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Meu limão, meu limoeiro. Meu pé de jacarandá…

Das minhas esquisitices infantis, ou, mais provavelmente, pela condição psicológica de meu pai, tive de, logo cedo, assumir algumas funções que, de regra, não competiam a um garoto de 14 anos de idade. A maior delas, talvez, tenha sido o planejamento de uma casa e o acompanhamento subsequente de sua construção.

Na falta de qualquer conhecimento técnico na área, passava meus dias dedicados ao estudo da arquitetura clássica. Dos jardins de Andre Le Nôtre às villas de Andrea Palladio, Nada mais atemporal do que os clássicos, pensava eu. Na minha mente jovem, o jeito de não errar era através dos clássicos.

Caminhava pela cidade com olhos atentos e curiosos, observando portas, janelas, portões tetos e tudo mais. Na impossibilidade de ser autêntico me dediquei à cópia. Estudei os comos e porquês de tudo que via. Tetos altos e janelas grandes, que, na Europa, serviam para entrada de luz, aqui serviam para amenizar o calor. Grandes aberturas, casa avarandada como forma de impedir o calor do sol de entrar nos cômodos, alinhamento de portas e janelas que forçavam a circulação de ar… Fiz da casa um “pretinho básico” da arquitetura. O clássico que não tem erro. Surpreendentemente, grande parte ainda funcional mais de uma década depois. Infelizmente aquele jovem não imaginou a possibilidade do aquecimento global ter suas asas tão velozes. Hoje a casa é quente, mas o mundo também o é.

Quanto ao planejamento da “moldura da casa” o jardim, a pesquisa não foi menos extensa. Os jardins sempre existiram desde que o homem se sedentarizou e começou a desenvolver a agricultura. Esses espaços para o cultivo de plantas úteis ou belas sempre nos acompanhou. Contudo, a utilização desses jardins como mensagem é uma coisa mais recente em nossa história. Lá na França, nos idos do século 17, a jardinagem tomou contornos nunca antes vistos. Rios eram represados e canalizados para abastecerem magníficas fontes, as mais diversas plantas eram cultivadas e moldadas à vontade humana. Tropicais palmeiras e exóticas frutas asiáticas eram cultivadas em grandes caixas de madeira e, no inverno, transferidas para grandes estufas capazes de mantê-las vivas através do inverno. A natureza não era mais uma fera selvagem que permitia que vivêssemos de seus espólios, mas uma besta domada e posta à nossa disposição. A mensagem era clara: o homem venceu a natureza.

Séculos se passaram e essa besta domada adoece e, traumatizada pelos maus tratos que demos a ela, definha.

Dez anos atrás fizemos a casa e implantamos o jardim. Em parte segui as orientações dos antigos mestres, mas ao contrário dos tijolos e da argamassa, folhas e raízes não se comportam exatamente como nós desejamos. Algumas plantas, depois de séculos, ou até mesmo milênios de doma, se acostumam bem a serem guiadas e se tornaram seres bem comportados, outras, contudo, indomáveis gigantes tropicais, mantêm seus magníficos ares selvagens. Fiz o que pude com as feras desta terra e de tantas outras, mas em algum momento, sem saber muito o que fazer, decidi elas tomarem seu rumo natural.

Logo após o término da casa, comecei minha faculdade e a vida tornou-se ocupada demais para podas sazonais e fases da lua adequadas. Quem diria, contudo, que uma década depois uma pandemia global me faria vir morar nessa casa projetada para ser um lazer definais de semana?

Depois de dois anos dessa clausura involuntária, não consigo imaginar minha vida sem a sombra da mangueira no jardim, o balançar torto dos galhos dos jacarandás, a perfeição rotunda da tuia…

Entretanto, como meus antepassados fizeram, precisamos fazer um armistício entre a liberdade da natureza e as forças opressoras da civilização. Nem canibal, nem cardeal. A casa tão bonita e tão bem asseada começou a ter ares de desleixo por causa da falta de limites do jardim. Comecei podando quilômetros de espinhosos bouganvilles, galhos mal formados de uma moribunda pata de vaca e eliminando plantas que se recusam a se desenvolver.

Canteiros mal guarnecidos de plantas que lhes habitem, outros povoados por invasoras ervas ou braços de grama sem limites ainda esperam a minha mão cuidadora. Como numa sementeira, terei de eliminar algumas plantas para que outras cresçam, o trabalho de um jardineiro nunca tem fim. Percebi, aqui, mais um exemplo que a vida nos traz: que tudo que importa na vida requer cuidado constante e diário.

Minha última aventura selva adentro no meu quintal foi a poda de um limoeiro. O coitado estava com galhos escorados por estacas e de um tamanho monumental em que não podia mais se manter de pé sozinho. A colheita de seus limões era quase impossível, as frutas ficavam envoltas em um ninho de galhos espinhosos em que a mão humana não ousava entrar. Um galho aqui, um ramo acolá… vislumbro um enorme cupinzeiro encarapitado no centro da pobre árvore. Derrubo o condomínio dos insetos e descubro que amplas rodovias foram escavadas pelo tronco da pobre planta. Mais uma tesourada aqui, outra serrada ali, descubro, ainda, uma infestação de plantas parasitas que se enraízam nos galhos e se alimentam da seiva da planta hospedeira. Algumas consegui arrancar com facilidade, outras tive de amputar os membros doentes. No fim do dia a fera indomável sobreviveu apenas com um tronco retorcido e carcomido de cupins e uns poucos galhos para contar a história.

Enquanto fazia a “limpeza” da pobre árvore me lembrei de sua história. Um parente distante seu foi encontrado nas florestas do extremo oriente e por milênios seus descendentes foram moldados para gerarem diferentes frutos, com diferentes finalidades. Ao contrário de um vigoroso e selvagem pau-ferro que cresce nas proximidades e que nunca teve sua natureza moldada pelo homem, o limoeiro é uma réstia do que era seu bisavô florestal. Tornou-se dependente do nosso cuidado da mesma forma que dependemos de seus frutos. E tantas são as espécies de plantas e animais que, depois de tanto tempo ao nosso lado, não conseguem viver sem nós.

Uma curiosidade que ouvi explica isso, por mais agricultável que uma área seja, por mais domesticada que seja uma terra, nela existe um ecossistema todo seu. Fungos, bactérias e insetos, agem como um sistema imunológico desse ecossistema. Esses pequenos seres ao descobrirem um “invasor” logo prosseguem para a sua destruição. Assim descobri porque não consigo manter uma única roseira sem ser devorada por formigas, enquanto helicônias tropicais nascem como ervas daninhas. Esses microrganismos identificam os seres que pertencem e os que não pertencem ao lugar em que estão. Ao invés de lutar uma batalha perdida insistindo com minhas plantas exóticas, apenas tento moldar o que o ecossistema que me rodeia permite. Mais uma das grandes lições que meu jardim me ensinou: não adianta lutar contra forças maiores que a sua, apenas tente usá-las ao seu favor.

Por fim, ao ver meu jardim se transformar de sua fase selvagem para sua fase “vai ficar feio antes de ficar bonito”, eu me dou conta que o que fizemos com a natureza não tem mais volta. Não podemos simplesmente nos alhear a ela. Dependemos de seus frutos, sementes, raízes, folhas… e elas passaram a depender de nós. Precisam de nossas mãos para espalhar suas sementes, para mantê-las saudáveis… É inevitável constatar a codependência que estabelecemos com o mundo ao nosso redor. Fomos longe demais para simplesmente irmos embora.

Outrora, a relação do homem com a natureza era a de dominação e submissão. Contudo, nós desaprendemos a conviver com a natureza em seu estado natural, caça e coleta não são mais uma opção viável para alimentar 8 bilhões de seres humanos, assim, temos no cultivo, na agricultura, a nossa única saída. Chegamos a um ponto em nossa história evolutiva, como espécie, que não nos permite a distância com a natureza nem a ilusão de que podemos submetê-la à nossa vontade.

A ilusão de domínio sobre a natureza só se sustentou enquanto havia natureza a ser dominada. Ao invadirmos a natureza selvagem com nossa natureza civilizada, doenças, parasitas, pestes… e tantos outros infortúnios que os agricultores lidam há milênios, perderam a sua morada, e, com a falta de um ecossistema natural que os mantinha sob controle e em harmonia, a natureza passa a nos atacar. Estamos no limiar entre compreender que a natureza é o que nos mantém e deve ser preservada, recuperada e respeitada, ou nosso pobre meio de vida civilizado terá de lidar com o desequilíbrio que causamos e suas consequências. Temos de agir enquanto a natureza ainda não está completamente contra nós.

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