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Memórias do Sertão: Pamonha. Sabor de saudade

Depois de alguns anos, o inverno havia chegado. A vegetação, tão verde, estava alegre. A água, nos açudes cheios, brilhava como nunca. Pássaros, borboletas e besouros dançavam no ambiente. O gado voltou a engordar. O “lucro” dos agricultores seria bom. E eu, ansiosamente, aguardava um dos dias mais desejados de minha infância. O da pamonha.

Logo cedo, papai trouxe 2 sacos de milho verde. Colocou-os próximo à porta da entrada da casa, junto aos depósitos de feijão e milho. Tirou o chapéu de palha e guardou no armador das redes. Corri para abraçá-lo. Me pegou e cantarolou, dançando até a cozinha. Com um copo de alumínio que estava sobre o pote de barro, saciou a sede. Depois, retornou para pegar as espigas.

Cuidadosamente, espalhou-as pelo chão da cozinha, que estava bem limpinho. Com uma faca bem afiada, retirou as palhas das espigas. As pontas foram cortadas num formato de cone, que ele me deu para brincar e sempre dizia que eram “galinhas”. Eu adorava espalhar pela casa. Com muito zelo, as palhas foram retiradas e as melhores, guardadas.

Quase todo mundo da família já estava na cozinha. Rogério acabara de chegar com a lenha, colocando-a no velho fogão.

Mamãe separava, atentamente, as espigas. As que tinham falhas nos grãos seriam “assadas” e cozidas. Aquelas mais secas serviriam para a canjica. Então, as que que tinham os melhores grãos, e bem “verdinhas”, seriam a matéria-prima para a pamonha.

Enquanto conversavam, alegremente, meus irmãos retiravam “os cabelos” das espigas. Mamãe e minha irmã Rosângela já esperavam, com os ralos e umas bacias grandes de alumínio, as que já estivessem limpinhas.

Após todo o milho estar ralado, as bacias ficavam cheias. Mamãe reunia tudo num grande caldeirão. Calmamente, colocava o açúcar, o sal e a nata. Suavemente, mexia com uma enorme colher de pau. Depois, com uma concha, ia colocando a massa líquida nas palhas e amarrando-as com pedaços, também, de palha, cortados em pequenas tiras. Após terminar a montagem, as pamonhas eram colocadas num grande caldeirão com água, que já estava no fogão.

O brilho nos olhares de papai e mamãe ofuscavam o cansaço visível nos seus rostos. Era dura a jornada de trabalho. As dificuldades para o criar de oito filhos eram muitas. Naquele momento, eles não lembravam disso. O inverno tinha esse poder, mesmo que temporário.

O cheiro da pamonha já tomava conta da casa. Mamãe retirava do fogão, umas espigas bem assadas. Eu corria, até pegar a minha. Depois, ficava comendo, sentado na calçada, junto com Rivaldo e Romero, esperando passar algum conhecido. Nos últimos dias, o vai e vem das famílias era grande. Eles conduziam milho verde, feijão, jerimum, melancia, maxixe, pepino, quiabo…

Ainda faltava a canjica. Papai cortava o milho e junto com o leite e o açúcar, colocava numa panela. Mamãe novamente mexia, mas dessa vez até ficar pronto. Não podia passar do ponto. Depois derramava em outras vasilhas.

Agora, era esperar a noite chegar.

A mesa arrumada. Os tamboretes lado a lado. Mamãe já havia colocado a pamonha para cada um de nós. Todo mundo querendo saborear logo. Os candeeiros já acesos. Valdir, Rosilene e Maria adoravam raspar as palhas. O café quentinho era o acompanhamento. Peguei o meu prato e me sentei no chão. Enquanto todo mundo comia, papai contava as novidades do inverno: o açude arrombado de Imaculada estava sangrando e que havia sido dito no jornal que as chuvas continuariam…

Ia dormir, feliz. Como gostava das comidas de milho. Mas, o melhor de tudo era estar em família.

Hoje, a pamonha não é a de mamãe. Nem mais aquela família está presente. Sempre que tem pamonha, as lembranças voltam. Quando vou comprar, por alguns segundos, me vejo perguntando ao vendedor:

Tem pamonha com sabor de saudade?

 

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