontecimentos, às vezes, em lugares tão opostos, conseguem nos tocar, e, acredito que isso acontece, pela ligação que possuímos uns com outros, mesmo que não saibamos expressar ou compreender tal ligação.

Um acontecimento que merece uma tomada de posição, se não pública, mas do nosso interior foram as mortes de Dom Phillips e Bruno Pereira.

Sei que para uma pequena parte de brasileiros, como também por parte do governo, foram apenas duas mortes, dois desconhecidos. E o que são duas mortes se o Brasil já perdeu, nestes dois últimos anos, aproximadamente 670 mil brasileiros, que partiram pelo desrespeito à vida humana? E diferentemente dos entes públicos, que cada dia demonstram mais seu desrespeito pela vida, para maior parte da população brasileira, uma vida vale a pena. Por uma vida, deve-se lutar. Quem sabe, se esta vida, pode ser a sua ou de alguma pessoa ligada a você?

Não vou repetir aqui, passagens dos livros sagrados e dos ensinamentos de Jesus, pois esses são conhecidos. O que se faz necessário neste momento, é que essas palavras, tão repetidas, se transformem em ação concreta. Não basta falar. Precisamos fazer.
Uma das imagens que me levaram a escrever este texto foi essa: Foi muito divulgada na internet nos últimos dias, e posso dizer: como essa imagem me tocou…

Considerando que uma imagem não só vale por mil palavras, mas conta uma história, para mim, essa imagem significa o pertencer. Eu não tinha ideia da profundidade dessa palavra “pertencer” – pertencimento. É completamente diferente de ter!

A minha comoção com a perda desses dois homens, foi pelo pertencimento à Terra. O trabalho que eles estavam desenvolvendo incomodou. Em junho passado, foi publicado pelos dois pesquisadores, defensores… (não importa a função que a cada um foi designada), um trabalho com 211 páginas, a que deram o nome de: ”Uma fundação Anti-indigena – Um retrato da Funai sob o governo de Bolsonaro”. Publicado pelo INESC e INA – Indigenistas Associados.

A apresentação se inicia com este texto:

“Sob o governo Bolsonaro, a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem implementado uma política que cabe chamar de anti-indigenista. Contraditório, chocante, mas verdadeiro, esse é o tema do dossiê que se apresenta, fruto da parceria entre a Indigenistas Associados (INA), associação de servidores da Funai fundada em 2017, e o Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), organização não governamental atuante há 42 anos nos espaços de discussão de políticas públicas, direitos humanos e orçamento.

Em 13 de setembro de 2021, durante a abertura da sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, a alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, expressou preocupação com a situação dos indígenas brasileiros[3]. Ela, então, disse:

“No Brasil, estou alarmada com os recentes ataques contra membros dos povos Yanomami e Munduruku por mineradores ilegais na Amazônia. As tentativas de legalizar a entrada de empresas em territórios indígenas e limitar a demarcação de terras indígenas — notadamente por meio de um projeto de lei que está em análise na Câmara dos Deputados — também são motivo de séria preocupação. ”

Trago esses recortes, não para discutir especificamente seu conteúdo, até mesmo porque, prefiro fazer essa abordagem, talvez, em outro espaço, mas quero enfatizar as palavras tão verdadeiras e preocupantes desse dossiê, principalmente, no Brasil de agora. Quero me colocar ao lado de quem defende, por pertencer, um povo que tem a livre propriedade desse lugar, ao qual defendem, não por ter sido dado por alguém, mas porque foi dele tirado. Os indígenas não estão lutando por novos territórios, estão lutando para que a terra em que vivem, em que viveram seus ancestrais, de onde tiram o essencial à sua vida, não lhe seja roubada.

Discursos tais como: “Índio já tem terra demais! ”, “Para que Índio quer tanta terra se nada sabe fazer com ela? ”. É exatamente por essas falas que me proponho a falar. Mas, sei que ouvirei: “você nem indígena é! ”.

Ainda que não precise justificar minha defesa a esse movimento, quero me posicionar como mulher que em suas veias carrego, sim, o sangue indígena. E, se alguém duvidar, apresento ainda minha história. O primeiro casal, ou seja, meus primeiros ancestrais no Brasil considerando a linhagem materna foram: Pedro Ferreira das Neves, chamado Pedro Velho, ele português, casou-se com Custódia Amorim Valcácer, indígena pertencente à tribo dos Cariris, natural de Mamanguape – PB na última década do século 17. Acredita-se que pela tradição familiar, os pais de Custódia abrigaram em sua casa o português Pedro Velho, ferido em combate contra os indígenas. Tendo se recuperado dos ferimentos, o mesmo teria se casado, por gratidão, com a filha do casal indígena, a qual veio ser batizada com o nome de Custódia. Além do mais, era tradição dos povos indígenas que habitavam o litoral a prática de se trazer “genros” de outras tribos para se casarem com suas filhas. Sendo, inclusive, o “Caramuru” o caso mais famoso exemplo dessa prática. Pedro, nasceu em 1655 em Portugal e faleceu em 1740, no Brasil. Bem, a História é longa, não cabe aqui falar das famílias descendentes desse casal, pois não é esse, o sentido dessa apresentação. Apenas dizer: Não cheguei nas Caravelas. Já estava aqui. Faz apenas 300 anos que o sague europeu está em minha família. Chegamos aqui, talvez, há dez mil anos.

Quero apenas dizer que, como eu carrego, em minhas veias, o sangue indígena, muitos que não sabem, também o carrega. Falei em nosso artigo anterior, que havia, em mim, um sentimento contrário à posse da Terra. Porque, sinto que a terra, não é para ser usada como forma de poder. A terra, assim como o próprio planeta, precisa de nós, seus filhos, para dela cuidar e defender. Como filhos da Terra que somos, na verdade nós não a temos, nós a ela pertencemos. E, essa diferença é muito grande. Quando você compreende que a ele pertence, somos igualmente parte de todos os seres vivos que nela se desenvolvem. E, por isso, somos pertencentes a um povo e a um lugar que está precisando urgentemente de nós. Não podemos deixar parte de nós morrer. Assim como os hansenianos, perdem partes de seus corpos pelo mal que domina seu corpo, estamos deixando que parte de nós se perca. A imagem de um homem “branco” que tem ao seu lado uma pequena menina indígena, demonstra que ali, naquela convivência, existia um respeito e um cuidar. E só cuida e respeita aquilo a que pertencemos. É diferente, de dizermos: Eu cuido e exploro a terra que me pertence. A Terra não é um bem para ser pertencido, é um ente ao qual pertencemos.

Por falta dessa consciência, nós brasileiros, estamos deixando de existir. Quando permitimos que aconteça o que aconteceu com esses dois homens, e nada fazemos para defendê-los, ou mesmo concordamos com aqueles que os mataram. Para o nosso grau de pertencimento, isso é muito perigoso, é doentio. Perdemos a noção do que fomos, do que somos e do que seremos.

Deixar que o governo, a polícia e outros homens que não compreendem seu pertencimento à Terra, tratem com descaso esse fato, estamos dizendo ao mundo: não nos defendemos como parte integrante desse lugar, já nos perdemos. Já não somos nada. E mais uma vez lembro o que Jesus disse: Tu es pó e ao pó voltarás. Precisa explicação melhor ou razão melhor para dizer que precisamos cuidar e proteger esta parte de nós? A Terra, está em minhas veias, como raízes fincadas no solo, está em minha pele como a casca de qualquer planta. A sua seiva que cai quando é cortada, são meu sangue e minhas lágrimas que caem quando me corto.

Pode parecer que esse texto, está fora contexto de minha fala cotidiana neste blog. Mas estou defendendo não apenas meu lado indígena, mas minha Mãe Terra. Se você não concordar, tudo bem. Lembre-se: Ter é diferente de pertencer! De que lado você se encontra?

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