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A mulher que apavorava os burgueses com seus charutos

Quando ela morreu, em junho de 1948, aos cinquenta anos, o paraibano José Lins do Rego escreveu, em um jornal, que ela foi “a mais livre e mais corajosa mulher de sua geração, e mesmo, do seu país” e que “havia burgueses que se apavoravam com as baforadas do seu charuto arrogante”. Em outro artigo, o escritor Oswald de Andrade disse que a sua geração “tinha nela um totem. O que se deve a ela será calculado um dia” e o poeta Carlos Drummond de Andrade afirmou “Foi mulher encantadora e brava; dizia as verdades na cara, e a poesia era para ela um valor essencial. Pagou caro por suas ideias. Nunca esmoreceu”. Afinal, quem era essa mulher?

Seu nome de batismo era Eugênia Armond Gomes Brandão, nascida em Juiz de Fora, filha única de uma tradicional família mineira que havia empobrecido. Ficara órfã de pai aos dez anos e se mudara com a mãe para o Rio de Janeiro. A mãe conseguiu um modesto emprego nos Correios e ela, ainda menina, foi trabalhar em uma loja de roupas femininas. A jovem gostava de ler e escrever e sonhava trabalhar em jornal. Na época, a presença da mulher na imprensa brasileira limitava-se à publicação de poesias, crônicas e caricaturas, como foi o caso único de Nair de Teffé, mulher do marechal Hermes da Fonseca. Num certo dia de 1914, Eugênia encontrou, em uma livraria, um jovem gaúcho que viera para o Rio, onde concluíra o curso de Direito, mas, nunca fizera qualquer petição. Fazia poesias simbolistas, passara um tempo na Europa e, na volta, colaborava na imprensa carioca. Entre os dois ocorreu o que costuma se chamar “amor à primeira vista”. Em pouco tempo, estavam casados e a simbiose entre eles foi tanta que a moça incorporou, no cartório, o próprio nome do marido ao seu, passando a se chamar Eugênia Álvaro Moreyra.

Através de Álvaro Moreyra, Eugênia conseguiu um emprego no jornal A Rua, não como uma simples jornalista, trabalhando em redação, mas como repórter de rua, atividade, na época, ainda não muito comum no Brasil, nem mesmo para os homens. Eugênia tinha, então, somente dezesseis anos. O fato despertou a atenção de alguns órgãos de imprensa da cidade, que registraram, satiricamente, a novidade, como foi o caso desses versos publicados na revista Careta:

“Apareceu aqui no Rio / Um jorná que se chama Rua / Um jorná que sae à noite / Quando está nascendo a lua / […]  Tem uma moça bonita / que o cabelo traz cortado / Usa chapéo como os home / Tem cada um oio danado”

Naquele tempo, ocorreu, no Rio, um duvidoso caso de suicídio, que poderia ter sido um crime passional. O fato movimentou a cidade e fez com que o jornal A Rua designasse a sua jovem e bonita jornalista para se infiltrar em um asilo de freiras, onde se encontrava uma mulher suspeita de envolvimento no episódio, para tentar obter informações que possibilitassem desvendar o que acontecera. Como a suspeita conseguiu fugir do local, Eugênia aproveitou e fez uma matéria contando a vida das internas no asilo. A reportagem teve grande repercussão. Surgia a primeira mulher repórter do Brasil.

Embora tivesse iniciado a vida profissional de forma retumbante, Eugênia demorou pouco tempo no jornalismo. Após o casamento, ela se amalgamou de tal forma à vida de Álvaro Moreira que não se pode subtrair a sua contribuição ao que o escritor gaúcho, a partir de então, veio a produzir. Álvaro e Eugênia eram diferentes tanto no aspecto físico como no comportamental. Joel Silveira, o renomado jornalista sergipano já falecido, que conheceu o casal, descreveu Eugênia em Na Fogueira, seu livro de memórias:

“Seus olhos, enormes, de um negrume de piche, pareciam crescer ainda mais quando ela se exaltava. A voz era poderosa, várias oitavas acima do normal […] Eu tinha por Eugênia um misto de simpatia e medo. Admirava a sua determinação ao afrontar o rebanho comum com a sua maneira extravagante de se vestir e de se pintar, com o seu vozeirão de contralto, as suas estrondosas gargalhadas […] por Eugênia Álvaro Moreyra eu nutria uma mistura de medo e admiração. Seria melhor dizer que ela me fascinava: sua voz de trovão, a franjinha bem preta descendo até a metade da testa, os olhos enormes que o rímel exagerado acentuava, aquela postura desafiadora e provocativa que parecia intimidar as pessoas que à sua passagem sempre se afastavam, reverentes e silenciosas, como se faz com as rainhas. E gostava principalmente quando na redação ela repetia, aos brados, a velha promessa: ‘ – Um dia ainda vou mijar no Getúlio. E lá mesmo, no Catete.’  Eu tinha certeza de que, logo a oportunidade se apresentasse, a promessa seria cumprida e da maneira mais copiosa possível”.

Para Joel Silveira, Álvaro Moreyra, era “manso, tranquilão, Álvaro preferia não intervir nos desabridos rompantes de Eugênia. Limitava-se, vez por outra, a dizer, naquela voz baixa que nunca se alterava: ‘- Não foi bem assim, Eugênia…’. Ou então: ‘- Você está exagerando, Eugênia…”

Álvaro e Eugênia por Alvarus, revista Vamos Ler
Apesar das diferenças, Álvaro e Eugênia se completavam, confluindo nas ideias e nos valores que ambos defendiam. O grande sambista Sinhô, que privava da amizade do casal, dedicou a Álvaro Moreyra a música Amar a uma só Mulher, gravada, em 1928, por Francisco Alves, e com várias regravações. A letra do samba faz uma apologia à fidelidade no amor, mandamento que, notoriamente, Sinhô nunca obedeceu.



A partir dos anos 1920, Álvaro Moreyra tornou-se uma das personalidades mais influentes da vida cultural do Brasil, cronista elogiado, chefe de redação de importantes publicações e divulgador do movimento modernista no Rio de Janeiro. Em 1927, criou, juntamente com Eugênia, a companhia teatral Teatro de Brinquedo, que revolucionou as artes cênicas do País. Nas palavras de Álvaro, “eu queria um teatro que fizesse sorrir, mas que fizesse pensar”. Além de participar como atriz nos espetáculos da sua companhia, Eugênia apresentava-se como declamadora de poesias, renovando esses tipos de recitais, que eram comuns na época.


Mulheres da linha de frente: Pagu, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Elsie Houston, e Eugênia -1929

Nos anos iniciais da década de 1930, Álvaro e Eugênia se filiaram ao Partido Comunista Brasileiro – PCB. Eugênia, a partir daí, assume grande ativismo político. Álvaro era um comunista diferente. Fervoroso católico, de manhã cedo, antes de qualquer atividade, passava momentos em oração em frente a uma imagem de São Francisco, seu santo de devoção. O tranquilo e sossegado Álvaro acompanhava sempre a irrequieta Eugênia nas suas constantes atividades partidárias. Eugênia participava de manifestações, falava nos comícios, tinha maior protagonismo político do que Álvaro. 

A residência onde eles moraram, no Rio de Janeiro, por mais de três décadas, se tornou um dos endereços mais importantes para a história do Brasil no século passado. Para o romancista Jorge Amado, “essa casa, na rua Xavier da Silveira, número 99, era uma espécie de estuário onde desembocavam as inquietações culturais da época, sobretudo na literatura […] se falava muito em política, o que era próprio da época. Para se ter uma ideia, basta lembrar que grande parte dos projetos de lançamento da Aliança Nacional Libertadora foram esboçados lá”.

A Aliança Nacional Libertadora – ANL era uma frente democrática, criada em 1935, que se posicionava contra o fascismo que, naqueles anos, prosperava em parte da Europa. Pretendia, também, se contrapor ao integralismo, a versão fascista nacional. Getúlio Vargas tolerou a ANL por pouco tempo, depois decretou a sua ilegalidade. Com o malfadado levante de novembro de 1935, que aconteceu no Rio, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, que ficou conhecido como a Intentona Comunista, as prisões se encheram. Eugênia foi presa e colocada em uma cela com nove mulheres, dentre elas Olga Benário Prestes, a jornalista Eneida de Moraes e a médica Nise da Silveira. Eugênia foi solta, meses depois, sem culpa formada. Com o advento do Estado Novo, ela continuou a sua militância contra o regime ditatorial, tendo participado da campanha para libertação, de um campo de concentração na Alemanha, da filha de Olga Benário, a hoje historiadora Anita Leocádia Prestes.

Álvaro sofreu várias prisões durante o período da ditadura de Vargas. Em 1945, quando da redemocratização, houve a anistia aos presos políticos e Luís Carlos Prestes foi libertado, após nove anos na prisão. Foi realizado, no dia 23 de maio, no Estádio de São Januário, no Rio, um grande comício em homenagem ao líder comunista. Eugênia foi uma das organizadoras do evento e foi a única mulher a discursar na ocasião. Com a legalização do Partido Comunista, Eugênia candidatou-se, sem sucesso, à Câmara Federal. Mas a situação de normalidade durou pouco tempo, um ano e meio. Em abril de 1947, a Justiça Eleitoral cassava o registro do PCB e os parlamentares que haviam sido eleitos pelo partido perderam seus mandatos, dentre eles Prestes, Jorge Amado e Carlos Marighela.

Em março de 1948, em pleno período considerado de liberdades democráticas, notícia publicada em jornal dava conta de que Álvaro e Eugênia haviam impetrado habeas-corpus preventivo  “por se acharem na iminência de sofrerem constrangimento ilegal em sua liberdade”, em razão das suas ideias. Três meses depois, quando estava em sua casa, Eugênia sentiu-se mal, repentinamente, e faleceu. Álvaro escreveu, naquele dia, essas palavras, depois publicadas no seu livro de memórias:
“16, junho, 1948 – Eugênia morreu. Nossa vida durou trinta e quatro anos. Foi uma vida grande. Tivemos oito filhos. Dois não cresceram […] A sua ausência enche a casa toda. Sabia acarinhar, e sabia lutar”.
Dimitri Ismailovitch, pintor ucraniano, radicado no Brasil
Marcos Sacramento – Amar a uma só mulher
Flávio Ramalho de Brito

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