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E tudo termina em chocolate

Confessamos que como ateu já lemos as escrituras ditas sagradas, pelo menos por três vezes. A nossa curiosidade histórica inicial, não nos recomendou fazer uma leitura açodada que impedisse o entendimento dos fatos, de modo a comprometer a nossa interpretação.

Ao invés de enxergarmos o texto frio e absorve-lo como dogma de fé, como sempre nos foi sugerido, preferimos fazer uma paciente análise crítica dos registros históricos, para contextualiza-los com o nosso cotidiano e com a prática religiosa atual.

A nossa primeira motivação, foi em satisfazer a curiosidade sobre a história da humanidade e a sua longa caminhada ao longo do tempo, até os nossos dias.

É de conhecimento público que no mundo ocidental, a bíblia foi o primeiro livro impresso lançado, depois da descoberta da letra de imprensa inventada por Gutemberg no século XV.
Na verdade, a história pretérita nunca saiu do seu curso nem deixou de acontecer, até porque a história não para, embora tivesse um ritmo mais lento em tempos pretéritos.

Por outro lado não deixou de ser registrada com os recursos que eram disponíveis na época. O uso de hieróglifos, de papiros, de escavações arqueológicas, de fósseis, de pinturas rupestres e de monumentos históricos os mais diversos estão à nossa vista e aqui na nossa Paraíba temos o exemplo das Itacoatiaras do Ingá.

A segunda motivação foi de cunho antropológico pois como a bíblia é dividida em duas partes fundamentais: antigo e novo testamento, o seu conteúdo é um registro dos usos e costumes e da cultura dos povos, nas diferentes fases da sua narrativa.

O antigo testamento descreve em detalhes a história de um povo, enquanto o novo testamento é o registro da história de um homem.

Há muitos questionamentos e dúvidas sobre a veracidade de muitos fatos bíblicos presentes nos dois livros. Talvez a forma da narrativa que pode ser considerada parcial, já que os autores eram admiradores e amigos dos personagens bíblicos, confirmando a convicção de que nenhum autor é imparcial. Embora saibamos também, que a história sempre foi escrita pelos vencedores.

Como o termo está na moda, existem nas narrativas bíblicas muitas “delações premiada,” merecedoras ou não de crédito.

Se por acaso, nada daquilo  que a bíblia nos revela  fosse verdadeiro,  restariam  os registros históricos dos escritos sujeitos a interpretação.

A história narrada na bíblia, revela o modus vivendis de uma época e a cultura dos povos. Revela ainda as diversas etnias existentes, a forma de agrupamento tribal, os conflitos e as disputas, o modelo econômico vigente, a governança, o modo de divisão do trabalho, etc.

Nesse aspecto e pelo fato de o antigo testamento ser mais vetusto e também abarcar um tempo mais amplo, é ele sem dúvidas o filão histórico mais rico  que temos em detalhes.

“Qualquer acontecimento humano pode ser visto de vários ângulos, dando origem a várias interpretações. Do mesmo modo os acontecimentos da história do povo, narrados pela Bíblia, podem ser vistos por várias perspectivas.”

“Pode-se fixar a atenção sobre o próprio texto: é a leitura textual; sobre o gênero usado pelos autores sagrados: é a análise dos gêneros literários; sobre a elaboração do texto no seu contexto ambiental e social é a leitura histórico-critica.”

O novo testamento é a história de um homem e foi escrita pelos seus discípulos, amigos e admiradores estando impregnada de um simbolismo muito forte. Por estar cronologicamente distanciado do antigo testamento por mais de dois mil anos, os fatos históricos nele presentes estão mais próximos de nós, mais presentes no nosso cotidiano e mais expostos ao debate sobre o sentido do seu conteúdo.

No novo testamento tem residido a maioria das polêmicas e controvérsias mais acentuadas. Tem sido objeto de disputa de hegemonia entre seitas religiosas,  cada qual se arvorando de embaixador do personagem central que é a figura sublime do Cristo.

Falam em nome do Cristo, mas vendem cínica e descaradamente o céu à prestação. Adotam uma prática dita cristã, mas fogem das lições de humanidade e das práticas mais elementares do Cristianismo. O despojamento, a humildade, a igualdade étnica, o amparo aos desvalidos ensinados pelo Cristo não fazem parte das suas cartilhas. O acolhimento e a proteção aos pobres, o reconhecimento e a valorização da mulher como protagonista da história, a defesa dos fracos e oprimidos de todos os gêneros e de todas as diversidades, a exaltação à igualdade das diversas classes sociais, são práticas cristãs ignoradas por muitos e até por religiosos.

Observando os dois livros ditos sagrados que compõem a bíblia, verificamos que a páscoa é uma celebração habitual que perpassa pelo antigo testamento e chega até a nossa época cristã.

É conhecida a saga de Moisés a sua insistência e o seu confronto de ideias com o Faraó para a libertação pacífica do povo hebreu.

Os hebreus eram a mão de obra  escrava que trabalhava para a prosperidade da corte, em troca de uma ração de subsistência. A chegada de todos à terra prometida foi um compromisso divino firmado com Moisés, a quem coube organizar e liderar o êxodo.

“Para os hebreus, a saída do Egito foi uma lenta, penosa e sofrida caminhada em busca de uma terra.”

Naquele tempo Moisés e os seus liderados foram perseguidos e tachados de muitos adjetivos desabonadores. Mutatis mutandis, nos tempos atuais receberiam a mesma pecha do MST: COMUNISTA!

A insistência do profeta na organização do seu povo pelo direito à posse da terra prometida, se acontecesse nos dias atuais, talvez fosse considerada coisa de comunista e com certeza seria tratada com a “delicadeza” costumeira dos jagunços e capangas dos coronéis grileiros de terra, que se tornaram latifundiários diante da leniência e até do estimulo e da proteção do governo.

Peregrinação de Moises pelo Deserto do Sinai

Acontece que Moisés não era um hebreu comum e sim o filho adotivo da filha do Faraó. Ele escapou ao “controle da natalidade” da época que era obrigatório por parte dos hebreus, através da eliminação física dos filhos varões.

Recém-nascido, Moisés foi colocado pela suposta mãe biológica num berço flutuante do Rio Nilo. “Por coincidência” foi encontrado boiando nas águas, pelas damas de companhia da princesa que havia escolhido justo aquele local para o seu banho.
Moisés foi recolhido pelas aias, acolhido e levado ao palácio onde foi adotado como filho da princesa.

Cresceu no palácio e como membro da família real, recebeu uma educação esmerada que era o melhor para a época e transformou-se num verdadeiro sábio. Não cursou universidades pois elas não existiam, mas teve acesso ao saber que nenhum filho do povo teve.

No seu aprendizado ele igualmente aos filhos do Faraó, participou da convivência com os anciãos e iniciados que era a elite intelectual da época, regiamente paga para educar os futuros reis do Egito.

“Esse mau exemplo” de Moisés despertou no Faraó e nas gerações subsequentes, o consenso de que a educação dos filhos do povo precisa ser monitorada e dirigida para a formação de mão de obra que move os meios de produção, visando a multiplicação do capital.

Deve ser dessa época o medo de que se  os filhos do povo aprendessem e despertassem para o processo continuado de exploração de classe, sendo  necessária uma providência que foi adotada e que perdura até os nossos dias.

Queremos crer que as dez pragas do Egito, fez parte de uma concepção made in Moisés. A última delas foi onde se materializou a páscoa dos hebreus que significa passagem.

“Moisés convocou todos os anciãos de Israel e lhes disse: escolham por família um animal e imolem a Pascoa. Peguem alguns ramos de hissopo, molhem no sangue que estiver na bacia, e com o sangue que estiver na bacia marquem a travessa da porta e seus batentes…., porque Javé passara para ferir os egípcios. E quando notar o sangue sobre a travessa da porta e sobre os dois batentes, ele passará adiante dessa porta e não deixará que o exterminador entre nas suas casas para ferir vocês…….

Quando vocês tiverem entrado na terra que javé lhe dará, conforme ele disse, vocês observarão esse rito. Quando seus filhos perguntarem: Que rito é este? vocês responderão: é o sacrifício da pascoa de Javé.”

Resta provado portanto que a Páscoa é uma pratica religiosa antiga e, se no cristianismo ela representa a ressureição do Cristo, ela foi de fato uma passagem dele pela terra.
Os símbolos representativos da pascoa são o coelho que significa a fertilidade e o ovo significando a fecundidade.

Quanto à cobertura do ovo, uma guloseima atual da páscoa, surgiu do fruto do cacau e tem origem milenar. Foi processado por uma das primeiras civilizações da América Latina, os Olmecas, para virar chocolate.

Os primeiros ovos revestidos de chocolate surgiram na França no século XVIII, pelo menos 1800 anos depois da passagem do Cristo. A inovação foi incorporada aos reclamos da sociedade de consumo, que transformou o ovo numa peça oca de chocolate puro que gradualmente se moderniza.

O hábito que cresce a cada ano, em número e em inovações,  se vestiu de fraque e cartola, tomou conta da celebração e alterou sobremaneira o sentido da páscoa. Sofisticou o rito a tal ponto, que a celebração da ressureição do Cristo se tornou secundária.

O que vale é a troca de presentes que, de tão rebuscados e caros, virou uma disputa de egos tanto pela beleza, como pelos preços estratosféricos.

Hoje em dia é  símbolo de status em que a classe abastada  exibe o seu poder de compra,  enquanto os filhos do povo são mais uma vez excluídos.

Ora, o chocolate era e ainda é  usado na França e em todo hemisfério norte  neste  período, pelo simples  fato de estarem atravessando  o  inverno, submetidos a  temperaturas baixíssimas. Simples assim!

A nosso ver  e  principalmente na nossa região  Nordeste, uma região quente, se é para celebrar a páscoa  com doce,  esse ovo bem que poderia ser feito de rapadura, boa e bem mais barata. A saúde e a economia da região iriam agradecer muito!  

Os preços mais populares dos ovos de páscoa em supermercados, variaram na pascoa recém passada, entre R$ 26,90 a R$ 89,90 a unidade.  Podendo representar até 8% do salário mínimo.

A figura abstrata, do mercado, fazendo uso da sua celebre “mão invisível” resolveu conferir a cada dia do ano uma comemoração. O ano de 365 dias  totaliza mais de 365 comemorações, pois  alguns dias tem mais de uma homenagem. Existem celebrações estranhas e inacreditáveis, como é o caso do dia da tontura.

Pela ótica liberal financeira, sempre voltada para a multiplicação do capital, existem as comemorações de maior prestígio e maior rendimento, tais como o natal do Cristo, a virada de ano, o dia das mães, o dia dos namorados, o dia dos pais e a páscoa. São as comemorações que despertam mais sentimento e são as  mais  rentáveis. Porém as mais rentáveis de todas são umbilicalmente ligadas ao Cristo como é o caso do Natal e a Pascoa.

Ambas vêm perdendo em fé, secundarizando o papel e a importância do Cristo, e ganhando a cada ano mais mercado, virando campeãs de vendas.

Seria oportuno que reestabelecessem , o sentido da festa e, num retorno à fé que vai se esvaindo, voltassem a reverenciar aquele que cultuam como salvador da humanidade. Ele, mais do que todas as fabricas de chocolates da terra, merece muito mais do que isso. E como era carpinteiro se sentiria mais bem à vontade num engenho de rapadura.

Os religiosos devem recordar que por muito menos o Cristo foi tomado de uma ira sagrada e de posse de um chicote, expulsou do templo os vendilhões que haviam transformado o ambiente de orações em feira livre.

Quaisquer fatos ou personagens que se assemelhem aos pastores e clérigos religiosos atuais, não terão sido mera coincidência!

“E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente,
É gente humilde,
Que vontade de chorar!”

 

 

 

 

 

Consulta:https://www.magnumicecream.com/pt/artigos/food/a-historia-do-chocolate;
https://brasilescola.uol.com.br/pascoa/ovo-de-pascoa;
http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral;
https://www.elo7.com.br/lista/tabela-de-pre%C3%A7os-de-ovos-de-p%C3%A1scoa-2022;

Fotografias: ;
;7 semelhanças entre Moisés e Jesus na Bíblia – (Impressionante) (pastorantoniojunior.com.br;
Nome dos 12 Discípulos de Jesus e 5 Curiosidades Sobre Eles (eusigoajesus.com.br)
https://blogdoseualipio.wordpress.com;
https://www.renatobromochenkel.com.br/2014/01/licao-6-peregrinacao-de-israel-no.
https://catequizar.com.br/passagem-do-mar-vermelho
http://metodologiadoerieeem.blogspot.com/2010/03/simbolos-da-pascoa-crista.htm
wp-content/uploads/2022/04/noticia_Imagem-Parreira-Ovos-Pascoa-2016-scaled.jp
https://www.google.com/search?q=jesus+expulsa+os+vendilh%C3%B5es

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1 COMENTÁRIO

  1. Agradeço o comentário de Dona Anita Machado, lembrando que os religioso têm relegado o antigo testamento a segundo plano e talvez por isso tenham perdido a capacidade de análise.
    Alguém já disse que costuma olhar para o passado para não ter de apostar no futuro.
    Sou-me ateu de origem cristã que não abre mão da análise crítica de toda história dita sagrada.
    A pregação e a prática do Cristo estão sendo deturpadas justo por alguns clérigos e pastores oportunistas.

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