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Memórias do Sertão: A história do Motor de Agave

Mamãe acabara de abrir a porta da cozinha. Já se ouvia o cantar dos galos no quintal. A luz do candeeiro da sala chegava até o meu quarto. Papai e meus irmãos, Rogério e Valdir, sairiam antes do raiar do sol. Cuidadosamente, conferiram a bagagem e partiram com destino ao sítio Caruá, lá para o lado de Tabira, Pernambuco. Da calçada, observei-os até perdê-los de vista. Só voltariam após duas semanas. A temporada dos motores de agave estava começando.

Após o inverno, o homem do campo buscava oportunidades de sobrevivência. Uma das alternativas era a transformação do agave (sisal), planta resistente à aridez e ao sol nordestino, em fibras e, posteriormente, ser vendida, para a produção de cordas e fios. Para isso, era montada uma estrutura temporária, que tinha por base um equipamento rústico, a máquina desfibradeira, conhecida como motor de agave.

Aguardava, curioso, acompanhar esses trabalhos. Fui, algumas vezes, com papai, aos lugares próximos à nossa casa, no sítio Glória. E naquele universo infantil, não conseguia compreender as dificuldades, o sofrimento e os riscos daquela atividade. Era tudo uma inesquecível aventura.

Os campos de agave eram grandes áreas verdes, contrastando com a vegetação seca e sem cor da região, em épocas de estiagem. Havia em diversos sítios (Boi Morto, Riacho dos Negros, Cachoeira Alta) próximos, mas também em todo o município de Imaculada e em toda a Paraíba. O desfibramento do agave empregava muita gente e gerava oportunidade de ganhos. Na região, os principais produtores de fibra eram Benone Gomes, José Ricardo, e os irmãos Ricardo e Heleno, filhos de Narciso.

Eram dias intensos de trabalho. A jornada começava cedo e entrava pela noite. Homens e mulheres se revezavam nas mais diversas funções. Os candangos do agave.Rogério e Valdir foram cortadores, aqueles que retiravam as folhas da planta. Velozes, cuidadosos (para evitar acidentes pessoais) e hábeis (para não danificá-las). Sempre trabalhavam juntos. Após o corte, era a vez dos cambiteiros, que transportavam o agave até a máquina. Levavam as folhas nas costas e no “lombo” de jumentos. Corriam, para não atrasar a produção. As folhas de agave podem cortar, facilmente, a pele e o seu espinho pontiagudo provoca grande desconforto.

O puxador era a “estrela” do trabalho. O mais hábil e mais corajoso. O melhor remunerado. E também, o mais sujeito a acidentes graves. Colocavam e retiravam as folhas nos rotores raspadores, num vai e vem frenético. A qualquer momento, as mãos poderiam ser “engolidas”. Neném (meu padrinho), José de Teresa e Eretiano, homens altos e fortes, eram puxadores famosos e os mais disputados.

Outra etapa muito importante era a retirada da parte fina, resultante do processo. É ela que se tornaria a fibra. Precisava, de imediato, ser levada para a secagem no estaleiro, que normalmente era um “lajedo” nas proximidades. Quem fazia a atividade era chamado de fibreiro. Selma de Mariano, Rita de Teresa e Boba de Joaninha foram fibreiras cuidadosas, organizadas e muito dedicadas.

O bagaceiro recolhia as sobras, “os rejeitos”, ou seja, os resíduos do agave que não virariam fibra. E eram muitos. De longe, podia-se ver as pilhas de bagaço. Papai, uma espécie de gerente da produção, ou como diziam, “tomava conta do motor”, cuidava de tudo. Gostava do local sempre arrumado e funcionando em harmonia. Eu adorava ir com ele.

A máquina era instalada num abrigo improvisado, conhecido por “latada”, constituído por pilares (troncos) de madeira e a cobertura com palhas e folhas. À noite, a iluminação era realizada com candeeiros e lampiões com querosene. Muitos trabalhadores armavam suas redes e dormiam no local.

Normalmente, os trabalhadores vestiam calças e camisas de manga comprida. Chapéus de palha protegiam do sol. Os puxadores confeccionavam umas proteções para as mãos, feitas de borracha. Os acidentes eram comuns. Facilmente, se encontravam pessoas mutiladas e com sequelas.

A remuneração era por quilo de fibra produzida. Por isso, mal se parava a produção. Um dos poucos momentos de descanso, a hora do almoço. Todo mundo tirava os chapéus e dobrava as mangas compridas das camisas, por um instante. Alguns recebiam a visita de familiares com a marmita. Outros, os que vieram de longe, preparavam a comida por lá. Algo me chamava a atenção. O feijão parecia colorido, pois era a mistura de vários tipos (preto, corda, arranca, mulatinho, vermelho, branco….), trazidos por cada trabalhador. Era preparado num grande caldeirão.

No final da sexta-feira, a quantidade e o tamanho dos amontoados, de fibra, indicavam se a produção tinha sido boa ou não. Caminhões e camionetas já esperavam a fibra. Rapidamente, o carregamento era feito. O destino era a cidade de Imaculada. Os principais compradores eram Biu Felipe e Joãozinho de Terninha. Depois, o produto seguia seu caminho: Teixeira, Patos e Campina Grande.

Depois de 15 dias, Papai e meus irmãos voltaram do sítio Caruá. A produção foi satisfatória e nenhum acidente havia ocorrido. O cansaço nos corpos era visível. Mas, intimamente, agradeciam a oportunidade de trabalho. Papai já havia feito a feira e me deu umas pelotas (pirulitos) deliciosas. Rogério já imaginava a compra de sua primeira viola. Valdir já programava a aquisição da passagem ao sudeste, queria fazer sua “vida” em São Paulo. Entraram em casa. Foram falar com mamãe e com os irmãos.

Segunda-feira, começaria tudo novamente. Dessa vez, no sítio Boi Morto.

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Memórias!
    Meu pai, Epitácio Bronzeado, era dirigente da Coopersisal, em Campina Grande, onde as fibras do sisal (agave) eram classificadas e enfardadas para comercialização e exportação.
    Como está atualmente a produção do sisal no Nordeste?
    As técnicas do desfibramento continuam as mesmas?
    Sugestão de tópicos para os próximos textos.
    Herivelto Bronzeado

  2. O agave, a cana de açúcar e o algodão foram cultivares que se constituíam em pilares da economia nordestina, notadamente do semiárido.
    Tenho exemplo pessoal da consorciarão de dois cultivares: a cana de açucar para o fabrico da rapadura é o algodão mocó de fibra longa, ambos plantados pelo meu pai.
    A fibra sintética deu o primeiro golpe e o bicudo deu o golpe mortal no algodão e isso foi fator do empobrecimento do nosso povo que hoje vive dias bem piores.

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