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Início Antonio Henrique Couras A arte existe porque a vida não basta

A arte existe porque a vida não basta

A frase mais que genial de Ferreira Goulart sempre resumiu em singela perfeição a função da arte. A arte deve ser maior que a vida, ela tem o poder de ser eterna como nenhuma outra coisa humana o é. Pinturas egípcias, dramaturgia grega, arquitetura fenícia, literatura japonesa… os autores dessas obras tendem a ser desconhecidos, sendo elas, quando muito, atribuídas a alguma pessoa ou grupo de artistas. No final das contas, é irrelevante quem fez os cálculos e decidiu as angulações das pirâmides de Gizé, elas estão lá apesar de todos nós.

Recentemente (na minha cabeça que se recusa a aceitar que não estamos mais em 2020 e desde o começo da pandemia minha noção de temporalidade foi completamente obliterada), minha força moral foi posta à prova. Nada muito grandioso, simplesmente ir ou não ao cinema. Parece algo simples, mas o que fez a mim a outros milhões de pessoas se perguntarem o mesmo não foi algo tão banal.

Vamos dar nomes aos bois: sou parte de uma geração inteira ao redor do globo que cresceu envolvida pela saga de livros e filmes de Harry Potter. Tendo o seu último filme lançado no, hoje, longínquo ano de 2011, foi o universo mágico criado por J.K. Rowling que me atraiu para o mundo da leitura e acompanhou toda a minha infância e adolescência. Inclusive fiz grandes amizades, naquela época, que se formaram através desse interesse em comum e perduram até hoje.

Então, em 2014, ficamos todos em polvorosa com o anúncio de uma nova série de filmes baseados no mesmo mundo criado pela autora mais de uma década antes. Os anos foram se passando, filmes foram lançados e, nesse meio tempo, a autora da saga fez, em sua conta no Twitter, comentários entendidos como sendo discriminatórios em relação a pessoas trans (ao meu ver foi bem pior que isso), e então a comunidade de fãs se viu diante de um dilema moral: vamos continuar consumindo e, consequentemente, gerando lucro para uma pessoa que demonstra publicamente seu desrespeito em relação a um grupo já extremamente marginalizado? E a partir daí começaram os debates de se há a possibilidade de separarmos a arte do artista. A coisa só piorou com as acusações de violência doméstica feita pela, então, esposa de um dos protagonistas da série, o ator Jhonny Depp.

A nova série, que inicialmente brilhou em seu filme de estreia com um enredo cativante, atores aclamados, e não deixando nada a desejar aos fãs da antiga saga mágica, foi, aos poucos sendo remendada, picotada, a história foi para o beleléu e os filmes se tornaram apenas um amontoado de cenas e temas para agradar aos fãs. O terceiro filme da saga, que prometia ser formada de sete filmes, foi lançado esse ano e teve resultados catastróficos, inclusive gerando o debate se haveria uma continuação para a série.

 

Devo admitir que as artes cênicas não são meu ponto forte, sou mais admirador que conhecedor, sendo as artes plásticas meu verdadeiro meio, contudo, sendo as artes plásticas recheadas de personalidades, no mínimo, interessantes, me sinto à vontade para estabelecer um paralelo entre casos.

Meu pintor preferido, de longe, é um sujeito um tanto controverso. Expulso de Roma por um (talvez dois?) assassinatos, era conhecido por ser briguento, andar nos bairros de má reputação e usar profanas moças da noite como modelos para a puríssima Madonna, mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo: Michelangelo Merisi da Caravaggio, ou, simplesmente, Caravaggio, teve uma vida curta e cheia de polêmicas.

Incontáveis foram a suas obras que foram rejeitadas pelos nobres e clérigos que as encomendavam por violarem as normas impostas às composições artísticas na época da contrarreforma. Inclusive, uma obra que tinha tudo para ser pacifica, Nossa Senhora da serpente, uma encomenda do Papa Paulo V, um quadro de fundo escuro no qual se encontram Maria, modelada por Lena, uma das mais cobiçadas cortesãs da Cidade Eterna, com o Jovem Jesus aos seus pés, nu, e Ana, sua idosa mãe, modelada por uma cigana de pele escura; aos pés de Maria e Jesus uma serpente rasteja e tem sua cabeça pisada pela Madonna e o menino.

Por usar modelos que tinham, no caso de Lena, um rosto reconhecível, e a cigana por mostrar a sua idade e sua condição marginal, mostravam, ao entender dos clérigos, figuras sagradas com feições humanas, mundanas, na palavra de um cardeal: “Nesse quadro não há mais do que vulgaridade, sacrilégio e impiedade, além de mau gosto. Diria que é uma obra realizada por um pintor que conhece o seu ofício, mas de espírito obscuro, afastado faz tempo de Deus, de sua adoração e de bons pensamentos”.

Quatrocentos anos após a primeira exibição da pintura, ela segue impactante. A composição de Santa Ana com sua filha e neto, tendo aos pés uma serpente, é uma imagem clássica da iconoclastia católica, muitas vezes representada. Contudo, a versão de Caravaggio, ainda hoje, pode surpreender o espectador ao ver uma representação tão incomum de Santa Ana como uma mulher idosa, trajando roupas pesadas e tendo as mãos e a face escurecidas pela exposição ao sol, ainda mais em comparação à belíssima moça à sua esquerda e menino nu aos seus pés.

O realismo extremo de Caravaggio sobreviveu quatro séculos, dez vezes mais que os meros 38 anos da curta vida do pintor. O indulto papal veio pouco tempo após a sua morte, contudo, a história de um homem tido como raivoso em sua vida e sua arte teve pernas mais longas que a burocracia vaticana. Caravaggio marcou a história com a sua arte impactante, forte e crua.

E o ponto que eu quero realmente chegar no artigo de hoje é esse: não importa quem é o artista, o que ele fez ou deixou de fazer. O que importa é a arte. A Madonna de Caravaggio não deixa de ser mais bela por sua vida conturbada. A partir do momento em que uma obra é posta no mundo ela deixa de ser do artista e passa a ser de cada um que a admira e se comove com ela. Se a obra gerar emoções, aí surge a arte, eterna por natureza. Independentemente se o sentimento ao observarmos uma obra é revolta, desconforto, deslumbramento ou paixão, ou, ainda, se esse sentimento mudar com o tempo, enquanto a obra fizer seu observador sentir algo ela permanece eterna no seu status de arte.

A saga de Harry Potter, desde 2007 é só minha, as lembranças e sentimentos que tenho relacionados a ela são só meus. Agradeço a autora por ter posto essa obra no mundo, mas a partir da publicação dos livros, a obra passou a ser de cada leitor. Se ela perdurará no tempo, só o tempo dirá. A arte não morre jamais, se se esvaecer com o simples passar do tempo é sinal que, afinal de contas, era só um amontoado de palavras e não literatura.

Contudo, por hora, a magia segue intacta. Se a nova série de filmes não prosperar é sinal que o público não sentiu nada ao assistir os filmes e as sequências de imagens nunca se transmutaram em arte. A arte nunca morre, mas pode nunca sequer nascer. Ao artista só é dada a função do parto. Antes dele nada existe, e após ele não há posse, nem limites. Telas tintas e pincéis pertencem ao pintor, a arte, ao mundo.

 

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