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Início Flavio Ramalho de Brito O Mestre Vivo do Frevo.

O Mestre Vivo do Frevo.

Bom Jardim, município do agreste de Pernambuco. Anos finais do século 19. Numa sala silenciosa e triste, velava-se o corpo de uma criança que falecera. De repente, para assombro daqueles que se encontravam no local, o menino que estava morto, tornou, como se estivesse ficado, nas últimas horas, apenas em um sono profundo e reparador. O espanto e o susto dos presentes se transformaram, logo em seguida, em um incontido contentamento. 

O fenômeno que ocorreu poderia ter sido o que a literatura médica classifica como catalepsia. A alegria pelo “renascimento” do menino parecia prenunciar a música que, anos depois, ele iria produzir, a maior parte dela destinada a ser tocada na mais alegre das festas brasileiras: o Carnaval. A criança renascida, que se chamava Levino Ferreira da Silva, carregaria o episódio da sua “ressurreição” para o resto da sua vida, através do apelido que lhe colocaram: Vivo. 

Naquela época, em Pernambuco, mais especificamente na cidade do Recife, começava a se desenvolver um tipo de música instrumental que, a partir de 1908, passaria a ser chamada, na imprensa da cidade, pelo nome de frevo. Aquela nova forma de música surgiu como uma criação de componentes das duas bandas militares que, então, existiam na capital pernambucana e de músicos que tocavam em grupos para danças.

Por conta de capoeiras que costumavam fazer improvisadas piruetas coreográficas na frente dos desfiles das duas bandas militares recifenses, o novo gênero musical nasceu como uma manifestação onde interagiam a música e a dança, que era representada pelo que ficou conhecido como o passo do frevo. Para o dramaturgo, compositor e musicólogo pernambucano Valdemar de Oliveira, que foi um dos principais estudiosos das origens do frevo, não se podia determinar “se o frevo que é a música trouxe o passo, ou se o passo que é a dança, trouxe o frevo”.

                              
Em Bom Jardim, Levino, o menino que “ressuscitara”, ou Vivo, como ficou conhecido, logo cedo demonstrou grande aptidão para a música. Ainda criança, aprendeu os rudimentos musicais. Aos oito anos, já tocava trompa na banda de música da cidade e, aos dez, já fazia as suas primeiras composições. Dominando todos os instrumentos de uma banda passou a ser, com vinte anos, regente em Orobó, localidade que fica muito próxima à cidade paraibana de Umbuzeiro. Segundo o escritor Renato Phaelante, são dessa época as primeiras músicas carnavalescas de Levino Ferreira.

Para José Ramos Tinhorão, rigoroso historiador da nossa música popular, na primeira década do século 20, consolidou-se “a forma final do frevo de rua, exclusivamente instrumental e à base de fanfarra”. A peculiaridade do frevo-de-rua ser composto para ser executado por conjuntos instrumentais faz com que ele, na visão do pesquisador Jairo Severiano, apresente “uma característica que nenhum outro gênero musical popular brasileiro tem: já nasce orquestrado”. Essa particularidade desse tipo de música exige que as composições do gênero requeiram um conhecimento musical mais aprofundado por parte dos seus autores. Para o maestro Guerra Peixe:

“Antes de mais nada, o compositor de frevo tem que ser músico. Tem que entender de orquestração, principalmente […] o passo é a única dança em que o dançarino dança a orquestração. Cada volteio de um instrumento é acompanhado por um passo ou por uma firula do passista”.

 

Guerra Peixe 1914-1993

As habilidades musicais de Levino Ferreira como regente de banda levaram-no a ser requisitado como mestre de grupos instrumentais em várias cidades pernambucanas, como Bom Jardim, Nazaré da Mata e Limoeiro. Em 1935, ainda morando no interior de Pernambuco, Mestre Vivo teve gravado o primeiro frevo de sua autoria: “Satanás na Onda”.

                                                                     

 

No ano seguinte, Levino Ferreira transferiu-se para Recife, tendo sido contratado pela orquestra da PRA-8 Rádio Clube de Pernambuco. Já era, então, um nome destacado no frevo, com suas composições, como “Diabo Solto” e “Diabinho de Saia”, sendo gravadas, no Rio de Janeiro, pela orquestra “Diabos do Céu”, sob a batuta de Pixinguinha.

Na capital pernambucana, Levino Ferreira continuou trabalhando como instrumentista e chefiando conjuntos musicais e orquestras. Exerceu, também, a atividade de professor de música. Depois de certo tempo morando no Recife, ingressou na Orquestra Sinfônica de Pernambuco, como solista de um instrumento que tinha poucos conhecedores na cidade, o fagote.

 

Jornal Pequeno, Recife, 28.02.1946 Acervo FBN

Levino Ferreira compôs maracatus, valsas, choros e, também, peças sinfônicas, que foram elogiadas por Villa-Lobos e Guerra Peixe. Seu poema sinfônico “Dança do Cavalo Marinho” chegou  a ser apresentado, em Paris, em 1958, sob a regência do maestro Mario Câncio. Mas, foi como compositor de frevos que o Mestre Vivo alçou ao patamar dos maiores nomes do gênero, como Nelson Ferreira, Capiba, José Gonçalves (Zumba), irmãos Valença e outros. 

 

No carnaval de 1950, Levino Ferreira lançou duas músicas que não podem faltar em qualquer lista dos grandes clássicos do frevo: “Lágrimas de um Folião” e “Último Dia”. Músicos, pesquisadores e críticos musicais escolheram “Último Dia” como o melhor frevo feito no século passado. Esse frevo admirável teve uma execução memorável do maestro pernambucano Spok (Inaldo Cavalcante de Albuquerque) com o acompanhamento do Quinteto da Paraíba.

Os frevos compostos por Levino Ferreira proporcionam aquela interação entre a música e a dança do passo, da qual se referiu o maestro Guerra Peixe, que considerava o Mestre Vivo como um dos mais puros representantes do gênero. O violinista Antônio Nóbrega, interpretando “Mexe Tudo e “Último Dia” e a Spok Orquestra, com o passista Otávio Bastos, no magistral frevo “Lágrimas de um Folião”, dão exemplos da grandiosidade da música de Levino Ferreira. 

Antonio Nóbrega = Mexe com Tudo e Último Dia

Há cinquenta e um anos, o Mestre Vivo venceu, pela segunda vez, a morte. Tornou-se, pela sua música, imortal. 

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