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A realidade do filme M8 – “Quando a Morte Socorre a Vida “

Em tempo de home Office, quando não estamos trabalhando, que, diga-se de passagem, às vezes se torna uma atividade monótona, usamos nosso fim de semana, ou o final do dia cansativo, a procura de um bom filme no Netflix no afago de tentarmos um relaxamento, amenizando, assim, a nossa ansiedade.

 Tive uma grata surpresa ao assistir nesses últimos dias, o filme M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, expondo com clareza que o racismo não só existe como é estrutural e, pior, sistemático. O filme clama por voz para além da popularização de uma causa: ser antirracista é uma necessidade, um imperativo, não uma moda.

O filme é perpassado por questionamentos e daí vem sua essência filosófica. A identificação que Maurício, protagonista do filme, um estudante negro de medicina, que conseguiu entrar na universidade pelo regime de cotas, na primeira aula de anatomia se depara com um cadáver negro, passando a questionar como aquele corpo foi parar naquele tanque de formol, a partir desse momento, tem a ver com uma realidade muito mais cruel e cotidiana que uma suposta rede obscura de aquisição de corpos para as universidades — que estariam muito bem abastecidas de cadáveres se uma porcentagem dos jovens negros que são realmente assassinados ou “sumidos” fossem parar nas aulas de anatomia.

A narrativa é um pouco incômoda e real, sobretudo para quem, como eu cresci em uma bolha de privilégios brancos. A história se desenrola no espaço de tempo de um longa-metragem, o que é pouco para demonstrar que os abusos racistas, diretos e indiretos, são cotidianos e constantes. Em uma série, a equipe teria tempo suficiente para mostrar que o racismo é, sim, estrutural e sistemático, e que muitas vezes se revela em atitudes comuns, simples e aparentemente inofensivas do cotidiano.

São esses eventos que se acumulam ao longo de toda uma vida e que geram todos os tipos de pensamentos e reações que Maurício (Juan Paiva) e sua mãe, Cida (Mariana Nunes) têm.  A sua mãe uma jovem enfermeira negra, que luta para dar uma vida com dignidade ao seu único filho. Em termos de roteiro, M8 pode parecer corrido e exagerado e, talvez por isso, é pouco provável que dialogue com mentes pouco propensas a mudanças. Por outro lado, ele é um convite: “Você não acha estranho que só exista eu aqui de negro? Tenho mais a ver com os corpos da aula de anatomia do que com meus colegas”, diz Maurício. O convite é para que observemos não o filme, mas o mundo que nos cerca, um filme forte, que faz pensar e pega o telespectador meio de surpresa com os caminhos que escolhe a seguir.

Antes dos créditos finais, há um letreiro que diz “A cada 23 minutos, um jovem negro morre no Brasil”. A escolha de colocar esse fato é muito importante, não para legitimar o didatismo do roteiro, mas para tirar o espectador do mundo de ilusão criado pelo filme e aproximá-lo da realidade vivida por milhares de pessoas. Ao optar em ser mais expositivo, o filme ganha alcance que, provavelmente, um filme de arte não teria. 

O realizador aborda o racismo dos brancos, mas também como os negros, sejam policiais ou porteiros de edifícios grã-finos, se comportam com preconceitos. Em meio a um enredo que ainda traz à luz a ancestralidade e as religiões de matriz africana (culminando num desfecho comovente), o filme conta com estrelas negras, a exemplo de participações, como  Zezé Motta e Lázaro Ramos.

Na minha casa, fomos criados com um negro, Cristiano, que hoje mora em São Paulo, graças ao meu pai, que se sensibilizou com aquele menino na rodoviária pedindo ajuda, e levou para criar, foi matriculado em escola pública, teve educação, brincava com a gente, e se fez um grande homem com uma família estruturada e com profissão definida.

Nunca em tempo de algum, fizemos diferença em razão da cor, apesar do meu pai ter sofrido severas críticas, por parte dos familiares e amigos próximos, por ter tomado tal atitude, enfrentando com altivez o racismo por parte de quem quer que fosse talvez minha identidade com o filme.

Lembro-me com lucidez, o relato constante de Cristiano, sendo abordado na rua por policiais, pelo simples fato de ser negro, nunca em tempo algum, ele saia de casa sem documento, pois para ele era tão imprescindível como sair vestido, sob pena de ser preso e apanhar na rua.

O filme trata a realidade do racismo, enfrentado inclusive entre negros, aqui e alhures, vale muito a pena assistir. Bom filme!

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6 COMENTÁRIOS

  1. Abordagem bem elaborada sobre o racismo que explicito ou velado é uma realidade cruel na nossa sociedade. É certo afirmar que a cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil. Agente de pastoral numa comunidade da periferia de Fortaleza assisti muitas vezes com revolta e lágrimas nos olhosa abordagem da policia aos jovens pobres e negros não importando que estes estivessem ensaiando a missa, preparando uma celebração catequizandoTome chute: "encosta, abre as pernas, tira a camisa". Diante da estupefacção ou um "basta!" a resposta: " a senhora não sabe de que são capazes estes malandros, não dá para confiar" etc. Ainda bem que ultimamente as vozes que se insurgem contra o racismo estão se multiplicando tal como este excelente texto e escritoras negras como Dejamila Ribeiro, Conceição Evaristo e outras que lutam escrevendosobre o racismo sentido na proria pele.

  2. Bem lembrado esse dia da abordagem, foi bem tenso e ainda bem que foi na rua de casa, se não poderia ser bem pio. Mas graças a Deus hoje eu olho pra traz e por tudo que passei e lugares que vivi e dou graças a Deus por ele ter me guiado a chegar até aqui aos 40 anos de cabeça erguida. Morei em favela onde o tráfico era muito pesado morei na rua por um ano convivia com todo tipo de gente e nunca roubei ou me droguei, aí você me pergunta por quê? Porque eu sempre tive medo porque eu sabia que as drogas era um caminho quase sem volta, então o medo nos protege. Mas hoje eu vejo que não foi só o medo que me protegeu e sim Deus estava sempre comigo guiando meus caminhos e todo dia quando acordo eu agradeço por mais um dia de vida.

  3. Cristiano, sua vida sempre foi pautada por honestidade e respeito, obrigado por ter existido na nossa família, você nos ensinou muito mais que aprendeu. Esse texto foi uma maneira de lhe homenagear, outros virão com certeza e falarei mais sobre você.

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