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Chico Buarque e seus belíssimos piropos

Piropos são galanteios, são cantadas que vinham em forma de poesia e a canção passou a utilizar. (Chico Buarque, 1999).

No Brasil as canções que falam de amor sempre estiveram presentes em todas as gerações e cada geração roía, sofria, chorava e expressava seus sentimentos e desejos recorrendo a poemas e canções para seduzir a pessoa amada, ou para lamentar um amor perdido.

Chamada canções de piropos esse recurso inspirou e embalou romances e grandes histórias de amor. Embora, Vinicius de Moraes era um mestre no gênero, Chico Buarque com seu realismo poético expressou nos versos de suas canções as muitas formas de amor vividas por cada um de nós.

Foi romântico e sentimental quando compôs em parceria com Vinicius de Moraes, a bela letra de Valsinha com melodia de Valsa a brasileira, resgatando um velho amor do tipo adormecido ou rotineiro, trazendo romantismo para a década de 1970, no auge do movimento hippie que pregava amor, fraternidade e liberdade, usando e abusando do sexo livre. A letra tem referências românticas, mas diferentes nos gestos, palavras e atitudes, dando um encanto moderno a valsa brasileira, e um novo jeito de amar ao amor tradicionalmente conhecido.

A partir daí, Chico Buarque foi trocando em miúdos as mais diversas formas de amar e de despedida, desde as mais sofridas e intensas, como a mulher abandonada e humilhada de atrás da Porta, que num ato de desespero duvida e depois estranha, debruça, arranha e agarra o homem amado numa tentativa inútil de permanência, depois de vencida toma atitudes características do universo feminino, e passa a maldizer, se vingar e adorar pelo avesso, ou seja, odiar que é o avesso do amor.

Compôs o amor independente de Olho nos Olhos, a paixão impregnada de Tatuagem, o amor traiçoeiro e vulgar de Sob Medida, o amor descartável de Folhetim, o amor vingativo da Rita que ao sair levou seu retrato, seus trapos, seus pratos. Que papel! Desejou ser um tipo de compositor capaz de cantar o amor barato, como tantos poetas, tantos cantores, tantas Cecílias que chamavam em silencio outros sonhos para num Dueto ler num anúncio, ver no espelho, constar na pauta, passar na novela, está no seguro e pichar no muro Eu te Amo até perder a noção da hora.

Como um escafandrista mergulhou numa cidade submersa para explorar os vestígios de uma estranha civilização, lá descobriu fragmentos de cartas, poemas e retratos no fundo de armário, milênios no are, porque amores serão sempre amáveis quando conduzidos num tempo de amar, e amar até o último momento para descobrir o tempo que refaz o que desfez e recolhe todo o sentimento e bota no corpo uma outra vez.

No final da década de 1970, a energia sensual e frenética de Dancin’ Days invadiu as discotecas de todo o Brasil, abrindo suas asas sobre a juventude que soltou suas feras, suas ideias e desejos reprimidos, caiu na gandaia e entrou na festa, levando para as pistas de dança os sonhos mais loucos, soltando o corpo livre e leve. O amor tinha mudado de cara, era vivido com mais leveza, menos tempo de duração e sem eternidade. Era imortal enquanto durasse, dizia o mestre do piropo.

E Chico Buarque não deixou por menos, no final de 1978 lança o sensualíssimo bolero O Meu Amor, com letra de conteúdo sensual e caliente teve uma interpretação a altura com Marieta Severo e Elba Ramalho foi uma grande encenação. A voz escrachada de Elba deu vida a personagem Ana, enquanto Mariêta com seu tom de superioridade deu destaque e fez contraponto a rival.

Quanta beleza tem a letra e melodia da música Morena dos Olhos D’Água, quanta ternura tem no chamamento e na proposta de uma vida simples, de um amor sonhado, de um sorriso dado, de um abraço estreito e tudo com um jeito de agradar. E mostra como tudo é passageiro: a vela, a vida e o tempo que como as ondas do mar vão e vêm.

Sem falar nos piropos açucarados que adoçaram as noites de amor ou a falta deles, quando Com Açúcar e Com Afeto a mulher apaixonada fez um doce predileto para o ser amado parar em casa, e até Sem Açúcar, quando a mulher tremia de tanto amor nos braços do seu amado, e sem exigências vivia um amor incerto, uma paixão tão desmedida que parecia mais uma piada.

Por fim, amou tanto e de Tanto Amar achava que ela era bonita, e no seu mundo do faz de conta acabou perdendo as contas de quantas vezes pensou em partir, e partiu batendo o portão sem fazer alarde, levando a carteira de identidade, uma saideira, muita saudade e a leve impressão que já partia tarde.

Eu sou piropeira. E você. já piropou?

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