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Poeira do tempo

Nossa infância e a nossa juventude é um tempo tão bom que a gente nem percebe que ele passa, são dias cheios de quimeras. As brincadeiras, os amigos, a rua, a nossa casa, tudo, tudo tem sabor, cheiro, jeito e ar de felicidade, até o sofrimento é mais ameno, mais adocicado. É como se tudo fosse eterno, fosse para sempre, aliás, para sempre é sempre usado, talvez por nos sentirmos infinitos, eternos, e não nos importamos com o tempo, a qualquer coisa juramos para sempre: os amigos são para sempre, os amores e paixões são para sempre, as alegrias e sofrimentos, também são para sempre, mas, para sempre mesmo são as lembranças e a saudade.

Até as conversas em tom de fuxico eram mais instigantes, os mistérios que envolviam os antigos casarões metiam medo, ninguém se atrevia entrar em certos lugares. As mulheres de respeito eram proibidas de entrar em açougue, em casa de jogo, em bares; os pais prendiam as filhas e soltava os filhos, quantas vezes desejamos ser como os meninos para ter liberdade.

O ponto de encontro era a praça que desempenhava a sua verdadeira finalidade nos enriquecendo de experiência humana, o patamar da Igreja nos servia de palco para as brincadeiras por ser amplo e alto, seus degraus nossa passarela, e em tempo de festa do Padroeiro servia de concentração para saída da procissão, na Semana Santa o Senhor Morto repousava numa esquife e uma imensa fila se formava para beijar seus pés.

As nossas andanças pelas ruas da cidade nunca teve destino, os banhos de chuvas aproveitando as bicas das casas, os meninos chapinhando as poças d’águas a jogar lama no rosto dos outros, a vontade de ter um trocado para comprar uma cocada de leite ou um picolé de tamarindo no Bar de Zé Alves ou macaúbas na banca de Seu Deoclécio era um desejo a ser alcançado, Seu Deoclécio era um senhor que me fazia lembrar Gepeto, o pai do Pinóquio, realmente, eu vivia no mundo das histórias infantis, meu pai havia me presenteado com alguns desses livrinhos. As iguarias eram simples e de sabor inigualável e inesquecível. Muitas vezes me pego a sentir aquele gosto que nunca mais vou saborear.

Os começos de tardes eram dedicados às novelas transmitidas pelo Rádio, folhetins de longa duração e muita emoção, sentada com o ouvido grudado ao aparelho radiofônico, ainda posso ver minha avó assistindo atenta ao drama. À noite os mais velhos assistiam A Hora do Brasil programa do Governo Federal que divulgava os principais acontecimentos da vida nacional; os programas musicais, a revelação de novos talentos tudo se transformava em um grande acontecimento, um verdadeiro glamour.

A chegada do circo era uma alegria para nós: dançarinas, palhaços, trapezistas, marabalistas, adestrador de animais, equilibristas, acrobatas, engolidor de espadas, mágicos, cuspidor de fogo e o grande apresentador do espetáculo nos encantava. Toda a cidade era envolvida no mundo espetacular circense. Os meses corriam alegres, divertidos, mesmo assistindo repetidas vezes o espetáculo, ao ponto de decorar as falas e imitá-los depois da sua partida não nos cansava.

As brincadeiras de roda, pega-pega, macaca, bandeirante, lado direito, passa anel, Maninho mandou dizer, cinturão queimado, xibiu, esconde-esconde, jogo de mão, roda inglesa e tudo quanto aprendemos com os nossos pais e avós. Na realidade eram antigas e tradicionais brincadeiras infantis que se arrastavam a séculos. O nosso mundo era mesmo ilusório e colorido.

Com a precariedade da saúde as rezadeiras curavam diarreias, dores nas cruzes, barriga inchada, indisposição, e, tudo quanto à fé alcançava. Os remédios eram manipulados em casa para cada mal tinha uma planta para curar. Por falta de conhecimento as doenças tinham nomes esquisitos, sem diagnóstico preciso muitos morriam de repente, e se prolongasse no leito a morte era atribuída a feitiçaria. Nosso mundo era mágico, místico e cheio de encantamento.

As histórias contadas nas rodas das calçadas, nas cozinhas, nos terreiros eram tradições orais, de caráter educativo, sempre fazendo analogia do nosso cotidiano com os personagens vividos na narrativa, e sempre com um moral da história que no fundo era puro ensinamento, exemplificação da sabedoria popular. Os personagens mais comuns eram João Grilo, Camões, que os mais simples o chamava de Camonge, Jesus e São Pedro. Nossos pais, avós e tios sempre tinham um provérbio para nos dizer quando queriam chamar nossa atenção e nos corrigir.

As avós eram senhoras usando vestidos de tecido com pequenas e claras estampas, dois bolsos abaixo da cintura para colocar chaves, algumas anotações e um trocado para dar aos netos; aspecto de muita limpeza, chinelos baixinhos e confortáveis, usavam óculos e tinham os cabelos sempre curtos e bem cuidados. Até parece que toda a vaidade da tenra juventude havia ficado por lá.

Os avôs eram senhores bem vestidos, até suas roupas íntimas eram bem compostas: cueca samba-canção, camiseta por baixo da camisa, calças longas, sapatos e cinturão. Em casa usavam pijamas de manga e calça longa e um chinelo mais confortável. Seus cabelos brancos transmitiam respeito e carinho.

Fomos educados para respeitar os mais velhos, calar diante das broncas dos pais, levantar quando o professor entrasse na sala de aula, agradecer, cumprimentar com bom dia, boa tarde e boa noite, pedir licença ao entrar e ao se retirar, não aceitar nada na casa dos outros e nem pegar no alheio. Fazer silêncio na hora da sesta, calar quando um adulto estivesse falando, além de não interromper as conversas dos adultos e nem desmenti-los.
Nossa geração foi resquício da geração dos nossos pais, fomos educados para ser, o ter vinha como consequência. Éramos cheios de regras, mas éramos também muito educados. Nos nossos dias havia respeito, gentileza, solidariedade e boa conduta. Não que hoje seja ruim, o que houve foi uma inversão de valores, uma quebra de conduta e um excesso de permissividade. Às vezes atribuo à liquidez da vida, da velocidade que o homem deu ao tempo, e a preguiça de ter trabalho, afinal, tudo está pronto e exposto para comprar e consumir. Ter trabalho pra que?

 

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