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João Pessoa

Às más línguas

Alguns dizem que a propaganda é a alma do negócio, eu acrescento um adendo: a alma é penada e atormentada. Na minha incauta incursão pelo mundo dos negócios, descobri que o trabalho de adquirir mercadoria de qualidade a preços generosos de nada adianta se o público não sabe que você tem as ditas mercadorias.

 “Pois bem”, como diria a minha avó, sendo o instagram a versão contemporânea da outrora popular Veraneio ornada de cornetas gigantescas em seu teto passando de rua em rua anunciado da promoção de sabão Bem-te-vi no mercadinho São Sebastião na rua do Clube Campestre ao falecimento e velório de Dona Carmosina, beata e presidenta da irmandade das Filhas de Maria, a ser velada na casa de sua filha Inaura a partir do meio dia; me pus, à moda de gritador de promoções na minha banquinha de feira, a divulgar o meu produto, falto só gritar…

Nessa minha vida de “O mercador de Gurugy” falto só assinar contrato de uma libra de carne (mas sem sangue). Entre o anúncio de uma mercadoria e outra, faço vídeos mostrando o processo de customização ou restauração de algumas peças além de falar um pouco sobre, arte, antiguidade e afins. Nesses vídeos, dou uma aparecida ou outra de oclinhos refletindo uma luz indiscreta ocultando minhas intermitentes olheiras. Outro dia, numa dessas aparições, inconvenientemente breve, me pus a falar com um indeterminado sujeito oculto no outro lado do algoritmo sobre arte, artesanato e artefatos.

Como ávido comerciante de quadros com molduras cinzeladas por famintos ;cupins e gravuras amareladas em esquecidas gavetas, devo entender um pouco do que lido. Assim sendo, Arte é expressão. Simples e complexo, mas basicamente isso. De música, pintura, arquitetura, dança e tantas outras quantos sejam as musas, arte é toda forma que o ser humano usa para transmitir seus sentimentos, pensamentos, crenças, ideais e ideologias. E nós já temos uma boa prática nisso, 40 mil anos sendo sentimentais arteiros.

Por sua vez, o artesanato, ofício mais recente, surgiu cerca de 10 mil anos atrás, no período neolítico quando os seres humanos começaram a fazer seus primeiros instrumentos para a caça ou outras atividades cotidianas e a repassarem esse conhecimento à diante. Assim sendo, enquanto arte é expressão, artesanato é técnica, tradição. Artesanato envolve um saber ancestral, passado de geração em geração em uma certa família ou comunidade e que vem sendo feito da mesma forma há séculos.

Exemplo disso são rendas, bordados e outras atividades manuais. Um bordado em ponto cruz feito por minha bisavó pode ser muito simplesmente replicado por minha irmã. Já fiz restaurações usando técnicas milenares de envernizamento. O artesanato tem, como sua premissa, a sua longevidade e transmissibilidade. O jeito de se fazer panelas de barro mudou pouco nos últimos milênios, tendo sido, talvez, a invenção do torno, no período Helênico, a sua última grande inovação. De revistas e almanaques a tutoriais no Youtube, o artesanato sobrevive através de seu constante compartilhamento. Sendo imortal em sua continuidade.

Ao contrário de outras dúvidas, nesta, a resposta é clara. Arte é expressão, é sentimento, é emoção e como essas é rápida, volúvel e mutável. A arte produzida nos anos 1910 é gritantemente diferente daquela produzida na década seguinte e ainda mais diferente daquela produzida nos dias atuais. O artesanato é técnica, tradição, continuidade, perenidade.

Mas já estamos quase no final dessa novela e ninguém descobriu ainda quem matou Odete Roitman. Já falamos de arte, artesanato, mas e os artefatos? Deixe-me lhes questionar: o que lhe vem à mente quando você pensa em artefato? Um pote de barro, caquinhos de cerâmica… talvez um esqueleto ou múmia, certo?

Hollywood retratou, em muitas ocasiões, o arqueólogo descobrindo civilizações perdidas, ou ainda, insiste em questionar como abras como as grandes pirâmides de Gisé foram construídas. Talvez alguma civilização muito evoluída que se perdeu no tempo ou até mesmo extraterrestres. Nada mais emblemático desse arquétipo que a figura do Indiana Jones.

Mas vamos a algumas reflexões: primeira delas, seriam artefatos, algo datado como são as antiguidades, que recebem seu título de “antigo” ao celebrarem o seu centenário? Creio que não. Do contrário, caquinhos do Muro de Berlim, derrubado em 1991, não entrariam na mesma categoria que a máscara mortuária de Tutancâmon, datada do Século 14 antes de Cristo.

Segunda reflexão: seriam os artefatos apenas exemplares icônicos de momentos históricos? Mais uma vez, creio que não. Estão listados como artefatos tanto o imponente busto de Nefertiti quanto um vaso de uso cotidiano encontrado num sítio arqueológico em Santa Catarina.

Agora que sabemos que não foi Eugênio que matou Odete, afinal de contas, quem é o assassino? Permita-me uma dica, pegue o seu globo terrestre, mapa mundi ou atlas e observe de onde vêm os chamados artefatos. Ainda não chegou a uma conclusão? Imagine-se em um grande museu, Talvez o MET em Nova Iorque, o Louvre em Paris ou o Belvedere em Viena. Você consegue imaginar uma galeria dedicada ao bordado dinamarquês? Ou talvez uma galeria expondo belíssimos tamancos holandeses?

Último capítulo da novela: Quem matou Odete Roitman, agora posso revelar, foi um conhecido de todos nós: o racismo. Artefato é o nome dado a, basicamente, toda arte e artesanato produzido por povos não brancos. Ou seja, uma denominação pejorativa e racista. Outro dia posso me alongar no conceito de “exótico”, mas, por hoje, vamos dizer que ao rotular algo ou alguém como “exótico” estamos dizendo que ele não é um de “nós”, e, como vimos durante toda a história, a transformação de outros povos e raças em “outros” pode ser muito perigoso. Da escravidão ao Holocausto todos esses conceitos foram baseados na diferenciação entre o “nós” e “os outros”.

No caso da produção artística ou artesanal de povos não brancos ser denominada de “artefato”, está se rotulando tais peças como não pertencentes ao “nós”, e essa rotulação nunca é com o intuito de afirmar uma superioridade, nem sequer uma igualdade, em relação ao “outro”. O problema da rotulação da produção alheia como artefato e não arte ou artesanato está se dizendo, além de que existe uma diferença entre povos e raças, que tais povos e raças são inferiores.

Além dos problemas óbvios que isso pode acarretar, considerar a produção de povos não brancos como “artefatos” e não como arte, ou, ainda, peças simbólicas e sagradas, fez com que museus por toda Europa e EUA fossem recheados com peças sagradas saqueadas de povos conquistados em guerras ou processos coloniais. Falemos mais disso brevemente, mas cenas para os próximos capítulos…

 

 

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