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João Pessoa

Expectadores?

Outro dia assistindo a uma entrevista dada pela atriz americana Katharin Hepburn (1907-2003) ela contava uma anedota em que dizia perguntarem a seu pai se seus filhos eram tímidos, ao que ele respondeu “Muito! Quando eles estão em uma festa morrem de medo de não serem o defunto ou a noiva!”. Devo admitir também ter um gosto pelo centro das atenções, mas os anos me mostraram que, às vezes, vale a pena não estar sob os holofotes.

Contudo, parece ser um mal de minha geração sermos forçados a ser espectadores de nossas vidas. Marcos temporais da idade adulta de gerações anteriores, como entrarmos no mercado de trabalho na hora certa, sairmos da casa de nossos pais, formarmos nossas próprias famílias e tantos outros marcos nos estão sendo negados pela conjuntura político-econômica.

Quando me refiro à entrada no mercado de trabalho na hora “certa” me refiro ao período logo após a conclusão dos estudos. Esse tópico é fundamental ao se observar a conjuntura, principalmente econômica, da atualidade. Há cerca de dez anos, eram implementadas nas faculdades públicas o sistema de cotas. Pessoas que normalmente não teriam acesso a uma universidade pública passaram a ter. Isso demonstrava que a riqueza estava chegando até as camadas mais baixas da sociedade e que, assim, o infindável ciclo da pobreza poderia ser interrompido.

Contudo, desde 2016 e o início da recessão no país, dois fenômenos correlatos passaram a ocorrer. Nas camadas mais pobres da sociedade, o “luxo” de se estudar não é mais possível devido à necessidade de mais fontes de renda em uma mesma casa; da mesma forma, nas camadas médias da sociedade, os jovens que conseguiram se formar na faculdade encontram um mercado cada vez mais hostil, postos de emprego precários e com salários que, muitas vezes, não obedecem aos pisos salariais das carreiras, sem falar na crescente hostilidade governamental à pesquisa e desenvolvimento acadêmico.

Somos uma geração que em alguns casos está sendo impedida de acessar o mundo dos estudos devido à pobreza, e ao mesmo tempo somos uma geração extremamente capacitada que, contudo, não tem acesso ao mercado de trabalho.

Digo que somos uma geração de espectadores por não termos um ambiente econômico que nos permita cumprir os “marcos” que nossos pais, por exemplo, cumpriram. Não decidimos o que que queremos fazer com a nossa vida, fazemos o que dá.

Nasci nas vésperas da implantação do plano real, passei a vida ouvindo falar de inflação apenas nos livros de história, bem como autoritarismo político. O que prometiam ser, inclusive no plano internacional, tempos de crescimento econômico, interligação global, liberdade política e liberdade de imprensa vêm se mostrando tempos difíceis. Nos últimos 20 anos eu vi o Brasil ser governado por um operário, ser considerado internacionalmente como um país fundamental nas dinâmicas internacionais, entrei na faculdade com o dólar custando dois reais e a gasolina não muito mais que isso. Cursei 5 anos na faculdade de direito da UFPB com colegas que entraram ali pelo sistema de cotas. O mundo parecia estar sorrindo para nós. Parecia que seríamos a geração com o mundo aos nossos pés.

Entretanto, nesse meio tempo vi as manifestações do, hoje, longínquo ano de 2013 (não é só por 10 centavos, etc.), vi um golpe de Estado, reconhecido como tal, já à época, pela imprensa internacional; vi o Brasil despencar de seu posto de potência crescente, estável e um exemplo aos “emergentes”. Nos tornamos uma república de bananas com um presidente que, me perdoem os bovinos que o apoiam, não passa de um verme e assassino. E como se isso tudo não bastasse, veio uma pandemia global que sobrecarregou todo o mundo e, agora, quando o horizonte parecia limpar, vem uma guerra que envolve os dois maiores países da Europa, grandes produtores de grãos, que adiciona à situação a provável insegurança alimentar ao redor do globo que já enfrenta inflação generalizada e aumento das taxas de juros.

Rússia e Ucrânia juntas produzem cerca de 18% do total de calorias que consumimos por dia. Trigo, milho e óleo de girassol sendo os maiores componentes desse número. Sem falar que após décadas de formação das chamadas “cadeias globais de valor” que permitiam que um carro fosse projetado no Japão, o minério fosse extraído no Brasil, beneficiado em Taiwan, as peças feitas em Bangladesh, montadas no México, e o produto final sendo vendido no Peru, a insegurança política voltou ao tabuleiro internacional.

Não adianta nada ser um ótimo lugar para se instalar plantas fabris se essas podem ser confiscadas e estatizadas em caso de alguma mudança no cenário político. O lucro puro e simples deixou de existir. Não se produz onde é mais barato, produz-se onde é mais seguro. E isso encarece os produtos globalmente, o que faz com que o dinheiro perca valor, a inflação suba, o consumo caia, menos empregos sejam gerados…, enfim, emperrando toda a roda econômica global.

Já vemos, cotidianamente, consequências disso. O preço dos combustíveis sobe cada vez mais, afinal de contas a Rússia é um importantíssimo produtor de petróleo, bem como de seus derivados, dentre eles, os fertilizantes utilizados largamente na agricultura. E não há o que se fazer, se os preços dos insumos para que se produza um mísero quilo de arroz sobem, sobe o preço do arroz. Não podendo esquecer que o transporte (movido a óleo diesel) tem de ser feito de fazendas nas cercanias de onde Judas perdeu as botas para agroindústrias onde o grão será descascado e embalado, a energia elétrica que move as máquinas também está cara, o plástico com que se fazem as embalagens também está caro, e obviamente toda essa carestia é repassada para nós, consumidores, e cá entre nós, estamos em cima da ladeira, ainda tem muito caminho morro abaixo.

Numa tentativa de diminuir o impacto do crescimento do preço dos combustíveis e da energia elétrica, o Senado Federal, na última segunda-feira (13) aprovou um projeto de lei complementar que restringe o teto de ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação) sobre combustíveis, energia, telecomunicações e transportes. O argumento dos parlamentares é que os estados taxam demais energia, combustíveis e telecomunicações.

Além de ser uma proposta completamente eleitoreira, é, como diria minha avó “descobrir um santo para cobrir outro”. O dinheiro que os estados arrecadariam com o ICMS sobre os combustíveis e energia deve ser reposto pela União. Adivinhem quem vai pagar a conta de todo jeito? Isso, nós. E pior, combustíveis e energia caros, apesar de terem seu peso nas cadeias produtivas de produtos consumidos pelas camadas mais pobres, tendem a ser um peso maior nas residências de renda média.

Hoje, basicamente, paga caro na gasolina quem tem carro, com a nova forma de tributação, o dinheiro pode ter de ser pago inclusive pelas camadas mais pobres (que no nosso sistema tributário tendem sempre a serem as mais abaladas pelos impactos fiscais).

Ainda, prova cabal da finalidade eleitoreira da proposta, ficam zerados até 31 de dezembro de 2022 as alíquotas de Cide-Combustíveis, Pis e Cofins. Havendo uma renúncia de cerca de 17 bilhões de reais feita pelos cofres públicos. Na Paraíba, o impacto previsto com a medida é de cerca de 1,4 bilhão de reais que, segundo o governador João Azevêdo, tende a impactar mais nos setores de saúde e educação.

Mais uma vez me refiro ao sentimento de expectador, me sinto como um telespectador que grita para a mocinha da novela não acreditar no vilão. Não há o que eu, como indivíduo, possa fazer. A proposta é absurda pela sua ineficiência em sanar as causas dos problemas focando apenas em soluções de curto prazo. Ao invés de focar no fomento a novas tecnologias que nos desvinculem à matriz energética baseada em combustíveis fósseis, como o Proálcool fez com os choques do petróleo na década de 1970, ou, ainda, em propostas que fomentem novas formas de geração de energia baratas e sustentáveis, até outro dia pagávamos pelo uso de energia gerada a partir de óleo diesel.

Há muito entendi que os impostos não são os vilões da história. Eles podem, inclusive, sanar uma infinidade de problemas, sendo os responsáveis pelo ensino público gratuito, pelo SUS, construção de estradas e até mesmo pela redistribuição de renda em uma sociedade tão desigual como a nossa. Infelizmente, contudo, os nossos governantes parecem se importar muito com a solução de nossos problemas. O importante é que fiquem bem na fita ainda mais em um ano eleitoral.

E cá nós ficamos vendo a guerra, a fome, a carestia e até o mundo ser destruído grau por grau diante de nós. Contudo, é sempre bom lembrar que nós, o povo, somos todo-poderosos quando se trata a quem enviamos para nos representar na Capital Federal. Outubro está chegando e não vamos nos esquecer quem escolheu prejudicar os mais pobres e o meio ambiente em troca de uma mera cortina de fumaça que nos faça desviar o olhar do que realmente importa. Somos a geração a que tudo foi prometido e nada foi dado, a geração que não pôde ser protagonista, mas como diz o velho ditado, não há ninguém mais perigoso que aquele que não tem nada a perder.

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