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Não brigue com a linha

Uma das atividades a que me dedico, uma das poucas que faço pelo simples prazer da fazê-la, é o tricô. Ao contrário de meus trabalhos com pintura, marcenaria, restauração etc., com o tricô eu conto apenas a primeira carreira e simplesmente ligo no modo automático. Quando a peça chega em seu tamanho, faço o arremate e é isso. Sem pesquisa de técnicas, novos pontos, contexto histórico… É uma relação mais simples, só eu e minha linha.

Mas se engana quem pensa que essa relação aparentemente simples nunca dá problema. Novelos têm a tendencia a se torcerem sobre si mesmos, nós tendem a se formar… não é algo impossível de se lidar, mas requer uma pausa no trabalho e uma dedicação para que o nó possa ser desfeito e que a tecelagem possa continuar com seus pontos limpos.

Um ótimo conselho que ouvi um dia desses foi de uma senhora, já muito experiente, que disse: “não adianta brigar com a linha, ela sempre ganha. Não adiantar puxar, forçar, você só aperta o nó e a situação piora”. E eu entendi que esse conselho pode ser levado para vida.

No meu caso, além das minhas perninhas tortas e pés chatos, tenho um outro defeitinho: meu cérebro tende a entrar em pânico e acionar meu sistema nervoso por qualquer bobagem. Tem gente que precisa pular de paraquedas para ter uma injeção de adrenalina, para mim basta a ideia de uma saída com os amigos, ou a compra de uma roupa. Esse probleminha se chama Ansiedade, uma patologia cada vez mais comum nos dias de hoje.

 

No meu caso, como eu tenho uma tendência a ser diferente da maioria, essa ansiedade vem acompanhada de episódios de depressão. Fora do comum até nas doenças. Há cerca de seis meses decidi que não aguentava mais ficar em frangalhos com cada quilo ganho, cada projeto novo… e busquei ajuda médica. Me diagnosticaram com “Transtorno Ansioso Depressivo”.

O corpo humano é realmente uma máquina complexa. Não consigo entender como, ao mesmo tempo, posso ter sintomas de ansiedade e depressão. Na minha cabeça os sintomas são drasticamente opostos. A ansiedade se manifesta como se eu estivesse sob um ataque de Deus sabe lá o que, e eu fico pronto para dominar o mundo. Lidei com ela desde que consigo me lembrar de mim mesmo. Nas brincadeiras de criança, já sentia meu corpo tremer e o coração acelerar mais do que o normal ao brincar de esconde-esconde. Contudo, passei por apenas um episódio depressivo. Não durou mais que três ou quatro dias, mas foi, sem dúvida, a pior coisa que já senti, ou melhor, que não senti.

A Depressão é um bichinho curioso. Ao contrário do que o nome sugere, ela não é uma simples tristeza, ela, pelo menos comigo, era uma total falta de sentimentos. Lembro de dizer a meu psicólogo que era mais que um “não sentir”, era algo negativo, como se eu estivesse sendo sugado da minha essência. As faculdades mentais permaneceram as mesmas, sabia que precisava comer, dormir, tomar banho, escovar os dentes… Contudo, fazia todas essas atividades maquinalmente.

O relaxamento de um banho quente deixou de existir, o prazer de comer um bombom de chocolate, sumiu. Não é que as minhas papilas gustativas ou meus terminais sensoriais tivessem deixado de funcionar. Eles estavam ali. Cheguei a me dar tapas e beliscões na esperança de sentir algo. Sentia, mas as sensações pararam de chegar como sensações, chegavam como um memorando fisiológico ao cérebro. Nem bater o dedinho do pé numa quina de parede faria surgir a torrente de impropérios usuais capazes de fazer Dercy Gonçalves ruborizar. No cérebro chegava apenas um memorando fotocopiado informando que o dedo havia batido contra uma superfície dura.

É um sentimento estranhíssimo, e, no meu caso, tudo que eu queria fazer era ficar deitado lendo. Acho que o preto e branco das páginas combinava com o meu humor. Conversas, filmes… nada conseguia prender a minha atenção. Contudo, lembro que o que me fez sair dessa pequena crise foi uma música, uma peça de Bach para violoncelo, se não me engano. Fui às lágrimas tanto pela beleza da composição quanto pela felicidade em voltar a sentir.

Cerca de uma semana depois fui consultado por uma psiquiatra que me diagnosticou e me medicou. Desde então, a Ansiedade e a Depressão passaram a se manifestar raramente e de maneira levíssima. Não consigo mensurar o quanto aqueles comprimidinhos me ajudaram.

Desde que comecei a usar os remedinhos minha mente vinha funcionando como uma mantinha de tricô: bem simples e com o fio correndo bem. Contudo, nas últimas semanas a linha começou a se enrolar e chegou a um ponto em que eu tive de parar e desfazer o nó que havia se formado. Nada tão grave como o que acontecia antes do acompanhamento médico, mas ainda assim, tive de parar. Não adianta lutar contra a linha, ela sempre ganha. Parei e, com muita ajuda, venho voltando ao meu normal.

Eu não sei qual dos males é responsável pela falta de concentração e a incapacidade de organizar as coisas, só sei que eu me via diante de roupa a ser dobrada e guardada e travava. Não conseguia organizar meu espaço de trabalho, então não conseguia trabalhar. Minha mãe foi fundamental nesse processo, quando ela me via travado diante da desorganização, ela organizava (também é uma possibilidade que ela só quisesse ver a casa organizada, mas vamos nos ater à hipótese de cuidado maternal), me obrigava a comer e fazer o que tinha de ser feito. E assim fui melhorando.

Agradecia todos os dias pela medicação pois sabia, que sem ela, não seria apenas um nó a ser desfeito, seria um novelo pegando fogo e dando tiros como um Buscapé de festa junina. Não lutei contra a linha, mantinha em mente que o que estava acontecendo comigo era uma manifestação patológica, e assim me portei. Da mesma forma que não me cobraria de pular corda com um pé quebrado, não me cobrei a ser produtivo, organizado… Não me cobrei, mas fiz o que estava ao meu alcance.

As vezes a organização mental faz com que organizemos o nosso entorno, no meu caso, tentei uma abordagem reversa: comecei a organizar o meu entorno. Redecorei meu banheiro, o lavabo, pintei meu escritório, mudei os móveis de lugar e acho que isso contribuiu para que a mente não se focasse em si mesma. Ainda sinto um pouco a desorganização mental, mas olho ao redor e não vejo mais um milhão de coisas a serem feitas. Levanto o olhar do computador e vejo e jardim iluminado, o escritório limpo e organizado e, aos poucos a mente vai se enchendo desses sentimentos. Não luto contra a linha, e desfaço meus nós como posso.

À equipe do blog deixo aqui, publicamente, meu pedido de desculpas pela ausência dos textos e meu maior agradecimento pela compreensão de toda a situação. Ainda não estou 100%, mas vamos convir, estamos em 2022, temos pandemia rebrotando na China, guerra na Ucrânia, processo inflacionário em todo o globo, a energia nunca esteve tão cara, o salário mínimo nunca tão desvalorizado e a perspectiva das instituições econômicas é que uma recessão global é prevista para os próximos anos. Quem, em nome de Deus, está 100%?

De qualquer maneira agradeço a todos pela paciência, e que venham os nós, já que sem eles a vida seria apenas uma linha passando despercebida.

 

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