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João Pessoa

Os Salões

Aqui neste espaço sempre tenho a liberdade de tratar do que bem me aprouver, o que às vezes pode ser um pouco intimidador. Talvez um traço da nossa sociedade que nos acostuma a sermos sempre bem comportados e adequados e tendamos a seguir padrões bem estabelecidos. Entretanto às vezes os assuntos me vêm facilmente. Arte sempre é um favorito meu, toda sua história e idiossincrasias me são sempre fascinantes.

Já há algum tempo venho ouvindo relatos do destino um tanto quanto discutível dos fundos destinados ao suporte aos artistas na pandemia. Batizada de “Lei Aldir Blanc”, em homenagem ao compositor morto em 2020 em decorrência de complicações da COVID-19, a lei pretendia prestar auxílio a artistas lhes dando um auxílio financeiro emergencial em função da pandemia. Contudo, especialmente no estado da Paraíba, casos de improbidade foram relatados na distribuição de tais auxílios. Desde intolerância religiosa, em relação, principalmente, à obras com temáticas das religiões de matriz africana; preterimento a artistas que não vivem nas grandes cidades do estado ao nepotismo na escolha dos contemplados.

Essa semana, em uma conversa com um jovem artista, negro e periférico, e de excepcional talento, a notícia tomou, para mim, corpo e rosto, e o impessoal se tornou pessoal. Me dei conta que em pleno século XXI, no centenário da semana de arte moderna, os salões ainda existem.

A arte do dito artista me causa um gigantesco incômodo. Não me vejo representado nela, acho os temas tratados de incomensurável violência e definitivamente algo que não penduraria em minha sala de estar. O que o torna um artista de excepcional talento pela sua capacidade de me causar tantos sentimentos com simples imagens pintados numa tela

Sou um homem branco de classe média, pessoas como eu vêm sendo representadas na arte ocidental pelo menos desde o século XVI. O desconforto que a arte do jovem me causa me diz que um pouco dessa história da arte vem mudando e que agora alguém como ele tem uma voz a ser ouvida através de seus pincéis, e mais, pela primeira vez pessoas de pele escura, cabelos crespos, lábios carnudos podem tomar o centro das narrativas imagéticas e não serem mais apenas representantes do exótico ou meros serviçais que faziam parte de uma composição artística para evidenciar a riqueza de seus mestres.

As imagens me são incômodas, nada familiares, e não me arrebatam de imediato, contudo a sua existência me dá uma inigualável esperança num futuro em que todos terão suas vozes ouvidas, sem distinção daqueles acolhidos por salões tão démodées.

Para os menos familiarizados, os salões eram eventos sazonais que, na Europa, acolhiam ou repudiavam artistas e suas obras de acordo com os parâmetros de sua época. Nus só eram permitidos em alegorias mitológicas, técnicas eram esmiuçadas com lupa e se separava o joio do trigo artístico. Contudo, desde que um, hoje, célebre Francês chamado Michel Duchamp expôs, em 1917, como sua peça a ser julgada pelos jurados da academia um prosaico urinol, intitulado “A Fonte”, os nossos conceitos de arte vieram a baixo. O que é arte, afinal? Tudo, ora pois. Ou nada?

Para este humilde articulista, e para alguns outros pensadores mais gabaritados do que eu, arte é toda expressão humana que gera, em outro ser humano, a coisa mais humana de todas: emoção. Se você, caro leitor, ao se deparar com o urinol de louça branca de Duchamp, sendo chamado de arte, sentir um profundo desdém pelo artista, bem, o objetivo foi cumprido. Horror ao se deparar com a chacina retratada no gigantesco “A Morte de Sardanápilo”, mais uma vez o objetivo da arte foi atingido.

Todavia se, afinal, tudo é arte, como ser objetivo na escolha de quem é ou não agraciado com a ajuda de custo estatal? Como dizer que tal ou qual artista é mais qualificado para receber uma ajuda de custo para a manutenção de sua produção artística? Bem, enquanto separar arte boa de arte ruim é impossível (Não existe arte ruim, ou boa, o máximo que podemos discutir é se algo é arte ou não. Entretanto, ao se passar na catraca do olimpo vigiada com rigor pelas nove musas das artes, tudo é arte), existem parâmetros muito bem objetivos a serem analisados quanto à necessidade de um patrocínio estatal.

Tanto a história quanto a mitologia são ricas em exemplos de protegidos das musas que passaram a sua vida inteira  sem serem agraciados com a presença da fortuna. E para o bem, ou para o mal, não vivemos mais em tempos olímpicos, hoje, a arte se tornou menos objetiva, mas as condições sociais nunca foram tão relevantes e objetivas.

Não posso dizer que tal ou qual obra de arte é boa, no máximo posso descrever as emoções que ela provoca em mim e se elas me agradam ou não. Mas posso observar o “background” do artista, como dizem os anglófonos, posso observar a sua renda familiar, o seu lugar de moradia, e, ainda, se sua arte dá voz às pessoas de seu meio. Ainda, na minha humilde opinião, só consigo considerar uma alegoria, em óleo sobre tela, de Jonas sendo engolido pela baleia, ou, até, mais uma representação de Zeus em sua busca desenfreada por Leda nada além de um desperdício de azul da Prússia, amarelo cádmio e algumas dezenas de horas.

Não quero dizer com isso que toda arte deva ser negra, periférica e fora do padrão, mas eu digo, sim, com todas as letras, toda arte deve ser contemporânea. Toda arte deve refletir seu entorno, seu entorno e quem a faz. Nunca percamos de vista que raros foram os movimentos artísticos que tinham um nome próprio. Em sua grande maioria os movimentos artísticos eram batizados póstuma e pejorativamente. O Barroco não nasceu Barroco, foi nomeado assim quando o renascimento clássico tomou conta da Europa e o estilo conflitante e rebuscado precedente foi chamado de “Barroco”, algo como “tosco” por aqueles que preferiam uma arte clássica mais “limpa”.

Agora, às cavalgaduras da Secretaria de Cultura que circulam na Corte do Sanhauá, senhoras e senhores, se suas escolhas se pautam no familiar e no “bom gosto” larguem seus carimbos e canetas e voltem às paisagens verdejantes cheias de capim e de indiscutível beleza que lhes tanto agrada o estômago.

Arte deve ser incômoda, arte deve ser a voz dos que não podem falar que não pela arte. Arte não é escolha, é necessidade.

 

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