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A Crônica de uma derrota anunciada previamente

A morte muitas vezes se faz anunciar e em outras ocasiões ela é furtiva e surpreendente.  Em se tratando de morte, o uso do  verbete é adequado à falência vital de todo ser vivo, seja ele do reino animal, vegetal ou mineral, pois como sabemos “tudo passa sobre a terra,” como nos ensinava o notável escritor cearense José de Alencar ao encerrar a sua obra mais conhecida que é o romance Iracema.

Tenho lido e ouvido muitas especulações sobre um possível golpe de estado que estaria sendo urdido na tecelagem do bolsonarismo. Por saber que nada é eterno na face da terra e que  a história segundo o filósofo alemão Karl Marx, quando se repete a primeira vez é como tragédia e a segunda vez é como farsa. Não poderemos formar um juízo de valor sobre qualquer pauta, sem examinar os fatos políticos pretéritos, sejam eles no Brasil ou no mundo, durante os últimos 60/70 anos.  Convém lembrar que  o nosso olhar sobre o passado não deve ser interpretado como  uma tentativa nostálgica  de repeti – lo, porém como  uma forma de  não apostarmos  no futuro. Aliás, na nossa idade temos por obrigação não acreditar em tudo que nos dizem, nem tampouco duvidar de nada. Antes disso, é prudente   que  procuremos esclarecer os fatos através de uma análise acurada. Portanto vamos a eles:

O golpe militar de 1964, que causou um grande trauma à nação, foi implantado de forma cruenta e a manu militari, obedecendo  um receituário que seria prescrito a  toda  América Latina, arquitetada nos corredores da CIA e  pedagogicamente difundido pela Escola das Américas.

A escola à qual nos referimos, foi criada pelos Estados Unidos e se situa na área do Canal do Panamá, uma possessão dos USA. É uma escola preparatória que tem como clientela os generais latino americanos candidatos ao aprendizado em  gestão de governança, tendo como foco ideológico a Doutrina da Segurança Nacional, uma doutrinação destinada a fazer o contraponto à guerra fria e evitar a expansão e o poderio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas URSS, teoricamente influenciados na América Latina pelo  “mal exemplo” cubano.

Naquela época a disputa ideológica estava na ordem do dia e era um projeto de geopolítica de supremo interesse do império estadunidense, com o propósito de preservar e manter a hegemonia sobre as reservas de energia e de matéria prima de todo Cone Sul.

Naquela época o papel conspiratório dos Estados Unidos – USA, no tocante ao  Brasil foi desempenhado pelo próprio embaixador estadunidense que naquela época visitava o país de Norte a Sul e de Leste a Oeste, de nome  Lincoln Gordon, que chegou  a visitar na Paraíba para “conhecer” as Ligas Camponesas sob a liderança de Joao Pedro Teixeira, Negro Fuba e Pedro Fazendeiro, todos eles assassinados pelas forças da reação do Vale do Paraíba.

                                   1964 – Castelo Branco e Lincoln Gordon
A época entre 1950 e 1964 o presidente Truman que antecederia John Kennedy, anunciava alto e bom som a  nova doutrina“os Estados Unidos estão dispostos a conter toda e qualquer manifestação de avanço do comunismo internacional, intervindo militarmente para garantir governos amigos ameaçados”. Foi esse contexto que inspirou  a criação de várias bases militares dos EUA  em distintas partes do mundo  para justificar a defesa da “democracia” contra o avanço do comunismo. Porém, antes mesmo do pós-guerra, essas bases já existiam em outras nações, como por exemplo no Brasil a Parnamirim Field (1942) –  a maior base da Força Aérea norte-americana em território estrangeiro, localizada em Natal capital do  Rio Grande do Norte.
 

Situada num ponto estratégico em relação a Europa e a África, desde a II Guerra Mundial a famosa Base Aérea de Natal funcionava como um porta avião com  forte apoio às ações militares dos USA no Oceano Atlântico.

Parnamirim era o ponto de convergência de   toda  armada da Força Aérea dos Estados Unidos, que ali adotavam os procedimentos necessários no sentido de condicionar as aeronaves à travessia do Atlântico, de onde decolavam.

                           Base Aérea de Parnamirim/Rn na II Guerra Mundial

O panorama que antecedeu e permeou o período pré ditatorial de 1964, era de preparar a intervenção direta, através do aparelho coercitivo que sempre foi ao longo da história o braço armado do capital, representado pelas Forças Armadas dos “países amigos” que se prestavam a esse papel.

As perguntas que não querem calar neste momento de dúvidas, em que o presidente Jair Bolsonaro  um  apologista costumaz do Golpe de Estado, com  ameaças a tudo e a todos nos  seus devaneios, inclusive procurando acuar  as outras duas instituições que compõem o  estado tripartite, são as seguintes:

Um golpe de estado desfechado agora, arrastaria consigo o interesse geopolítico continental ou se restringiria aos anseios da minoria esmagadora do cercadinho do Palácio da Alvorada?

Existe de fato o interesse geopolítico dos USA no desfecho de uma intervenção militar armada?  Com que objetivo? 

Como é do conhecimento de todos, o Brasil desde 1990  aderiu à teoria desenhada no  Consenso de Washington,  percussor    do projeto neoliberal, adotado  como modelo econômico e ato continuo, adotou a falácia de estado mínimo, passando a   alienar  ativos importantes construídos à custa de muito sacrifício em governos passados, os quais,  adotando uma postura nacionalista e acreditando na nossa potencialidade, construíram toda infraestrutura necessária ao lançamento das bases do nosso processo de industrialização, nos possibilitando ingressar no mercado mundial em melhores condições de competitividade.

A continuidade dessa pratica propiciou que chegássemos ao ano 2000 ocupando uma posição superior à da China no ranking mundial de industrialização. Essa posição que vem sendo gradualmente perdida, notadamente a partir de agosto de 2016, quando chegamos ao ponto de ter de importar máscaras e luvas no início da pandemia da covid 19.

Ora, qual seria então o interesse externo, principalmente dos Estados Unidos, em incentivar um golpe de estado, quando já se apossaram de quase todo patrimônio nacional? seria o caso de um assaltante dominar um mendigo para tomar – lhe os andrajos!

Não pensem que o Brasil é uma ilha isolada, infensa às investidas dos gigantes da economia. O País é um país enorme e rico que está inserido num contexto geopolítico e os seus movimentos são obviamente observados e monitorados. Não tenham dúvidas de que esses aspectos serão levados em conta em qualquer decisão de ruptura do dito estado democrático de direito.

                             Conselheiro Jacke Sullivan dos USA
        

 A Agência germano brasileira Reuters do dia 08/08/2021, traz uma matéria subscrita pelo jornalista Anthony Beadle que diz em manchete:

“Enviado de Biden diz a Bolsonaro que é importante não minar as eleições.”

Diz o corpo da matéria:

“Quando o conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos Jacke Sullivan, visitou o presidente Jair Bolsonaro na quinta feira, ele trouxe uma mensagem do governo norte americano: não tumultue as eleições!..”

E prossegue a nota:

“Bolsonaro vem a tempos criticando as urnas eletrônicas usadas no Brasil e pedindo a adoção de voto impresso que possa ser editado no caso de contestação do resultado.  Ao mesmo tempo tem atacado continuamente o Presidente do Tribunal Superior, (TSE) Luiz Roberto Barroso, que também é Ministro do Supremo Tribunal Federal.”

“A delegação de Sullivan transmitiu a confiança dos EUA na capacidade das instituições brasileiras de realizar eleições livres e justas em 2022, disse a embaixada americana em comunicado sem dar detalhes.”

“Sullivan também se encontrou com o Ministro da Defesa, Walter Braga Neto e com o Ministro do Gabinete Institucional (GSI) Augusto Heleno.” qual seria a razão desse encontro?

Creio que com relação ao governo dos USA, não há interesse externo nenhum numa quartelada que iria desacreditar ainda mais o Brasil já tão chacoteado.

Mesmo não achando impossível, vemos como uma hipótese remotíssima que as forças armadas embarquem nessa roubada apenas baseadas na sofreguidão e avidez de um presidente da república apartado do seu povo e com o conceito derretendo continuamente junto à opinião pública.

O que a nossa intuição nos diz é que ele está exercendo na sua plenitude o Jus Esperniands, ou seja, o direito de espernear, possuído de um pavor provocado pela CPI das Fake News.

É perfeitamente perceptível uma movimentação sintomática tanto na esfera militar como no parlamento, indicando o que a gente já conhece: quando um coqueiro esta para cair os primeiros a abandona – lo são os macacos que  comem os cocos.

Começou as mudanças no parlamento com a aceleração de pautas que dormitavam nos escaninhos da conveniência.

                       Imagem Saudosista de Bolsonaro – Golpe de 1964

O resto? O resto “é conversa flácida para bovino dormitar” como diria o saudoso comentarista esportivo de Campina Grande Humberto de Campos. Porque?

Porque toda guerra ocorrida na história da humanidade, desde o período da comunidade primitiva, tem sempre  um forte viés econômico, que é questão determinante, além de componentes étnicos ou religiosos. O maior exemplo do que afirmamos são as duas grandes guerras mundiais.

Pelo fato de ler apenas a história oficial, muita gente imagina que a causa da I Guerra Mundial iniciada em 28 de julho de 1914, foi o assassinato do Príncipe Francisco Ferdinando da Áustria, ocorrido em Sarajevo em 28 de junho de 1914. Ledo engano!

                                          Primeira Guerra Mundial

  A causa real é que a descoberta do motor a explosão pela Alemanha em 1866, revolucionou a indústria que até então utilizava o motor a vapor, fruto da I Revolução Industrial ocorrida por volta de 1760, o que convenhamos foi um enorme salto tecnológico.

O motor a explosão além de modernizar a navegação marítima e as ferrovias, permitiu o invento da navegação aérea, embrião da era espacial, além de transformar os motores usados na indústria e na agricultura em paradigma de qualidade, que faz com que as pessoas ainda hoje se orgulhem de possuir um motor alemão.

A Alemanha, dona do invento, tendo afinidade com o Japão como um centro de excelência da indústria de transformação também  à  procura de  mercado para a sua indústria emergente lançou um olhar de 360° sobre o mundo, começando pela Oceania e viu a bandeira inglesa hasteada a exigir exclusividade; olhou para a África e viu as bandeira da França, da Inglaterra e de Portugal a mostrar que o continente já tinha dono; olhou para as Américas e viu a bandeira estadunidense no pódio mais elevado, com domínio de Norte a Sul do continente. certamente se  interrogou: e agora?

Restava a construção de um consenso com os países industrializados e a convergência para um ponto de consenso que não ocorreu. Aí a Alemanha entendeu unilateralmente de partir o mundo a manu militari e foi o que fez, juntamente com o Japão.

A guerra ocorreu e só cessou em 11 de novembro de 1918 trazendo no bojo um fato novo, inusitado e inesperado que foi a Revolução Russa de 1917, com uma proposta socialista, palavra que ainda hoje soa como lança cortante aos ouvidos do baronato burguês mundial.

A II Guerra Mundial foi uma continuação da primeira, pois a Alemanha como um polo impar de tecnologia e castigada com pesadas multas de guerra, não aceitava o opróbio da expropriação e nessa ocasião, com forte apoio dos luteranos surgiu a figura mítica de Adolf Hitler, com um discurso nacionalista para lavar a honra da Alemanha e entroniza – la como a vanguarda da hegemonia mundial. Quase conseguiu seu intento, não fosse a União das Republicas Socialistas Soviéticas derrota – la fragorosamente mesmo com a perda de 27 milhões de vidas, uma perda bem maior do que o lamentável e desumano   holocausto judeu, que totalizou  de 6 milhões  de vidas, afora o enorme prejuízo material.

                           Segunda Guerra Mundial – Vitória do Povo

Voltando ao Brasil atual, às arruaças, às bravatas e  às ameaças do Presidente da República,  que no dia 10/08/2022  protagonizou uma pantomima grotesca  num picadeiro  armado na praça dos três poderes em Brasília. Assistiu o  desfile de quatro ou cinco  tanques de guerra, acompanhados de um punhado de apoiadores fanáticos, uma verdadeira claque de seguidores,  provavelmente acometidos da Síndrome de Estocolmo, num propósito belicoso  nitidamente intimidatório aos demais poderes  Legislativo e Judiciário, que compõem o tripé de poderes desenhado por Montesquieu, um filósofo iluminista francês.

Enquanto isso na Câmara Federal, num rito de celeridade alucinante era votado de afogadilho o projeto de emenda constitucional – PEC 135/19, a chamada PEC do voto escrito, ainda sob a fumaça  dos tanques, sendo necessários 308 votos para aprovação. Mesmo assim e apesar da pressão popular, a proposta pró Bolsonaro ainda obteve 229 votos a favor, contra 219 contra, indicando que ainda teremos muito trabalho pela frente, para esclarecer os corrigíveis e deixar os fundamentalistas recalcitrantes  morrerem na ignorância.

                            A Pantomina do “Poderio” de Bolsonaro

Dos componentes da  bancada da Paraíba votaram a favor da PEC do voto impresso os deputados: Edna Henrique (PSDB), Julian Lemos (PSL), Ruy Carneiro (PSDB).

Se ausentaram da sessão os deputados: Aguinaldo Almeida (PP), Efraim Filho (DEM), Hugo Mota (Republicano) Wilson Santiago (PTB).

Votaram contra: Frei Anastácio (PT), Gervásio Maia (PSB), Damião Feliciano (PDT), Wellington Roberto (PL).

Depois de toda essa retrospectiva histórica podemos concluir opinando que a perspectiva de um golpe armado dentro do golpe parlamentar de 2016, é uma hipótese remota e ao que parece as tropelias de Jair Bolsonaro estão mais para o canto do cisne, numa tentativa desesperada de reverter a fusão (passagem do gelo de sólido a liquido) a que está submetido. Ele vai descendo uma ladeira sem freios e submergindo na sua presunção se valendo até do latifundiário Sergio Reis, num concerto caipiresco.

Com relação a atitude da bancada da Paraíba que integra o pior dos piores parlamentos da nossa história republicana, já é perceptível uma movimentação de fuga que apresenta sinais de deserção.

Talvez eles estejam cumprindo os ensinamentos de um ex deputado da Paraíba que afirmava: “Com governo a gente não se rompe! Governo a gente trai”.    Por enquanto a solução é marca–los, não perde – los   de vista e nem tira–los da mente até a próxima eleição e justiça–los    sem contemplação no paredão eleitoral de 2022. Golpe de estado com que roupa? Noel Rosa responde no video a seguir na voz de Nelson Gonçalves.

Aguardemos!

Consulta:www.agência Reuters Brasil; John Red. Dez Dias Que Abalaram o Mundo; Vladimir Lênin. O Estado e A Revolução;

Fotografias:http://unisinos.br;

 http://www.tribunadonorte.com.br

/https://br.usembassy.gov/pt;

https://www.ocafezinho.com;

https://brasilescola.uol.com.br;

 https://br.rbth.com/historia;

 https://noticias.uol.com.br/

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