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O Seresteiro das noites mais escuras, o poeta da alma e cantor de protesto: Chico Buarque de Hollanda.

Por: Cristina Couto

    Eu sou seresteiro, poeta e cantor, assim se auto definiu Chico Buarque de Hollanda, profundo conhecedor da alma humana e da língua portuguesa o que formou uma união perfeita entre os sentimentos e as palavras, ele consegue colocar a palavra certa em cada momento vivido, em cada emoção sentida, e, em cada ação praticada. É o arquiteto dos sentimentos mais íntimos, o desenhista da alma feminina, o projetista dos sonhadores, a personificação do malandro e o trovador das ideias revolucionárias.

    A História obscura do Brasil nos anos de ditadura militar, de 1964 a 1984, foi protestada em forma de canção sob a ótica de um poeta que usou da sensibilidade e da destreza com a escrita para dá voz aos que emudeceram e registrar os acontecimentos na forma mais sútil e mais memorável que alguém já pôde fazer.

    Durante os vinte anos que os militares estiveram no poder, Chico Buarque teve sérios  problemas com a censura. Diversas vezes os censores invadiram seu camarim durante os shows e as intimações para depor chegavam a todo o momento, não havia trégua. No governo do presidente Médici, o mais duro período da mais duradoura das ditaduras nacionais, foi também, a época da Copa do Mundo de 1970, do aparecimento da TV em cores e do Milagre Brasileiro, embora tenha existido mais chumbo que milagre, a tortura e a coerção política foram os instrumentos de dominação naquele período. A voz e a produção de Chico Buarque ganharam uma dimensão que extrapolou o universo musical. 

    As críticas sobre o governo não podiam ser faladas abertamente, as canções de protestos eram proibidas, LP’s quebrados, teatros invadidos, cantores presos e torturados, mas Chico Buarque soube costurar muito bem, usando do recurso linguístico (linguagem da fresta), e, com o duplo sentido driblou a censura e deu voz aos oprimidos. Foi assim com Apesar de Você, Fado Tropical e Cálice. Canções que falavam de um Brasil reprimido com explosões de bombas atingindo organizações, uma inflação que corroía os salários, e a repressão do regime cada vez mais dura. Apesar do clima tenso Chico Buarque produziu muitas das suas canções de protesto, dando voz e vez aqueles que não podiam e nem tinham coragem de protestar.

    As cidades, a miniestória, as mulheres, o dia especial, os contos de amigos, os marginalizados, a política, o cotidiano, o amor e a dor são temas discutidos nas letras de suas canções, na realidade todos os temas por ele escritos resumem num só: o tempo.  Numa concepção quase mítica de vivências entre diferentes espaços e diferentes sociedades; e, de aprendizado nas realidades sociais como forma de identificação do individuo. Mas, sempre deixando transparecer que o tempo e as coisas passam, enquanto, a História registra. O entrelaçamento entre linguagem e história mostra a gama de conhecimento, experiência e observação que Chico Buarque acumulou durante seus muitos anos de carreira, e, vem nos presenteando com as mais belas canções que ao invés de trazer um som e uma letra pesada e triste, nos faz sonhar com um mundo melhor e mais justo. Por que, nada como um tempo após um contratempo pro meu coração, e não vale a pena ficar chorando, resmungando, afinal, a vida segue sempre em frente o que se há de fazer?


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3 COMENTÁRIOS

  1. No Brasil, existiram poucos poetas como Chicoe, o genial letrista e músico que, nos anos anos da ditadura militar, expressou o sentimento da sociedade naquele momento de trevas e dramático. O artista que traduz seu tempo e nos dá esperanças. "Apesar de você, amanhã há ser outro dia", um hino.

  2. Sou antigo sim! conheci Chico Buarque no festival da Record quando ele apresentou A Banda, que disputaria com o poema de Theo de Barros, musicado por Geraldo Vandre, que era a Disparada. Venceu injustamente A Banda.
    Daí em diante sempre estive no rastro do seu pensamento e hoje eu enxergo nele um monumento poético/musical incomparável. Poeta, compositor, cidadão, político e defensor das causa do povo.
    Noel Rosa, o poeta da Vila Isabel foi um genial elaborador. Chico foi e é o gênio.

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