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A lenda do judeu errante

Sou eterno imigrante; parto de mim para mim mesmo, de meu corpo para meu corpo, mutável (Samuel Rawet).

Fui educada numa família de costumes judaicos, lógico que não seguíamos a tudo, e nem tínhamos noção que aquelas práticas estavam relacionadas ao Judaísmo. Alguns rituais de purificação nos eram impostos, depois, tornaram-se hábitos naturais. Anualmente, nos dias de finados íamos ao cemitério para visita de cova, lá nada poderia ser tocado, por está impuro; nosso retorno a casa era outro ritual, entrávamos pela porta dos fundos, deixávamos sapatos e roupas no sol e íamos direto tomar banho, lavar bem os cabelos e o corpo; não se entrava em casa com nada que viesse de lá, sem antes lavar e esterilizar com álcool. Nunca andávamos descalços, nem para tomar banho, ao chegar da rua ou da escola íamos direto lavar as mãos, hábito frequente mesmo dentro de casa. Existiam lugares e uso específico para os utensílios domésticos. 

Antes de sair de casa alguns lembretes nos eram repassados. Como: não aceitar nenhum alimento ou bebida que nos fossem oferecidos, não tocar em nada e nem em ninguém, não sentar em qualquer lugar, reverenciar o Altar quando entrássemos na Igreja, que deveria ser pela porta principal. E outras regras eram sempre cumprimos por todos em casa. 

Por tradição familiar em toda residência do clã Aragão de Almeida tinha um santuário e uma lâmpada eternamente acessa; conhecida como a luz que nunca se apaga para lembrar e celebrar o Milagre Eucarístico de Sousa/PB.  Isso mesmo, o evento que aconteceu no antigo Jardim do Rio do Peixe, primeira denominação da atual cidade de Sousa teve o meu tetravô, Francisco José de Aragão como protagonista do ocorrido. Um espanhol que em 1795 fugiu dentro de um barril no porão de um navio e desembarcou na capital paraibana, depois chegou ao sertão na referida Vila. Não se sabe a data precisa do milagre, estima-se entre 1806 e 1808. O que me leva a pensar que ele fosse cristãos novos.

Meu avô materno, Antônio Augusto de Almeida, paraibano de Sousa e bisneto de Francisco José de Aragão, embora se declarasse ateu conhecia as Escrituras Sagradas como ninguém. Comerciante, profundo conhecedor de geografia e exímio violonista. Não se envolvia em política, adorava dançar e visitar as suas amantes. Ele e seus irmãos eram comerciantes e gerenciavam uma empresa em Lavras da Mangabeira/CE com filial em Cajazeiras/PB. As noites na casa de vovô eram muito alegres, a gente se reunia na calçada e ouvia muitas histórias, dentre elas as lendas judaicas. Sempre que acontecia um evento uma lenda era lembrada contextualizando a ocasião. 

A lenda do Judeu Errante ficou gravada na minha memória de criança, porque, era comum na nossa casa chamar os andarilhos, aqueles que gostavam de bater pernas na rua, como dizia minha avó de judeu errante. E, eu era a mais rueira, então, comumente era chamada assim. Anos depois, descobri que existiam várias versões deste conto, e que não fazia parte das lendas judaicas, e sim, de uma Lenda Cristã Medieval. 

Certa vez perguntei a minha avó aonde e com quem ouviram tantas histórias. Ela respondeu que essa história ela ouvira da sua mãe, uma mulher extremamente religiosa que dizia ter decorado este conto com um contador de histórias que seu pai contratava para esse fim, quando moravam em Araripe. 

Embora tenha muitas versões, a que ouvi na minha tenra infância era de um tal judeu por nome de Cartaphilus, porteiro de Pilatos,  que teria esbofeteado o rosto de Jesus, durante seu martírio, e fora condenado por ele a penar pela terra até a sua volta, ou seja, a consumação dos séculos. E a partir da crucificação de Jesus Cristo, ele passou a vagar pelo mundo mudando de nacionalidade e identidade; e a cada cem anos ele cai enfermo, debilita-se e morre na aparência, apenas para renascer com trinta anos, idade que tinha na época do martírio do Filho de Deus.     

Assim como Cartaphilus a cada século a lenda ressurge em lugares distintos. Nos primeiros tempos da expansão do islamismo surgiu um boato, entre os conquistadores árabes da Síria, de que o tal Judeu Errante havia sido encontrado em Damasco. Séculos mais tarde, ele ressurge na Península Ibérica e atende pelo nome de Juan Esperendios que significa, espera em Deus.  Na Itália durante o período medieval dizia-se que o Judeu Errante atendia pelo nome de Giovanni Buttadeo com um significado mais especifico do ocorrido no tempo de Jesus, o que bate em Deus; e na Alemanha, no século XVI, um bispo de Hamburgo afirmou ter conhecido o Judeu Errante pessoalmente, tendo inclusive sido publicado, anos mais tarde, o suposto diálogo do bispo com o Judeu.

No Brasil, a lenda se transformou em contos populares e literatura de Cordel. Em Pernambuco durante o domínio holandês, afirmava-se que o judeu errante teria migrado para terras pernambucanas, outros já diziam que o tal judeu morava no norte de Minas Gerais e vivia chorando nas portas das igrejas durante a Semana Santa. Baseados em impressos ibéricos, o poeta popular brasileiro logo o converte ao Cristianismo e aproxima ao mundo da feitiçaria e magia, temas comuns no mundo da nossa literatura e folhetos populares. 

Dois poetas populares de Pernambuco versaram sobre o tema. Baseados no conto O Mártir do Gólgota, do espanhol Perez Escrich, Severino Borges escreveu um longo romance de 40 páginas intitulado O Judeu Errante, e Manoel Apolinário Pereira com o folheto A Vida do Judeu Errante com 32 páginas mostra que a nossa rica literatura popular mantém a tradição e a continuidade dos nossos contos. 

Nas calçadas, nos terreiros, na poesia ou no folheto O JUDEU ERRANTE se renova a cada século na memória e nos contos populares. Conhecido por Sámer, Cartaphilus, Samuel do Belibeth ele continua errante até a consumação dos séculos no imaginário popular.

Fontes: COUTO, Cristina. Almeida, Aragão e Afins. Fortaleza, Editora Prêmius, 2020.

             http://www.ufscar.br/~revistaolhar/pdf/olhar3/02Jerusa.pdf

             https://memoriasdapoesiapopular.com.br/tag/manoel-apolinario-pereira/

             https://memoriasdapoesiapopular.com.br/tag/severino-borges-silva/

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1 COMENTÁRIO

  1. O artigo de Cristina Couto traz a lenda do judeu errante e como lenda apresenta algumas versões sobre a saga do povo judeu.
    Vítima da sanha e do ódio nazista foi protagonista do holocausto e assistiu ao extermínio de 6 milhões de pessoas.
    O que se espera desse sacrifício de um povo, é que outras bestas humanas não surjam e voltem a ser consagradas por muitos.
    Os judeus, os negros, os deficientes físicos, os comunistas foram todos declarados inimigos e exterminadas.
    Chefa de desumanidade!

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