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Epidemias que impactaram na Saúde Pública no Brasil(Parte II)

A Febre Amarela é uma doença de infecção viral proveniente de hospedeiros primatas não humanos, os macacos, transmitida para humanos por meio de vetores como o mosquito Aedes Aegypti, que também pode ser transmissor de outras doenças persistentes no Brasil. Ela se caracteriza por possuir um ciclo de transmissão silvestre e um urbano. Quando infectados, os humanos apresentam sintomas como febre alta, icterícia, hemorragia e em casos mais graves, insuficiência múltipla de órgãos o que pode levar à morte (DA SILVA et al., 2018a).

O ano de 1850 marcou o início da epidemia de febre amarela no Brasil, a então capital do país, Rio de Janeiro, foi uma das mais atingidas pela doença, que deixou mais de 90 mil infectados e cerca de 4 mil mortos. Um fator que agravou a situação foi a falta de saneamento básico na época. Mesmo sendo considerada um problema de saúde pública, os avanços científicos e campanhas realizadas até o momento não foram suficientes para erradicar essa doença (BRASIL, 2008).

Atualmente, a vacinação contra febre amarela é disponibilizada pelo SUS para pessoas de 9 meses a 59 anos de idade, como também para as que residem em áreas de risco ou irão se deslocar para localidades, onde essa doença é endêmica. A proteção imunológica é garantida por meio de uma dose única de vacinação (BRASIL, 2019a).

A Malária, predominante na região amazônica, é transmitida de forma vetorial pelo mosquito de gênero Anopheles infectado pelo protozoário Plasmodium. Suas manifestações clínicas caracterizam-se pela presença de febre, dores no corpo, vômito e sensação de cansaço (BRASIL, 2019b).
Em 1940, estimava-se que existiam aproximadamente 6 milhões de casos da doença, e apesar do declínio de casos em 1970, alcançaram 51 mil registros. Posteriormente, até 1983, houve crescimento dos números, com um marco de 297 mil casos. Como motivos para este histórico de reincidência aponta-se problemas quanto à prevenção, erradicação do vetor e no uso de inseticidas como o diclorodifenil-tricloroetano (DDT) prejudiciais à população, além de falhas na oferta de medicamentos (TAUIL et al., 1985; FRANCA; SANTOS; FIGUEROA-VILLAR, 2008).
Ademais, no ano de 2019, houve o registro no Brasil de mais de 157 mil casos. Atualmente, a malária é considerada uma doença negligenciada, sendo um grave problema de saúde pública, pois apesar do avanço no tratamento medicamentoso ainda não há uma vacina contra esse protozoário (CARVALHEIRO, 2008; BRASIL, 2019b;NASCIMENTO et al., 2019).

Outra infecção viral de destaque no Brasil é o Sarampo, tendo como principal manifestação clínica o surgimento de manchas avermelhadas na pele. Sua forma de contágio é por meio de secreções ou gotículas contaminadas transmitidas de pessoa para pessoa ou pelo ar (BRASIL, 2018a; BRASIL, 2021a). É considerada um problema de saúde pública no país desde o ano de 1968, quando passou a ter notificação compulsória em todo o território nacional em que foi registrado, mais de 129 mil casos de pessoas com sarampo no Brasil (BRASIL, 2014a).

É importante ressaltar a existência da vacina contra o sarampo desde 1963, que na época não se fez a implementação adequada pela falta de coordenação no âmbito da distribuição, situação que se modificou após a criação do Programas Nacional de Imunização (BRASIL, 2014a; GARCIA et al., 2020). Desse modo, a vacinação é o meio de prevenção mais eficaz contra esta doença, sendo disponibilizada na forma de Vacina Tríplice Viral, combinado contra o Sarampo, Caxumba e Rubéola, e na Dupla Viral, contra Sarampo e Rubéola (BRASIL, 2018a).

É importante considerar que a Secretaria de Vigilância em Saúde registrou, no ano de 2020, a recirculação ativa do vírus do sarampo e notificou a morte de 10 pessoas por esta doença. Dessa forma, como resposta, fortaleceu-se o sistema de vigilância epidemiológica e laboratorial de estratégias para que haja a cobertura vacinal e ações educativas para minimizar os riscos de contágio e, assim controlar o surto (BRASIL, 2021a).

Devido ao impacto causado pela Poliomielite no cenário nacional e a repercussão dos casos na qualidade de vida dos portadores, essa seção será destinada a um maior enfoque a respeito dessa doença.

A Poliomielite ou pólio é uma doença viral infectocontagiosa conhecida pela denominação popular de paralisia infantil, sendo ocasionada pelo poliovírus, responsável pela infecção de crianças e adultos pela via fecal-oral, induzida pelo contato direto do indivíduo saudável com objetos, alimentos e/ou água contaminada com fezes, bem como pela via oral-oral por intermédio de secreções nasofaringes. A transmissão também pode ocorrer de forma indireta, por meio de objetos contaminados (LIRA et al., 2009; SILVEIRA et al., 2019).
Os sinais e sintomas da poliomielite variam de acordo com o sorotipo do vírus e as características particulares do indivíduo, porém cerca de 90 a 95% das infecções são subclínicas e imperceptíveis, considerando que as pessoas não apresentam sintomas (SILVA, 2004; BRASIL, 2020a).

Nos indivíduos que apresentam a forma não paralítica, os sintomas mais característicos são: febre, mal-estar, dor de cabeça, dor de garganta, diarreia, vômito, constipação, espasmos e meningite. Já os que desenvolvem a forma paralítica apresentam febre e dores musculares, contrações musculares involuntárias, perda ou diminuição dos reflexos tendinosos, dor muito forte e constante na região dorsal, acompanhada de hiperestesia (intensidade da sensibilidade), deficiência motora, assimetria dos membros e flacidez muscular (SILVA, 2004; BRASIL, 2020a).

A poliomielite esteve presente em quase todas as partes do mundo e permaneceu por anos na forma endêmica. Em 1985, dados da OMS mostravam casos em 162 países, com 300.000 casos de poliomielite paralítica. Contudo, o advento da imunização entre 1955 a 1960 proporcionou a redução de 99% nos números de casos em um período de 12 anos (DURANTE; POZ, 2014; WHO, 2019).

Da mesma forma, o Brasil viveu um período endêmico crítico a partir de 1950, com destaque para o Rio de Janeiro que registrou 746 casos da doença. Assim se manteve o cenário até meados de 1980, com variação de 1000 a 3500 casos anuais, em virtude da grande área demográfica; devido a população rural e periférica, o que dificultava a vacinação (CAMPOS; NASCIMENTO; MARANHÃO, 2003; SILVEIRA et al., 2019).

Dentre as epidemias que atingiram o mundo, a poliomielite foi uma das que infectou milhares de pessoas, sendo responsável por sequelas que trouxeram limitações e comorbidades como a paralisia de membros, danos na fala ou deglutição, deformações nos membros inferiores, com impedimento na locomoção e osteoporose. Ela também apresentou efeitos tardios da doença, caracterizados como síndrome pós-pólio, como sintomas de fraqueza muscular, fadiga e dores musculares e nas articulações (SANTOS, ROMANOS, WIGG, 2015; BRASIL, 2020b). As inúmeras sequelas deixadas pela doença interferem até hoje nas atividades laborais e econômicas dos indivíduos, impactam na sua qualidade de vida e estigmatizam os indivíduos acometidos (GRIMBY; JÖNSSON, 1994; NASCIMENTO et al., 2011; GARIP et al., 2017).

A vacinação constitui a principal forma de prevenção da poliomielite. Portanto, todas as crianças com até cinco anos de idade devem ser vacinadas de acordo com o esquema de vacinação nacional (BRASIL, 2020c).

Atualmente, existem dois tipos de vacinas disponíveis para a prevenção da Poliomielite no Brasil, a Vacina Oral Bivalente (VOPb) e a Vacina Inativada contra a Poliomielite (VIP), as quais fazem parte do Programa Nacional de Imunização. Desde 2016, o esquema vacinal da Poliomielite é composto por três doses da VIP que é administrada aos 2, 4 e 6 meses de vida, seguida por duas doses de reforço da VOPb aos 15 meses e 4 anos de idade (BRASIL, 2015; BRASIL, 2020a).

Nesse sentindo, é de suma importância que seja mantida a cobertura vacinal da população e o estabelecimento de ações de vigilância epidemiológica mundial, pois, ultimamente, tem sido registrado casos de importação da doença para países em que a poliomielite é considerada erradicada. Assim, torna-se evidente a necessidade de manter ações permanentes e efetivas no controle da doença (SILVEIRA et al., 2019; WHO, 2019).

A POLIOMIELITE FOI ERRADICADA?

Graças aos estudos científicos que avançaram desde o século XIX, associados ao desenvolvimento de técnicas laboratoriais para diagnóstico, vigilância epidemiológica e desenvolvimento de vacinas, foi possível o controle dessa doença por todos os países do mundo. A primeira vacina contra a poliomielite (vacina Salk) foi desenvolvida por Jonas E. Salk, em 1955, e se apresentou na forma injetável composta pelo vírus inativo. Posteriormente (1961), Albert B. Sabin desenvolveu outra vacina de vírus atenuado (vacina Sabin), de uso oral (NASCIMENTO et al., 2011; RISI, 2019).

Na década de 80, o Brasil adotou estratégias de saúde pública para controlar a Poliomielite, visando ampliar a cobertura vacinal por meio de campanhas de vacinação em massa. Com isso, foi instituída a 1ª Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite, com o objetivo de vacinar todas as crianças menores de 5 anos em um só dia. Os resultados da campanha foram promissores, sendo registrados em 1981, apenas 122 casos. O país teve seu último registro da doença em 1989, na cidade de Sousa – PB, e com isso recebeu o certificado de eliminação da doença no território (LIRA et al., 2009; RECHENCHOSKI et al., 2015).

Entretanto, as notificações recentes de recidiva da Poliomielite em países vizinhos ao Brasil, como a Venezuela e a baixa vacinação das crianças em todo território nacional, que está atrelado a fatores como falta de infraestrutura, localidades remotas, migração, insegurança e resistência por parte dos pais, são como alerta para a possibilidade de reintrodução da doença no território (SBMT, 2019; OPAS, 2020; SBMT, 2020).

Segundo a OMS, das três cepas do vírus existentes, a do tipo 2 foi erradicada em 1999, o tipo 3 teve sua última notificação em 2012 na Nigéria (WHO, 2019) e a única que apresenta notificação de caso atualmente é a cepa 1, em regiões de guerra no Afeganistão e Paquistão, onde a cobertura de vacinas é dificultada pelos conflitos armados. Assim, a vacinação foi importante na redução de casos de Poliomielite, o que expressa um importante marco na saúde pública (RISI, 2019).

Diante do exposto, observa-se a importância da vacinação no contexto da saúde pública, no que tange a prevenção de doenças e seus agravos.

Fonte: BOLETIM INFORMATIVO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO TUTORIAL – PET-FARMÁCIA/UFPB.

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