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João Pessoa

Casas Mortas

Em minha última empreitada floresta adentro em meu jardim, decidi que já era hora de abandonar o “jardim resistente de uma casa de final de semana” para um jardim de uma casa permanentemente habitada. Não preciso mais me contentar com o indomável gramado ou plantas que suportem a ausência de cuidados por períodos mais longos. Estou me dando ao luxo de ter plantas que gostam de suas raízes sempre úmidas, outras que precisam ser domadas para que não invadam o espaço de suas vizinhas… enfim, um jardim completo como deve ser.

Nas minhas reuniões com o meu Eu de 10 anos atrás que projetou a casa e o jardim, decidimos que o clássico é uma boa pedida, mas não um clássico europeu com suas topiarias e canteiros de rosas, um clássico brasileiro. Mas o que diaxo é o jardim clássico brasileiro? No que se trata de jardins franceses inúmeros são os exemplos, bem como de jardins ingleses, mediterrâneos, árabes e tantos outros, contudo por mais que pesquise o “clássico brasileiro” não aparece.

O jardim moderno, esse sim. Criações fabulosas de Burle Marx são um ícone do nosso paisagismo e fundaram o jardim tropical. Contudo, apesar de me encantar com os jardins tropicais eles me passam mais a impressão de um jardim obra de arte do que um jardim doméstico, em que se cultiva plantas de “estilos” diferentes, com memórias afetivas, plantas presenteadas, mudas pedidas ou sorrateiramente roubadas, árvores úteis, plantas para chás a serem bebericados com biscoitinhos ou para amainarem um mal que nos abala.

Decidi, então, que iria criar um jardim informal, no estilo inglês de informalidade, não ao nosso modo, com um jardim de samambaias de garrafa pet, garças de concreto e canteiro com pneus velhos coloridos. Moderação em tudo, até no patriotismo estilístico. Plantas tropicais sem moderação, folhagens coloridas e até, quem sabe, algumas frutas. Ideia na cabeça vamos a inspirações propriamente ditas. Horas e horas de buscas me levaram a Bali, Flórida e tantos outros lugares, mas detesto o estilo americano de jardim manicurado e o aspecto de floresta meditativa com estátuas de Buda. Não consigo olhar para aquelas imagens e não imaginar os mosquitos e o calor que toda aquela vegetação deve causar.

Enfim decidi tentar descobrir alguns remanescentes campestres de antigos jardins ou de jardins reconstruídos nas antigas casas brasileiras. Poucas sobreviveram no meio urbano e as que sobrevivem ganharam jardins completamente genéricos amodernados, busquei, então, no campo, onde encontrei alguns remanescentes um pouco judiados, mas muito bonitos, mas que infelizmente não serviam para mim. Não quero, como exigiam os barões de outrora, expor minha riqueza ou poder.

Contudo, em minhas pesquisas por inúmeras fazendas sobreviventes ou resgatadas dos tempos áureos da produção agrícola brasileira, me deparei com um quadro mórbido. Casas que apesar de mantidas em diferentes graus de integridade, ou até plenamente restauradas, morreram todas. As casas não parecem mais casas onde pessoas vivem, mas museus, antiquários ou o reduto de memórias de outrora que alimentam um hoje menos feliz.

Grandes salas de jantar vazias, com móveis antiquados, ou ainda armários vazios ou despojados de seus conteúdos. Pratas, porcelanas e cristais são guardados mortos em seus estojos, sem uso algum. Floreiras de bronze jazem entortadas e opacas com pobres flores de plástico. Salas de música se mantém com móveis de palhinha nos quais ninguém pode sentar e com pianos que não funcionam mais. Uma sala de música onde música não é mais tocada nem ouvida. Sua alma se foi, mas o esqueleto que permanece empoeirado. Grandes casas que viviam cheias de pessoas, passos de crianças, comidas sendo feitas, móveis que se quebravam, goteiras que surgiam, paredes que eram pintadas para dar novos ares a um ambiente… todas mortas. “Mantidas como na época do Barão”. Uma morte triste aquela de quem não muda.

Pense na sua casa, o que permanece igual ao que era há 10 anos? Talvez você tenha mudado de casa, talvez trocado as antigas televisões de tubo pelas finíssimas TVs de LED, ou até mesmo uma reforma para modernizar ou consertar um banheiro, trocado sua cama… uma casa, como um corpo, permanece em constante mudança até que morremos, então a vida se vai e permanece apenas o esqueleto do que fomos.

Por mais acumulador que seja, e por mais que goste de restaurar móveis, os usos mudaram. Não faz mais sentido ter altíssimos armários que comportem longos vestidos e casacas de pinguim, hoje transformam-se em cristaleiras, roupeiros… Cadeiras desconfortáveis ou com seus tecidos puídos ganham novos estofamentos, cores e acabamentos. Quartos viram escritórios, varandas transformam-se em salas, penteadeiras perdem seus espelhos e ganham telas de computador. Assim como em nós, a vida da casa se mantém através da constante mudança.

Não me entendam mal, não sou defensor do consumismo muito menos da mania que muitos têm de quererem suas casas o mais moderno possível. Um tecido descoloriu um pouco? Troca-se. Não se usa mais sofás com linhas curvas? Joga fora. Cortinas grossas estão fora de moda, botemos novas cortinas levinhas. Acredito que tudo deve ter uma história, e, ainda, que toda história tenha um fim, nem que desse fim surja um novo começo.

O equilíbrio no possuir, sejam casas, móveis, roupas, enfim, tudo, é a vida. Ninguém quer ficar cercado de cadáveres. O que muitos de nós esquecemos é que esses cadáveres nos cercam constantemente na forma de roupas nunca usadas, louças guardadas para ocasiões especiais… a boa notícia é que da mesma forma que as coisas perdem suas vidas, elas também podem ganha-la de volta. Um cômodo que muda de propósito e passa a ser usado, um móvel doado ou vendido a quem realmente o utilizará, uma simples poda no jardim ou uma mão de tinta em móvel sem uso.

Que não permitamos nunca que a morte se aproxime de nós, cultivemos a vida em suas mais amplas acepções, nas amizades, nas roupas, na nossa casa e com nós mesmos, que tenhamos vida sempre. Que mesmo na velhice ou na doença, a morte não se aproxime de nós, que, como uma planta, façamos regas periódicas de momentos de alegria, e que, ainda que sejamos atacados por uma tristeza parasita ou por momentos de secas financeiras, que sempre tenhamos a mão um punhado de bom humor ou algumas gotas de esperança para mantermos a vida sempre prosperando em nós e em tudo que nos cerca.

 

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