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Dialogando sobre Caridade e Sentimentos em breve reflexão

Dedicamos essa coluna a esclarecimentos sobre Espiritualidade e Saúde. Falamos sobre sentimentos, sobre pensamentos e sua relação com a doença, mas hoje quero pedir permissão aos nossos leitores para falar ainda de um  sentimento que me fez refletir profundamente, mas não de forma diretamente ligada a uma enfermidade especifica, refiro-me à  caridade e como ela se relaciona com o Amor, o maior de todos os sentimentos. Sim! O amor ou melhor, a falta dele, foi uma das razões que Jesus, o Filho de Deus, precisou se vestir de carne, e descer à Terra para ensinar aos homens daquela época a sua prática, pois que o que estava sendo praticado por eles, não estava agradando ao Pai, por negar a motivo de sua criação.

Não acredito em nenhuma doutrina filosófica ou Religião que apenas pregue os ensinamentos de seus iluminados, sem uma perfeita sintonia com o mundo real, o agora.  Por essa razão, resolvi falar da Caridade, sentimento meio esquecido por aí. O Brasil, me parece ainda ser o maior país católico do mundo e, juntamente com as religiões reformadas, seguramente representa a boa parte da população Cristã do Globo. Não se faz necessário falar da Doutrina Filosófica que vivencio, mas nela permaneço, porque encontrei o Cristo que sempre acreditei que ele fosse: Um irmão Maior e Deus, o Pai verdadeiramente Bom e Justo. E o Deus justo que conheci, pratica a justiça tão perfeitamente, que só vou colher aquilo que plantar, ou seja, só vou receber aquilo que eu dou, nem mais, nem menos. Dito isso, justifico o porquê desse tema esta semana.

Tomamos conhecimento de um fato acontecido em São Paulo, precisamente no dia 07 passado, quando a Pastoral do Povo de Rua, liderada pelo Padre Júlio Lancellotti, foi impedida pela Polícia Militar de distribuir alimento à pessoas em situação de rua na chamada “Cracolândia”. Houve, inclusive, a manifestação de uma dada parlamentar que manifestou-se dizendo que “alimentar viciado é alimentar o crime”. 

Diante desse fato, como cristã, e, que ainda indignada com tais atitudes, gostaria de trazer a esse pequeno número, mas seleto, de leitores dessa coluna, nossa reflexão, sobre essa atitude e de como ela nos faz pensar no tipo de homens e mulheres que estamos nos tornando. Se você acha que ajudar um pequeno grupo não resolve o problema, concordo, mas como dizia Betinho, mesmo que se eu fosse um passarinho e estivesse levando apenas uma gota de água para apagar o fogo, eu estaria contribuindo.

Recorro ao Apóstolo Paulo na 1ª Epístola aos Coríntios:  Agora, estas três virtudes: a fé a esperança e a caridade permanecem; mas dentre elas, a mais excelente é a caridade. Paulo compreendeu de tal modo essa verdade, que disse: Quando mesmo eu tivesse a linguagem dos anjos; quando tivesse o dom da profecia, que penetrasse todos os mistérios; quando tivesse toda  a fé possível, até o ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou.

“Alimentar o vício é alimentar o crime”.  

Em 1999, Bernardo Kliksberg em “Desigualdade na América Latina” disse: “A discussão sobre desigualdade, até aqui, limitou-se a focalizar a questão da renda. Contudo embora a disparidade na renda recebida por diversos setores da população estabeleça elementos muito significativos, o quadro completo das desigualdades vai muito além dessa dimensão. Parece haver outras de peso ainda maior, e é imprescindível tratar de explorar as inter-relações entre elas, que vão criando circuitos de exclusão social”

A pandemia, que nos fez mudar totalmente de vida, trouxe à tona, não só a  fragilidade de nosso sistema de saúde pública, mas também piorou profundamente as relações sociais e de poder em nosso pais. É bom lembrar que o desemprego traz a fome, a perda da moradia e da dignidade humana. Aumenta os índices de desnutrição e muitos procuram a droga, para matar a fome. Em minha trajetória de vida em programas de Combate a Pobreza,  nunca esqueci uma vez que cheguei a uma comunidade rural no munícipio de Sousa, levando cestas básicas, e como tivemos um atraso de dois dias, porque à época tínhamos que desenvolver estratégias para os carros que transportavam os alimentos não serem saqueados,  uma senhora muito franzina e desalentada, me disse : “Dra. Faz duas noites que eu não durmo” demonstrando ainda minha ignorância,  perguntei a causa, ao que ela me respondeu: “As tripas cantando, ninguém dorme”. Não pretendo, mesmo que tenha vontade, falar de políticos A ou B que estiveram e estão no poder nas últimas décadas, mas tivemos vários avanços, e agora os vemos regredindo. Quem não lembra do quanto incomodou a parte da sociedade quando as “empregadas domesticas” puderam andar de avião? Ou o quanto incomodou, e ainda incomoda, a uma sociedade, sem conhecimento e sem valores realmente cristãos, encontrar o filho ou filha da empregada cursando na mesma Universidade de seus filhos porque aqueles, devido ao sistema de cotas, que busca minimamente reparar desiguales históricas em nosso país, passaram a ter acesso ao ensino superior público? E para surpresa dessa “sociedade” os chamados “cotistas” são os alunos que apresentam melhores desempenhos nestas Universidades.

Mas o que isso tem a ver com o sentimento de Caridade? Tudo! O problema é que foi ensinado pela maioria das crenças religiosas, que caridade é, como criticava Irmã Dulce, dar uma esmola, um pão e um café e ir embora. Não! Caridade tem a ver, principalmente, com correção de injustiças praticadas por nós mesmos, como indivíduos ou sociedade.  Todos temos parcelas de culpa e responsabilidade. Hoje, somos beneficiados se formos brancos, descendentes dos que aqui chegaram, vindo dos países do além mar, guiados por ganancia por terras e riquezas. Jamais podemos esquecer que ao chegarmos cometemos um verdadeiro genocídio dos verdadeiros donos da terra, os escravizamos, e aqueles que se recusavam a submeter-se ao julgo imposto pelos invasores eram mortos. Quando esses, não se renderam, trouxemos outros povos e igualmente os escravizamos, e os que resistiram a esse sofrimento, são hoje, os sobreviventes desse massacre que nós mesmos causamos. As mulheres, muitas rainhas e princesas em suas terras natais, belas e altivas, foram abusadas sexualmente. Jamais podemos esquecer que a exaltada miscigenação do povo brasileiro é fruto de estupros. A tão glorificada beleza da mulher brasileira se deve a essa dolorosa história de poder.

A pobreza brasileira é o resultado da confluência de uma herança histórica de desigualdades sociais e regionais que gera vulnerabilidades com as consequências de um padrão de desenvolvimento concentrador de renda, riqueza, conhecimento e poder, que produz os excluídos  que aglomeram-se  em barracos de plástico, papelão; embaixo de viadutos, ou tomam conta das ruas. São os invisíveis, esquecidos da sociedade, essa mesma sociedade que, apesar de estar em vários dias da semana nas igrejas rezando, esquecem os ensinamentos do Cristo,  logo que deixam os belos e suntuosos templos. Esquecem que Jesus está em cada drogado, em cada prostituta, em cada travesti que se encontra nas ruas, e que também  são nossos irmãos.

Quando Jesus veio pregar o amor Ele foi bem claro: Amar como eu vos amei! Quem procura vivenciar esse amor? Não apenas pregando, mas dando um pouco do que se tem, mas também, do que não se tem. Olhar para os lados, e ver quem está caindo, e ajudar. A Caridade é feita não só com bens materiais, mas com respeito, oferecendo um ombro amigo, uma palavra, um sorriso. Com essa pandemia, também aumentaram os casos de suicídios, dos muitos desesperados e que não tem estrutura psíquica para suportar, muitas vezes, a miséria, o desamparo, o desalento.

Muitas doutrinas religiosas pregavam logo no inicio da pandemia, como também foi pregado durante a peste negra, que o que estava acontecendo, era castigo de Deus e que por esta razão o homem iria se tornar um ser melhor. Não! Nunca foi e nunca será castigo, mas oportunidade que a divindade está nos oferecendo para olharmos primeiro, para dentro de nós, e depois para o nosso irmão. Não foi a providência divina que criou essa sociedade que exclui e apaga aqueles que não tem dinheiro, fomos nós, com nosso livre arbítrio, que criamos e que insistimos em manter essa sociedade violenta e desigual! Precisamos não só de alimento para o Espírito, mas também, o pão para o estômago. Como disse o Padre Lancelloti: “Sejamos irmãos de todos. Não neguemos nem pão, nem o coração para ninguém”.

Os Mentores Espirituais com relação e Fé e a Caridade, disseram a Kardec: “Disse-vos, não basta para manter entre os homens uma ordem social capaz de os tornar felizes. Pudera ter dito que a Caridade é impossível sem a fé. Na verdade, impulsos generosos se vos depararão, mesmo entre os que nenhuma religião tem: porém essa caridade austera, que só com abnegação se pratica, com um constante sacrifício de todo interesse egoístico, somente a fé pode inspirá-la. Porquanto só ela dá se possa carregar com coragem e perseverança a cruz da vida terrena”. (Evangelho Segundo o Espiritismo, CAP  XI item 13).

A esperança é como uma semente resiliente que insiste em germinar nos solos mais áridos, a fé, por sua vez, é a mão do jardineiro que semeia sem a certeza da colheita mas que acredita e, por fim, a caridade é a força que faz frutificar as árvores e florirem as ervas. Creio que nesse mundo, que muitas vezes parece desmoronar ao nosso redor, fé e esperança são as únicas coisas que nos mantém, contudo, fé, esperança e caridade, ainda que sejam os sentimentos mais salutares nos dados pelo criador nada são sem ação. As sementes mais belas jamais irão florir se não forem plantadas, regadas e cultivadas, assim fé, esperança, e principalmente a caridade, não passam de letra morta sem a ação.

 

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