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Uma Reflexão sob a Ótica dos Sentimentos – O SOFRIMENTO

 

Nossa reflexão vai tratar o sofrimento como doença e como um dos sentimentos mais inquietantes ao Homem. Sei que alguns dos temas que trazemos para reflexão, podem causar repulsa ou negação em algum leitor. No entanto, apesar de alguns serem mais difíceis de serem lidos, são da mesma forma difíceis de serem abordados. Nesse momento em que o mundo, e em particular o Brasil, passa por uma pandemia que por descaso, ou falta de amor ao próximo, fez com que nos deparássemos com tantas famílias que vêm vivenciando esse sentimento. Cada uma das pessoas que partem para o mundo espiritual, deixa uma profunda dor, causando aos seus entes queridos sofrimento inarrável. Seja pela perda inesperada, pelo descaso das autoridades, pela falta de assistência médica, e, ainda, deixando além da dor, um profundo sentimento de abandono aos que ficam. Talvez algumas explicações aqui abordadas, não sejam compreendidas, mas acreditem que Deus, como Pai e nosso Criador, não permite que nada seja obra do acaso.

Abordo esse sentimento trazendo o conceito de algumas correntes filosóficas, mas em particular o Espiritismo, que nos deixa o alento de que a vida não termina no túmulo, nem tão pouco se inicia em nossa concepção. Somos espíritos vivendo uma experiência na carne, no corpo, e a morte nada mais é que uma passagem para outro plano, e de lá, se tivemos uma vida regida pelo amor e pela caridade, independente de religião, nos reencontraremos com nossos entes queridos. Fica sempre o lembrete que para atingimos o autoconhecimento, não devemos temer refletir sobre os problemas e até mesmo as grandes tragédias, pois todas têm alguma coisa a nos ensinar. Precisamos ir em busca de conhecimento para compreendermos que somos sujeitos detentores de consciência. É preciso lembrar, ainda, que não é suficiente conhecer, mas viver a experiência. Muitos têm na memória obras e livros sagrados de ponta a ponta como dizemos popularmente. No entanto, não trazem esse conhecimento para sua vivência.

Vamos, neste artigo, conhecer, em primeiro lugar, o que dizem os filósofos e as doutrinas sobre o homem. Iniciamos por Hipócrates, o pai da medicina, que nos permite de início sentirmos um pouco de delicadeza sobre uma das mais belas criações de Deus, quando, em seus apontamentos, lembra-nos que “dos elementos da natureza, o homem é o elemento mais nobre e talvez o mais delicado”. O homem ao longo do tempo foi visto e considerado de várias formas.  Para o naturalista inglês Mivart, analisando psicologicamente o homem, o viu como diferente dos outros animais pelas características da abstração, da percepção intelectual, da consciência de si mesmo, da reflexão, da memória racional. Do julgamento, da síntese e indução intelectual, e, eu tomo a liberdade de acrescentar a esse conceito, o sentimento.

A Revista Espirita de 1860, utilizada por Allan Kardec para publicar as primeiras notícias e manifestações do Espíritos, publicou uma mensagem atribuída a Santa Tereza d’Ávila com o título – O HOMEM. Peço licença ao leitor, para aqui trancrevê-la.

O homem é um composto de grandeza e de miséria, de ciência e de ignorância. É, na terra o verdadeiro representante de Deus, porque sua vasta inteligência abarca o universo. Soube descobrir uma parte dos segredos da Natureza; sabe servir-se dos elementos; percorre distancias imensas por meio do vapor; pode conversar com seu semelhante de um antípoda ao outro, pela eletricidade, que sabe dirigir; seu gênio é imenso, quando sabe depor tudo isso aos pés da Divindade e lhe rende homenagem, é quase igual a Deus!

Mas como é pequeno e miserável, quando o orgulho se apossa de seu ser! Não vê a sua miséria; não vê que sua existência, esta vida, que não pode compreender, lhe é arrebatada, às vezes instantaneamente, apenas pela vontade dessa Divindade que ele desconhece, pois não pode defender-se contra ela; é preciso se cumpra a sua sorte! Ele, que tudo estudou, tudo analisou; ele, que conhece tão bem a marcha dos astros, conhece acaso a força criadora que faz germinar o grão de trigo que lançou a terra? Pode criar uma flor, por mais simples e mais modesta? Não. Aí para seu poder. Deveria então, reconhecer um poder muito superior ao seu. A humildade deveria apoderar-se de seu coração e, admirando as obras de Deus, praticaria então um ato de adoração.

Levando em consideração esse “elemento” tão difícil de ser explicado, mas que Santa Tereza já o descreve com tanta precisão, e também já nos aponta algumas causas que levam ao sofrimento, vamos a primeira pergunta que nos vem à mente no momento de sofrimento: Por que sofremos?  O sofrimento do ponto de vista das religiões é considerado de várias formas. Para Buda, iluminado que veio ao mundo antes de Cristo, considerou a vida uma forma de sofrimento e que sua finalidade era, encontrar a maneira de libertar-se dele. O budismo vê a vida constituída de misérias que geram sofrimento: por sua vez, o sofrimento é causado pelos desejos insatisfeitos ou pelas emoções perturbadoras. Nesta linha de pensamento, o sofrimento deixará de existir quando forem eliminados os desejos. Apresenta como solução viver com moderação, a pratica da meditação em torno das aspirações elevadas do ser.

O fundamento essencial de Buda se encontra na Lei do Carma, elegendo o homem como construtor de sua felicidade ou infelicidade. De acordo com seu proceder em uma existência corporal, prepara-se para uma próxima existência, somando-se essas experiências, uma ação positiva anula a negativa causadora do sofrimento. Para o Espiritismo, o homem é o único responsável por seus atos, lembrando que estamos todos sujeitos à Lei de causa e Efeito. Vale lembrar do gesto desabusado de Pedro, que foi repreendido, de imediato, por Jesus: “Quem lança mão da espada pela espada perecerá” (Mateus 26, 52). É de opinião unânime que daí veio o provérbio universalmente repetido: “Quem com ferro fere com ferro será ferido”. Tudo que fazemos ao outro, é a nós que estamos fazendo. Ou seja, o sofrimento está intimamente relacionado aos nossos desejos, muitas vezes mundanos, que quando frustrados nos causam grande sofrimento, bem como nossas ações, de bem ou mal, que geram consequências. E esse ciclo de causa e efeito de nossas ações e desejos nos acompanha pelas diversas existências.

Existe sentido no sofrimento? Asseguro que sim. Mas acredito que um dos homens que mais pode falar sobre isso é o Dr. Victor E. Frankl prisioneiro dos campos de concentração nazista que chegou a ver sua família sair para ser morta nas Câmaras de gás e sobreviveu.  Ao sair e se recuperar, escreveu um livro entitulado “Em busca de sentidos”. Ele afirma sobre o sofrimento: “Não devemos esquecer nunca que também podemos encontrar sentido na vida quando nos confrontamos com uma situação que não pode ser mudada”. 

Quero terminar este artigo com mais essas palavras de referido Neurologista: “O que importa é dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado e que consiste em transformar uma tragédia pessoal em um triunfo”. Quantas vezes somos desafiados a buscar forças onde não sabíamos que tínhamos. Como todos os desafios – o sofrimento – é apenas mais um um a exigir de nós que identifiquemos onde está a centelha Divina que habita em cada homem e em cada mulher, obra prima do Criador.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Mais um belíssimo texto para analisarmos as nossas vidas e o pq das nossas dores. Se somos nós que causamos nossos sofrimentos, também somos nós que podemos curá-los, não é difícil, basta olhar o outro com mais respeito, amor, empatia… A cura está em nossas mãos, em nossos corações, é só querer! Viver um dia de cada vez, não com o egoísmo, mas com amor.

  2. Neves Couras tem nos trazido muitos subsídios espirituais, fruto do seu permanente estudo da filosofia/religião espírita. Até para ateus como eu é objeto de muita reflexão.
    O seu estilo leve de escrita aliado à consistência das suas ideias, nos poema refletir sobre muita coisa e a nos recordar a célebre frase atribuída a Shakespeare “ Há mais coisa entre o céu e a terra doque pode imaginar nossa vã filosofia”

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