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Vírus, vamos tentar entendê-los

Neste carnaval atípico, mesmo com as tarefas laborais mantidas durante o feriado, me permiti assistir um pouco mais de televisão e ouvir rádio do que de costume, tentando assim, ficar atualizado sobre os assuntos do cotidiano. Como era de esperado, os noticiários estamparam as aglomerações de pessoas, desrespeitando as normas de isolamento social dado a pandemia causada pelo coronavírus.

Aquilo foi me consumindo, manifestando em mim uma mistura de raiva, indignação, pena. Precisava de um escape para não me deprimir… Meditando, lembrei dos meus professores de biologia e história do então segundo grau (agora ensino médio). Sim foram eles que me apresentaram, cada um com sua ótica, as primeiras noções de epidemiologia que recebi.

É inspirado nesses meus antigos professores e demais colegas de profissão que seguiram o sacerdócio da licenciatura, que me arriscarei a explicar um pouco de virologia aos nossos leitores, com ênfase no grupo ao qual o Covid-19 pertence: os vírus de RNA. Este texto, para não ficar tão denso, vou dividi-lo em duas partes.

Os vírus são seres que desafiam a ciência, a forma que desenvolveram sua estratégia de propagação desafia o próprio conceito de vida estabelecido. 

Diversidade dos vírus, cada grupo desenvolveu uma morfologia específica para ancorar nas céllulas hospedeiras. Fonte: Vecteezy

Imaginemos nossas células como uma casa, cheia de componentes diferentes: tijolos e telhas cerâmicas, estruturas de ferro, cabos elétricos. Tudo isso junto, forma uma unidade: a casa. 
As células são compostas por organelas que possuem determinado papel para o funcionamento do todo, semelhante a uma casa. Fonte: Internet, adaptado

Imaginemos ainda que se colocássemos todos os componentes que compõem a casa dentro de um terreno, do “nada” os elementos começariam a se combinar e se organizar até que uma casa seria erguida. Ainda nesse raciocínio, pensemos que vizinho a esta casa, colocássemos mais dos mesmos materiais, e que sem perceber, o material desapareceria e começaria a surgir outros quartos, mais telhado, até que uma outra casa surgiria do lado daquela primeira. 

Bem, essa é a capacidade de autoduplicação que todo organismo vivo possui, e isso é a nossa base conceitual para definir vida. Todo ser vivo, consegue se autoduplicar a partir dos elementos bioquímicos disponíveis e combinados através da informação existente em seu código genético.

Agora vamos colocar ao lado da casa uma barraca de camping, com materiais completamente diferente daqueles que compõem a primeira. Mas estranhamente, do nada, percebemos que saem pela janela outras barracas de camping. Isso de forma grosseira é um vírus. Ele não consegue se autoduplicar, ele precisa de um hospedeiro que sabe realizar esse processo, ainda mais utilizando-se dos elementos bioquímicos que o compõem.

É nessa analogia com materiais de construção que entramos no que seria a função do DNA. O DNA seria um manual, onde estaria contido a explicação de como montar as formas que permitem replicar os tijolos; a informação de qual o traço correto do concreto; a forma correta de fazer as amarrações da viga, etc. Na sua estrutura molecular se encontram os nucleotídeos que formam os gens, e por fim conservam a informação (o molde) dos componentes bioquímicos que formam os aminoácidos, estrutura base das proteínas que compõem os organismos vivos, e servem para quase tudo (estruturantes, catalisadoras, hormonal, etc.).

Já o RNA é uma molécula semelhante ao DNA, entretanto é formada apenas por uma fita simples, e possui mais de um tipo e função:

O RNA mensageiro tem a função de transmitir a mensagem existente nos gens, para que as proteínas sejam montadas. Seria o mestre-de-obras da nossa casa, informando como deve ser construída as partes do projeto maior;

O RNA ribossômico é aquele que monta as proteínas a partir dos aminoácidos disponíveis, seriam literalmente os operários da obra (pedreiro, eletricista, encanador, pintor, etc.);

RNA transportador, como o próprio nome diz, é responsável por carregar os aminoácidos para serem sintetizados em proteína pelo RNA ribossômico. Seria os ajudantes, levando os materiais em seus carrinhos-de-mão de lá para cá, auxiliando a construção de cada cômodo da casa.  

Estrutura molecular do RNA e DNA. Fonte: Brasil Escola

Com esta metáfora do que são as moléculas informacionais dos organismos vivos, vamos entender o processo de replicação dos vírus.

Imagine que ao invés da nossa equipe de operários e ajudantes (RNA ribossômico e transportador) construíssem os cômodos da casa, a partir do projeto e orientação do mestre-de-obras (DNA e RNA mensageiro), começassem a seguir ordens de um outro sujeito que pulou o muro (material genético viral) e começou a solicitar a confecção da barraca de camping. Ao invés dos pedreiros estarem preparando o traço da argamassa, estariam tecendo os fios do tecido que cobre a barraca, e os serralheiros ao invés de montarem a estrutura de aço das vigas, estariam montando as hastes da barraca.

De certa forma esquisito, né? Mas o princípio seria esse: se utilizar de outro organismo vivo para montar suas peças.

Entendido como funciona um vírus, precisamos entender o perigo das doenças provocadas por eles. Simplesmente o que deveria ser construído para o nosso bom funcionamento deixa de ser realizado para dar conta de outras tarefas. Baseado no exemplo anterior, no mínimo a obra atrasaria ou a estrutura da casa ficaria de baixa qualidade, lembrando certas obras públicas que sofrem com uso de materiais de segunda linha, ou mesmo, com menos material que deveria ter. Nem vou entrar no mérito dos processos inflamatórios e nos patógenos oportunistas que se associam a infecção viral, isto já daria outro texto.

Vírus que possuem DNA como material genético básico são decididos, ou seja, possuem baixa taxa de mutação. Eles sempre querem barracas de camping para duas pessoas de cor azul e hastes amarelas. Já o vírus de RNA é indeciso, uma hora quer uma barraca de 2 pessoas, depois pede para três, de cor azul, depois vermelha, amarela, verde… e por aí vai. Essa capacidade de mudar a lista de pedidos é a mutação, ou seja, a capacidade de mudar a forma original para resistir as defesas do organismo hospedeiro. O coronavírus é um desses, o que explica o surgimento dessas novas cepas mundo a fora.

Vírus não são criaturas malignas que estão à espreita para acabar com a raça humana. Eles apenas existem, e na sua história evolutiva criaram uma estratégia de propagação única, onde parasitam células que trabalham a seu favor. Não seríamos semelhantes a eles, se analisássemos nosso planeta como um macro organismo, e nós utilizamos de seus recursos para manter nossas colônias?

Uma epidemia viral é algo que ultrapassa os ciclos de vida dos organismos, flerta com conceitos de ecologia e a forma que a sociedade se relaciona entre si e o meio ambiente. Mas deixemos isso para a próxima semana…

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8 COMENTÁRIOS

  1. Mais uma ilustrativa matéria do grande colunista THIAGO SILVA nos levando a conhecer de maneira simples e comparativa essa maldade (CORONA VIRUS), que vem assustando e matando tantas pessoas no mundo.

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