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Início Antonio Henrique Couras Um touro numa loja de porcelana

Um touro numa loja de porcelana

Não sei bem se isso consiste em uma vantagem ou em uma desvantagem, mas o fato de saber trocentas línguas me dá a oportunidade de conhecer algumas expressões estrangeiras que são muito úteis. Essa com que intitulo o texto é uma tradução (meio capenga, devo admitir) de uma em língua inglesa: A bull in a china shop. Poderíamos utilizar a nossa boa e velha “um peixe fora d’água”, mas um peixe fora d’água não está simplesmente fora do seu elemento, ele está na iminência da morte. Talvez “pisando em ovos”? Mas essa também não é muito adequada, ela denota a necessidade de se ter cuidado com os passos dados…

Falo isso para fazer o leito familiar com o tópico deste texto, no caso, eu mesmo. Peço licença para esse evento que muito provavelmente será recorrente nesse espaço. Iniciei esse texto com essa explicação, que não explica muito, para pôr o leitor à par do que me refiro: sentir-se como um touro, grande, pesado e desajeitado numa lojinha minúscula cheia de prateleiras com delicadíssimas porcelanas, que, com um simples movimento errado de um casco mal apoiado, podem virar caquinhos pintados a mão.

Nunca me senti um peixe fora d’água, me sentia, sim, rodeado de peixes pouco interessantes, também nunca me senti pisando em ovos (talvez já os tenha pisado sem me dar conta), mas sempre me senti um touro numa loja de porcelanas. O problema nunca foi a minha natureza vacum, nem mesmo a disposição das porcelanas nas vitrines, sempre foi a combinação dos dois.

A vida inteira me senti “demais”, no sentido de demasia, exagero. Corpo grande demais, voz muito alta, curiosidade voraz. Lembro-me na terceira série, numa aula de matemática, se não me engano, tive uma discussão com a professora que me pedia para justificar a minha resposta e eu na mais profunda revolta angustiada só conseguia dizer “é óbvio!”. E foi assim que fui vivendo meus anos, um touro numa loja de porcelanas tendo que explicar o óbvio, tendo que se fazer pequeno em prol de bules e açucareiros.

Não me lembro ao certo, mas em algum momento da minha vida eu percebi que era perda de tempo lutar contra a minha “demasia”. Parei com as dietas, passei a me vestir, a falar e existir da forma que me aprazia. Desde então parei de me procurar e passei a me encontrar, no ritmo da vida. Tentativa e erro.

Toda essa falação bovina para falar sobre um tópico muito simples: a vida muda quando paramos de nos perguntar “por que?” e passamos a nos indagar “para que?”. Para que me serve essa voz tão alta? Para que me serve essa curiosidade sem fim?

Assim que têm notícias da nossa gravidez, todos ao nosso redor começam a criar expectativas a nosso respeito, “vai gostar de ir à praia”, “não vai fazer bagunça”… e assim vão construindo, prateleira por prateleira, a loja de porcelanas. De Foucault a Pink Floyd já foi tecido e tramado todo o conceito de que somos treinados para nos encaixarmos. Da nossa voz à nossa sexualidade tudo está listado no contrato social que assinamos ao nascer. Não vou me delongar aqui neste debate. Estamos em pleno 2021, se o leitor se interessar pelas visões dos autores que debatem o tema, pesquise. Se der sorte, talvez, não chegue a conclusão nenhuma. Melhor. Conceitos, explicações e teorias são por natureza limitadores. Não desejo isso a ninguém. Nenhum touro deve passar a sua vida em uma loja de porcelanas.

O que nos traz ao tópico desejado desse artigo: a metodologia. Sempre detestei com toda a força do meu ser as normas da ABNT, mas cá estou me amparando, pouco, espero, nelas. Em meu primeiro artigo fiz a devida apresentação, hoje trago a metodologia, e ela é muito simples: sempre pergunte e nunca responda.

Explico: trouxe toda essa reflexão bovina para dizer, pedir, que não nos permitamos ser o touro na loja de porcelanas, não nos cerquemos de valores, conceitos, regras… que nos limitem. Se for para sermos um touro numa loja de porcelanas que o sejamos para poder transformar em caquinhos tudo ao nosso redor.

Se a pandemia ainda não quebrou todas as suas porcelanas, jogue pela janela os últimos pires e vasinhos. Pretendo trazer nesse espaço conceitos, incômodos e dúvidas. Gostaria de lhes mostrar, e compartilhar, minhas questões na vida.

Não me alongarei muito mais por hoje, mas exemplifico com uma questão que me tem sido recorrente: precisamos trabalhar. Desde que o sistema capitalista se instaurou fomos transformados em mão de obra, ou seja, um insumo na produção de bens. Se eu sou mão de obra, não posso deixar de sê-lo. Ser mão de obra é o meu papel nesse sistema.

Numa breve explicação, a economia funciona assim: considerando que a escravidão não existe mais formalmente, devo ser remunerado pela minha mão de obra. Vendo minha mão de obra, produzo algo com ela, recebo um pagamento em troca da minha mão de obra, uso esse pagamento para adquirir algum bem e esse valor volta a ser utilizado para se pagar por mais mão de obra. E assim a economia gira, gerando lucro, bens de consumo, impostos, empregos etc. Mas existe uma falha fundamental, ao menos do ponto de vista humano nesse sistema: e se eu não puder mais vender a minha mão de obra? E se minha mão de obra não for mais necessária?

O mundo mudou, mas os nossos conceitos não. Nossa mão de obra se torna cada vez Quantos funileiros, amoladores de facas, vendedores de leite, acendedores de lampiões, lavadeiras e datilógrafos não se tornaram obsoletos com a evolução da tecnologia, da produção de bens, facilitação de importações…? mais produtiva, dia após dia somos apresentados a novas tecnologias que facilitam nosso trabalho, nunca criamos tanta riqueza. E ainda assim nunca fomos tão desvalorizados.

Vivo num mundo onde existem pessoas tão ricas que podem viajar até a lua e ao mesmo tempo existem pessoas que não tem o que comer por não poderem vender a sua mão de obra. Vivo num mundo onde existem carros que se dirigem sozinhos, casas autossuficientes em energia elétrica, num mundo onde nunca se produziu tanto de tudo, e ainda assim eu sou a primeira geração que terá menos que seus pais. Para que estamos produzindo tanto se não poderemos consumir? Por que ainda somos apenas um insumo na cadeia de produção de bens? Por que ainda vivemos para podermos ser nós mesmos apenas nas horas vagas e finais de semana? Por que ainda somos o touro dentro da loja de porcelana? Ou melhor, para que(m)?

 

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