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Epidemias

Na última semana, nossa coluna semanal buscou explicar um pouco sobre vírus e nos deixou a deixa para discutirmos um pouco sobre epidemias. Pois bem, façamos a conclusão desta temática.

Define-se como epidemia a excessiva ocorrência de uma doença em uma determinada localidade geográfica, e sua rápida propagação por áreas ainda não afetadas. Epidemias são causadas por agentes microscópicos, mais comumente, bactérias ou vírus. Uma pandemia, nada mais é que uma epidemia de proporções globais.

Em toda nossa história, desde o surgimento da escrita até os dias de hoje, existe um padrão entre as pandemias: 

A movimentação humana (rotas comerciais e movimento de tropas) propulsionaram o alcance das epidemias;

Comportamentos sociais existentes aumentavam o contágio e dificultava a irradicação da doença.

Para embasar nossos pressupostos, vamos viajar até a Idade Média, perpassando pela Moderna até chegarmos na Contemporânea.

Talvez a mais cinematográfica de todas as epidemias, a peste negra, também conhecida como peste bubônica, é causada pela bactéria Yersinia pestis, e possui como vetor pulga que parasita os ratos domésticos. Como esses mamíferos perambulam por nossos armazéns, casas e outras estruturas construídas por nós, o ser humano acaba tendo contato com estes insetos que nos picam, e transmitem o micróbio causador da doença. A história mostra que a peste negra surgiu por volta do Século XIV, mas perdurou até meados do XIX, dizimando parcelas significativas da população do Velho Mundo a cada novo surto que surgia.

A falta de conhecimentos sobre os agentes bacterianos, reais causadores da doença, levou ao radicalismo, e diversos grupos étnicos foram acusados como os transmissores da doença: judeus, ciganos, mendigos, frades, etc. Nesta pandemia do Coronavírus, com certos ajustes contemporâneos, agimos de forma semelhante aqueles homens do passado, buscando culpados para acobertar nossa impotência no combate à doença.

No surto de cólera que atacou a Inglaterra do Século XIX, foi a bactéria Vibrio Cholerae responsável pela sua propagação. Correção faço na minha própria sentença anterior: Foram as péssimas condições de habitação da população urbana daquela época, associado aos hábitos de higiene, que geraram tal descontrole. 

Na completa ausência de saneamento básico, era socialmente aceitável que todo cidadão jogasse por sua janela as excretas e excrementos da sua linda família em direção as ruas. Estas por sinais foram construídas com uma inclinação apropriada para que houvesse a facilidade de que este material fosse conduzido rumo as drenagens naturais. Nossos hábitos eram tão incomuns, que os móveis chamados de criado mudo – agora mesas de cabeceiras – serviam originalmente para guardar penicos utilizados durante a noite, dando a comodidade de se “dar a descarga” apenas depois que o sol raiasse. Esse rio de lama (para não dizer outra coisa) chegava aos mananciais, levando os bacilos causadores da doença.

Foi especialmente o trabalho do médico inglês John Snow que identificou o principal foco da doença: ele percebeu que uma comunidade ao leste de Londres que recebia água de duas fontes, sofriam de forma diferentemente da doença. O índice maior era identificado naqueles que consumiam água do rio Tâmisa – extremamente poluído por esgoto – ao contrário daqueles que eram abastecidos por um poço de água mais limpa. A partir de então, uma mudança radical de comportamento precisou ser tomada pela sociedade. A engenharia sanitária de lá para cá galopou, e você não vê em lugar algum, até mesmo na periferia mais pobre do país mais pobre deste planeta, estes velhos hábitos dos ingleses. No entanto, por quê parece tão difícil para nós contemporâneos respeitarmos os protocolos de biossegurança estabelecidos pela OMS?

A gripe espanhola, a primeira pandemia registrada no Século XX foi causada por uma variante do vírus Influenza H1N1. Isso mesmo, aquele mesmo que retornou aos noticiários em 2009. Em 1918, o mundo sofria com a Primeira Guerra Mundial, e com ela, condições insalubres dos acampamentos, a migração das tropas pelos territórios e o retorno dos soldados aos seus países de origem, foram os principais fatores para disseminação do vírus. Semelhante ao que acontece hoje, a estrutura hospitalar colapsou, o que levou a muitas mortes não só causada pelo H1N1, mas por infecções bacterianas. 

Nesta atual pandemia temos mais de 600 anos de aprendizado, não é possível que mantenhamos os mesmos erros do passado. De lá para cá, a sociedade avançou de forma significativa na medicina preventiva e em terapêuticas. Por honra a todos os nossos ancestrais e por aqueles que se foram nestes últimos meses, sejamos simplesmente inteligentes para praticar os protocolos de segurança e o distanciamento social. 

          Vamos deixar uma marca mais positiva para os livros de história!

Foto:

2 -A Dança da Morte, retrata a situação da epidemia da peste negra na Europa. Fonte: Wikipédia

3 -A corte da Cólera, retrata as condições insalubres da periferia londrina. Fonte: BBC

4 – Hospital de campanha no Kansas/EUA durante a gripe espanhola. Fonte: Instituto de Patologia das Forças Armadas dos Estados Unidos.

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1 COMENTÁRIO

  1. Excelente texto, muito instrutivo e apropriado para o momento cruciante que estamos vivenciando em que muitos ainda se portam como se ainda vivessem na Idade Média quando se desconheciam as verdadeiras causas das epidemias

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