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Ode ao Oito de Março

A simbologia do dia 8 de março transcende todo e qualquer preconceito, abarcando de fato,  toda uma  luta histórica contra o preconceito insistentemente manifestado contra a diversidade social: xenofobia, intolerância religiosa, homofobia,  racismo etc.

A data ficou marcada indelevelmente para a história, através da chacina que vitimou 138 mulheres que foram barbaramente carbonizadas no interior de uma fábrica têxtil em Nova York  nos Estados Unidos, em 1911. 

Como a história é sempre escrita pelos vencedores, os historiadores oficiais que são quase sempre intelectuais orgânicos do sistema, com raríssimas e honrosas exceções, consagraram consuetudinariamente, o crime econômico  numa escala de gravidade superior ao crime  social, ou seja, a fome de João e a procura dele por alimento,  é sempre um delito  inferior em gravidade, frente ao  prejuízo material que  João possa  ter  causado pelo “crime” de sentir fome!

Observem que quando alguém se refere a um sequestro com reféns, a curiosidade da maioria sempre se volta, não para a integridade dos reféns, mas  sim para  o valor do prejuízo material causado pelo resgate!

A tragédia ocorrida naquele dia 08 de março de 1911, não pode passar para a história como a morte passiva de 138 mulheres submissas, que se deixaram quedar diante do poderio econômico, como os historiadores oficiais  querem nos fazer crer, mas sim uma história de resistência enfrentada por  heroínas que preferiram morrer lutando por aquilo que acreditavam, pagando a ousadia  com a própria vida. 

Portanto não me venham contar estórias de pobres mulheres, consideradas como coitadinhas.  

O fato é que a eliminação física das trabalhadoras estadunidenses foi usada pelo poder econômico, como um  exemplo de que a rebeldia contra o domínio do capital é um sacrilégio intolerável que se não for vencido pelo consenso será pela coerção,  portanto  sugere resignação. NÃO, não acreditemos nisso, o cachorro é que se acostuma com a coleira! 

Elas foram, isto sim, exemplo de estoicismo, de coragem, de luta, transformado num marco histórico contra a dominação, que  não ficou sepultado nas cinzas daquela fábrica, mas consagrado na mente de quantos  acreditam na transformação do mundo  pelo  poder da luta coletiva  e igualmente à lenda do Fênix fez com que as 138 heroínas ressurgissem das cinzas dos corpos carbonizados  e virassem centenas de milhões de mulheres a gritar bem alto mundo afora: NÃO! nós  não nos submeteremos!  

 As confraternizações mundiais que acontecerão durante todo este mês de março, são   faíscas que irão acender a centelha da mente coletiva e fortalecer a decisão de se contrapor a  esse estado de iniquidades  que martiriza a todos: homens e mulheres do mundo. 

O exemplo pedagógico de luta das mulheres nos convida a   estarmos juntos na resistência e na luta por um mundo mais justo e socialmente isonômico para todos, inclusive para a diversidade da raça humana.

Se a pandemia nos desaconselha ocupar as ruas e os logradouros públicos, ocuparemos as redes sociais da forma que nos for possível.  Não será o glamour dos restaurantes de luxo que irá seduzir mulheres exploradas e discriminadas e induzi-las a se contentarem com migalhas que caem da mesa  do banquete do baronato,  logo ele, responsável direto  pela exploração e pela apropriação egoísta da riqueza, causa basilar  da  exclusão.

Já que não podemos ocupar o chão das fábricas, ocuparemos as mentes das pessoas  de forma virtual e através de um dia de jejum no qual  homenagearemos  os mortos do holocausto da covid 19, uma verdadeira    pena de morte causada pela indiferença de um governo criminoso que,  por falta de políticas públicas de saúde, já  vitimou  mais de 2.568.083 pessoas no mundo, das quais, 260.970   foram brasileiros..

Para que tenhamos uma ideia de grandeza o número global de mortos  só é inferior ao numero de vitimas da II Guerra Mundial, enquanto o número de mortos especificamente  no caso do Brasil é cinco vezes maior do que  o número de mortos na  Guerra do Paraguai. 

Mulheres operárias

A luta das mulheres de Nova York teve o fio de uma  espada amolada   que cortou  as vestes  de luxo do Tio Sam, em plena catedral do capitalismo, gritando que o Rei estava nu.  Justamente  quando o mundo se encaminhava para a I Guerra Mundial, um conflito de caráter nitidamente econômico  por disputa de mercado, ou seja, mais uma  das crises agudas do capitalismo como a que atravessamos agora, em que as mulheres não só estiveram presentes, mas lutaram bravamente ao lado dos oprimidos.

É bem verdade que o simbolismo da luta heroica dessas guerreiras, representou não o marco inicial de uma luta por emancipação, mas a continuidade histórica da luta de combatentes femininas fantásticas, que escreveram várias páginas na história  durante séculos de resistência, revelando   ao mundo diversas mulheres exponenciais,  verdadeiras    referências  de inteligência, de consciência  e de  luta em defesa  do bem estar coletivo.

 Citar os nomes de todas as heroínas históricas não caberia nesse espaço, pois temos muitos exemplos de mulheres inteligentes, preparadas, decididas e  corajosas. Citaremos como exemplo algumas  delas, mesmo correndo o risco de omitir algum nome, o que não é do  nosso propósito.  

Começaremos pelo âmbito internacional, listando os nomes de algumas mulheres fantásticas que merecem citação, sem demérito às demais:

O primeiro nome que me ocorre é por demais conhecido em todo mundo, pela capacidade intelectual, a capacidade de liderança, de fundamentação teórica e de elaboração, além de uma enorme   coragem pessoal.

Rosa Luxemburgo
Ela viveu num período tumultuado de crise do capitalismo por disputa de mercado como já ressaltamos e  de grande agitação política na qual tomou parte ativa. Seu nome é Rosa Luxemburgo, filósofa e economista polaco-alemã, que foi bárbara e covardemente assassinada, como  única forma encontrada pela reação para calar-lhe a voz. 

                 

Haydée Santamariá

Haydée Santamaría, heroína cubana que teve participação ativa na luta de libertação do seu povo,  sendo juntamente com Célia Sanchez, as únicas mulheres a pegar em armas pela libertação de Cuba na Sierra Maestra;

Margarita Neri, combatente zapatista durante a revolução mexicana de 1910, ao lado do herói nacionalista Emiliano Zapata.

Yelena Dmitriyevna Srassova, participante do alto comando da revolução russa ao lado de Lênin;

Eva Duarte Peron

  Maria Eva Duarte de Perón, líder política que dedicou a vida aos direitos sociais do povo argentino.

Na esfera nacional também  temos muitos nomes conhecidos de mulheres notáveis que fizeram história, tais como:

Tereza de Benguela que liderou um  quilombo de negros e índios no Mato Grosso;

Maria Quitéria e Maria Felipa, baianas que estiveram à frente da luta  do  02 de julho,  ocasião em que foi proclamada à verdadeira independência do Brasil;

As Heroínas de Tejucupapo, um coletivo de mulheres guerreiras pernambucanas, à frente Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Joaquina, que sem armas, lutaram contra o domínio holandês usando uma mistura de farinha e pimenta que era sacudida nos olhos dos soldados inimigos;

Anaíde Beiriz, professora e poetisa paraibana que por ser o amor biunívoco com do advogado   João Dantas, se viu envolvida num crime passional que alguns querem transformar em crime político, tendo a sua vida e a sua intimidade devassada.

O conflito entre dois políticos que confrontou de fato duas oligarquias,   arrastou na sua esteira para o cenário de luta pessoal, repito, a jovem  progressista, de visão e cultura para além do seu tempo, com  ideias consideradas à época como heréticas, por defender como professora, escritora e poetisa,  a presença das mulheres na política e fazer  valer as suas convicções pagando um preço muito alto pela ousadia, sendo caçada e  perseguida até a morte.

O crime passional decorrente desse episódio, foi usado como pretexto para a mudança das cores da bandeira  do estado e do nome da nossa capital, consagrado por   256 anos de uso, erro para o qual ainda esperamos o devido reparo histórico.

Elisabeth Teixeira e Margarida Maria Alves, que tiveram a coragem de peitar àquela época o  latifúndio da Várzea do Rio Paraíba, hoje travestido  de paletó,   gravata e vestido de seda, usando outras  armas de dominação, onde ainda  prevalece o latifúndio, voltado para a monocultura da cana de açúcar e de costas para a miséria, e a exploração ainda revela   duas classes: os ricos e os miseráveis. 

Faziam parte de um grupo que reivindicava  condições de vida humana  para os explorados do campo e onde alguns pagaram a ousadia com a própria vida: Nêgo Fuba, Pedro Fazendeiro, João Pedro Teixeira e a própria Margarida Maria Alves.

Elisabeth é a última lenda viva desse macabro extermínio e tem dedicado seus dias à causa que abraçou ainda menina.

Elisabeth Teixeira

Margarida Alves

              

Nísia Floresta

Nísia Floresta foi outra mulher para além do seu tempo. Educadora, escritora e poetisa norte rio grandense, que iniciou a educação feminista no Brasil, além de denunciar e se contrapor às injustiças contra escravos e indígenas. 

Escreveu várias obras defendendo os direitos das mulheres e foi uma aguerrida militante da causa, que transpôs fronteiras e serviu de paradigma contra o preconceito de quaisquer matizes. Seu primeiro livro, de título Direito das Mulheres e Injustiças dos Homens, foi escrito aos 22 anos.

Cunhou uma frase histórica ainda no século XIX, ainda hoje atualíssima, parecendo que foi escrita hoje. Dizia ela:

“Quanto mais ignorante o povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder.”

Depois de mais de 200 anos o acerto da frase de Nísia Floresta pode ser constatado. Hoje em dia só mudam as moscas, o pirão é o mesmo mostrado claramente na obra prima que é  o manifesto comunista de 1848. È oportuno reler!

A sua luta pelo direito ao voto só veio a ter  consequência quase 100 anos depois, mas não há como deixar de reconhecer o fundamental papel de Nísia Floresta nessa conquista histórica dos direitos, não somente das mulheres e índios, como também  em favor dos direitos da   diversidade social, contra  a xenofobia. a intolerância, a homofobia e o racismo.

O sitio www.joaovicentemachado.com.br entende e reconhece o papel das  mulheres  e de quaisquer segmento social vitima  de discriminação e estranha que, em pleno século 21, a humanidade ainda esteja  discutindo um tema como esse.

Nesse mês de março, as mulheres paraibanas que têm tido um poder de organização invejável, apresentam como bandeira de luta:

01-Combate à violência contra a mulher;

02-Garantia da manutenção dos programas sociais, inclusive o auxilio emergencial;

03-Exigência do programa vacinal já;

04- fora Bolsonaro.

Consulta: REVISTA ALGO MAIS: revistaalgomais.com;

g1.globo.com;

UFRB.biblioteca do CECULT;

www.ufrb.edu.br

pt.m.wikipedia.org;

Fotografias:brasilescola.uol.com.br

paraibahoje.com.br

brasildefato.com.br

cubadebate.com

valor;globo.com

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10 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pela excelência na escrita e através dela, possibilitar a desconstrução de pensamentos equivocados sobre o Dia Internacional da Mulher… Sigamos na luta…. 👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

  2. Muito obrigado Dodora e saiba que a sua leitura é o seu olhar sobre o sítio sempre será umreferencial de qualidade. Façamos da luta das mulheres a luta de todo povo por isonomia de tratamento é um paradigma de luta contra o secular preconceito.

  3. Agradeço os comentários elogiosos e generosos de Kissia Polyana, companheira do meu último trabalho na CAGEPA e a Gorette a minha companheira de vida e de ideias.
    Elas duas juntas a Dodora representando todas as mulheres de luta desse país e desse estado.

  4. Desde os primórdios a mulher se revelou a dona da história, embora num papel de submissão usou da sabedoria (virtude exclusivamente do sexo feminino), da sensualidade, astúcia e sagacidade para manipular, arrumar e invertar a história a seu favor ou a favor daquilo que ela defende e acredita. Nos últimos tempos e com todas as conquistas femininas elas têm assumido a linha de frente em todas as áreas da vida e dado conta do recado com competência e humanidade. Parabéns a João pelo belo e esclaredor texto e a nós que nunca desistimos da luta. Viva!!!!

  5. Que maravilha de texto!Não se resume a uma simples homenagem às mulheres que sem nenhuma dúvida está perfeita. Mas trás à luz as raízes do significado da data que sempre foi conhecida como a reação a uma insubordinação de um grupo de um grupo de operárias sem maiores detalhes sobre a injustiça social que pesava sobre elas. De todas as mulheres citadas que exerceram grande papel na história da humanidade,que seria espelho para a luta de nós mulheres hoje, pouco ou nada se sabe. Esta pesquisa está muito boa. Que a sua divulgação chegue ao maior numero de mulhres no dia Internacional das mulheres

  6. O comentário de Anita Machado me enche de orgulho por dois motivos:
    O primeiro, pela compreensão do espírito do artigo e a lucidez e riqueza de análise ela que do alto dos seus 83 anos está esbanjando lucidez.
    O segundo motivo é o orgulho que tenho dessa irmãzinha querida que caminha comigo desde os idos da década de 1950, ambos, eu e ela, pelas mãos dadivosas e sagradas da nossa mãe de fato Maria Lina Machado.

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