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As forças da natureza




Por: FLÁVIO RAMALHO BRITO


             Ao se examinar os quesitos de qualidade e quantidade para se encontrar os principais letristas da música popular brasileira, da segunda metade do anos 1960 até os dias atuais, chega-se, sem muita dificuldade a dois nomes: Chico Buarque e Paulo Cesar Pinheiro. Paulo Cesar, no que diz respeito ao quantitativo, com mais de 150 parceiros e mais de 2 mil músicas registradas, é, no entanto, inalcançável por qualquer outro letrista do Brasil, em todos os tempos. Começou muito cedo, menino de 14 anos, já fazendo a letra de uma obra-prima, Viagem, parceria com João de Aquino. O carioca Paulo Cesar Pinheiro, que fez 70 anos em abril deste ano, tem, pelo lado paterno, ligações familiares com a Paraíba, mais precisamente com a cidade de Campina Grande.


        Uma das letras mais marcantes da vastíssima produção poética de Paulo Cesar Pinheiro é o samba As Forças da Natureza, parceria com João Nogueira e que teve a sua primeira gravação feita pela, já falecida, cantora Clara Nunes, mulher de Paulo Cesar. Mas, sobre os versos de As Forças da Natureza vou deixar a palavra com o grande poeta, em texto que ele escreveu no ano de 2010:


     

    Dos meus poemas premonitórios o que mais me emociona e arrepia sempre é ‘As Forças da Natureza’. Foi escrito em 1976, tem, portanto, mais de trinta anos. Naquela época não se falava de meio ambiente como hoje. Sentia-se, todavia, os efeitos da mão do homem no planeta. Eu, neto de índia guarani, crescido entre o mar e as montanhas de Angra dos Reis, na tapera de minha avó, à luz de lampião de querosene e à brasa de fogão de lenha, sem banheiro ou bicas, bebendo água curvada no riacho e tomando banho de cachoeira, percebia claramente mudanças, com meu instinto ainda primitivo. Era perceptível, pra mim, o aquecimento global paulatino, a poluição do ar pelos gases das indústria pesadas, o mar imundo de esgotos e vazamentos químicos, os alimentos empesteados por inseticidas agrícolas carregados de veneno, geleiras derretendo em blocos do tamanho de cidades, os peixes com metal nas entranhas, terremotos maiores, furacões e tsunamis. Tudo isso me assustava. O homem urbano ligava pouco pra situação, mas eu já vislumbrava, contudo, a superpopulação mundial e a escassez de sustento. A Terra maltratada por décadas, devagar, reagia, só alertava, só avisava. João me procurou com um pedaço de melodia e palavras.

     Quando o Sol / Se derramar em toda a sua essência / Desafiando o poder da ciência / Pra combater o mal…
– Bonito! Em que você pensou? Qual é o tema?
– Não tenho a menor ideia, poeta. Isso veio desse jeito e eu não sei do que se trata.
– Parece meio apocalíptico.
– Parece o quê?
– Deixa pra lá, compadre. Prossegue o samba e deixa a letra comigo.

         
     
           Ele fez a música inteira. Primorosa. Belíssima. Tive uma visão. Nitidamente enxerguei uma Terceira Guerra Mundial com catástrofes inimagináveis. Destruição e ruínas. Dois terços da humanidade desaparecendo. Fiquei aterrorizado com as imagens que, como slides, passavam por minha cabeça. Descortinava-se, porém, no fim, um renascimento esplendoroso. Uma reconstrução mágica e poderosa de matérias e espíritos. Um povo novo ressurgindo das cinzas, com a mente voltada pra arte e a cultura da ciência dos milagres. Uma nova era se abria como um roseiral virgem. Um milênio de paz reinava adiante. Quedei-me atônito tomado de assombro e susto. E a letra saiu, como que guiada por uma mão que não era a minha. Toda. De uma vez só. Em minutos.


– E o mar / Com suas águas bravias / Levar consigo o pó dos nossos dias / Vai ser um bom sinal / Os palácios vão desabar / Sob a força de um temporal / E os ventos vão sufocar / O barulho infernal / Os homens vão se rebelar / Dessa farsa descomunal / Vai voltar tudo ao seu lugar / Afinal
Vai resplandecer / Uma chuva de prata do céu vai descer / O esplendor da mata vai renascer / E o mar de novo vai ser natural / Vai florir / Cada grande cidade o mato vai cobrir / Das ruínas um novo povo vai surgir / E vai cantar afinal / As pragas e as ervas daninhas / As armas e os homens de mal / Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval.

        Até hoje me espanto de pensar no fato e me comovo. O pior é que de lá pra cá, grande parte da poesia já se concretizou.



As Forças da Natureza – Tereza Cristina

Texto extraído de Paulo Cesar Pinheiro – História das Minhas Canções (Editora Leya, São Paulo, 2010)
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