fbpx
29.1 C
João Pessoa
Início Cristina Couto Apresentação do livro: Conversas com a morte

Apresentação do livro: Conversas com a morte

Em outubro de 2014, por ocasião do I Simpósio de Direito Constitucional de Lavras da Mangabeira, uma promoção da Secretaria de Cultura do Município que teve uma vasta programação e diversos nomes respeitados no mundo jurídico, além do lançamento do livro do professor de Direito e Assessor Jurídico da Universidade Regional do Cariri – URCA, Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto. Obra que tive a honra de apresentar. As páginas estavam carregadas de sentimentalidade, questionamentos, medos e a realidade da vida quando estamos prestes a nos despedir dela. Trago hoje aos leitores do nosso site a apresentação que fiz com muito prazer e emoção:

Jorge Emicles, a quem carinhosamente o chamamos de Jorgito, sempre sonhou em ser escritor. Desde cedo buscou o conhecimento, investiu nos estudos e sempre levou a sério sua carreira profissional, investimento feito, sucesso garantido. Realmente, depois de formado nosso jovem alcançou altos postos e altos cargos. Atitude nada convencional para os jovens de sua época.

Escrever sua história de vida é sempre gratificante, principalmente quando somos bem sucedidos nos nossos projetos de vida. Mas, escrever sua história de vida a partir da experiência com a morte anunciada, quando se está convivendo com essa possibilidade diariamente, não é nada fácil, pois bem, este livro foi escrito a partir da experiência do nosso jovem escritor e, profissional bem sucedido que ante da notícia da sua morte descobriu que era covarde demais para morrer e medroso demais para viver.

 

Diante de tal realidade deparou-se com uma vivência repleta de valores, conhecimentos e conceitos, e viu que para enfrentar a realidade precisava esvaziar-se de tudo, descobriu também, que não seriam os medicamentos que lhe devolveriam o vigor da vida, mas, a renovação mental, e para isso era preciso alcançar o equilíbrio. Ele não tinha muitas escolhas agora era mudar ou morrer, ou, mudar para viver. E como viver? E como morrer? Porque viver não era mais uma questão de tempo de existência, mas da qualidade dela. E como esvaziar-se de antigos valores que estavam tão enraizados no seu ser? Na realidade o esvaziamento não era livrar-se de tudo, mas duvidar deles, fazer uma verdadeira varredura, vendo o que realmente lhe servia e o que poderia ser jogado fora pela sua inutilidade. Ele precisava mesmo era de uma renovação, e, somente, através da negação e da contradição ele conseguiria construir um novo homem, um novo ser. Era morrer para ressuscitar, não a morte física do homem, era morrer o velho para renascer o novo.

Numa longa e penetrante viagem pelo seu interior pode vislumbrar todos os lugares dantes percorridos, todas as experiências vividas e todas as lições aprendidas. Delas a mais fascinante foi o poder, mas, o poder de transformar as coisas, de cria-las, ou recria-las. O verdadeiro Poder do Criador. Não que ele não tenha experimentado o outro lado do poder, o poder mundano, aquele que causa guerras e destrói que nos cega e nos corrompe, aquele que se repete a séculos, fugindo da realidade numa sucessiva capacidade de ludibriar as massas para alcançar seu objetivo. Jorgito, nosso protagonista, teve a oportunidade de experimentar os dois e de vencer sua tentação imunizando-se dos tenebrosos venenos palacianos, e pondo a prova seu espirito superior. Percebeu que o tempo não existe, mas era preciso transpô-lo, que a vida se resume em símbolos, e que seus verdadeiros inimigos foram aqueles que se dizia amigo, que abraçava e elogiava. Entendeu que a proximidade com o anjo da morte e o monologo com ele o livrou de um fim iminente, e teve a certeza que as coisas são efetivamente como são, e, não, como pretendemos que elas sejam.

A partir da tenebrosa experiência novos métodos de vida foram surgindo, mas, pôde ver, também, que a sabedoria antes adquirida não era suficiente para bem vivê-la. E que esvaziar completamente seu ser renegando valores e coisas era impossível, pois, a essência do ser deve ser preservada. Novas atitudes deveriam ser adotadas, então, ele se despiu de todos os conceitos, valores e alegorias que diariamente usamos como disfarce social.

Para o autor enfrentar a realidade do diagnóstico, a frieza técnica dos profissionais da medicina, a enganosa publicidade e a corrupção do Sistema Único de Saúde – SUS lhe encheu de revolta, embora tenha sido beneficiado viu que muitos pagaram com a própria vida este processo de anomia social. Agora ele estava sozinho e vivendo num mundo completamente diferente daquele que vivera desde a sua mais branda infância.

Para continuar vivendo teve que enfrentar a morte, enfrentar a sociedade e enfrentar a si mesmo, e numa solitária viagem dentro de si e em busca de si, foi se libertando de tudo, de todas as correntes e amarras que estavam presas ao seu calcanhar, escravizando e matando seu corpo para depois possuir sua alma, e num corajoso grito de liberdade pôde livrar-se de tudo e nascer de novo. Numa verdadeira metamorfose da vida e sempre em busca de ser feliz mergulhou profundamente na escuridão de suas entranhas e no momento de grande lucidez presenciou a mutação e a dor se encontrando num abraço de êxtase.

Relacionados

Julgar é fácil, difícil é ser

Como podes dizer a teu irmão: Permite-me remover o cisco do teu olho, quando há uma viga no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave...

Trinta Navios de Dimas Macedo

Navegar, mergulhar e voltar à tona sempre foi um desafio na vida de Dimas Macedo. Os Navios construídos por ele navegaram do Rio Salgado...

Ainda vai levar um tempo

A vida passa lentamente E a gente vai tão de repente Tão de repente que não sente Saudades do que já passou. (Nelson Mota, 1981). Depois de 20...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas

Afinal de Contas Que Canal é Esse?

Canal é um dispositivo hidráulico usado para transporte de água, muito conhecido de todos nós, desde a primitiva levada de terra, até os canais...

Um beijo para o gordo

Sempre me pareceu um pouco tolo a emoção que muitas pessoas demonstram quando algum famoso morre. São famosas as cenas, como nos funerais de...

Medo e Liberdade

Tenho refletido muito, talvez pelo momento político, a respeito de liberdade em seu sentido mais amplo. Mas o que é liberdade? Segundo o dicionário...

Esqueceram o Marquês

A passagem de efemérides, como a do segundo centenário da nossa Independência, faz com que algumas figuras históricas daquele momento sejam rememoradas (em regra,...

Mais Lidas

OS 11 princípios de Joseph Goebbels

Texto originalmente publicado em 08/01/2020    Joseph Goebbels, para os que não têm a informação, foi ministro da propaganda de Adolf Hitler e comandou a...

Medo e Liberdade

Tenho refletido muito, talvez pelo momento político, a respeito de liberdade em seu sentido mais amplo. Mas o que é liberdade? Segundo o dicionário...

Asas que voam

Pelas frestas da janela, essas lembranças invadem o quarto sombrio daquele tempo escorrido nas noites do passado. Uma vez, recordo bem, reservara a mim...

Julgar é fácil, difícil é ser

Como podes dizer a teu irmão: Permite-me remover o cisco do teu olho, quando há uma viga no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave...