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Um cientista que tinha a ciência do samba.

Descendente de imigrantes italianos, ele nasceu, em 1924, em São Paulo. Em 1947, formou-se em Medicina pela USP. No ano seguinte, foi para os Estados Unidos, onde fez o doutorado em Zoologia na renomada Universidade de Harvard. De volta ao Brasil, vinculou-se ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, onde trabalhou pelo resto da sua vida, mesmo até depois de aposentado.  Foi diretor do Museu por cerca de 30 anos e, para a instituição, fez a doação da sua biblioteca, com mais de 25 mil livros. Era reconhecido como um dos maiores cientistas do mundo na sua área, com vários livros publicados. Ele dizia já ter nascido zoólogo:

“A vida do zoólogo é a melhor vida do mundo. Deus, quando me fez zoólogo sabia o que estava fazendo. Viajei o Brasil inteiro coletando espécimes. Inteiro mesmo. Vinte e um estados. Coletava réplica de anfíbios. A grande vantagem do zoólogo é essa, viajar pelo Brasil e pelo exterior sem gastar nada. No nosso trabalho, é importante que você veja os lugares. Por isso percorri onze mil quilômetros de rios na Amazônia.”

Paulo Emílio Vanzolini era herpetólogo, especialista em répteis e anfíbios, tendo contribuído para a comprovação prática da Teoria dos Refúgios, que trata do surgimento de espécies na Amazônia e na Floresta Tropical, e que foi elaborada pelo geólogo alemão Jurgen Haffer. Existem vários táxons (classificação científica de seres vivos) que foram registrados em sua homenagem, com a utilização do seu nome. Vanzolini gostava de contar causos ocorridos nas suas expedições, um deles, acontecido no rio Solimões, envolvia um barqueiro, nascido em Patos, na Paraíba, que lhe havia ensinado versos que ele nunca esquecera. Alguns ele apresentou, em 1992, no programa Ensaio da TV Cultura, de São Paulo. Um deles referia-se ao conflito que se deu, nos meses anteriores à deflagração da revolução de 1930, em Princesa, na Paraíba, entre o chefe político local, José Pereira, e as forças da polícia estadual do governo de João Pessoa.

“Imaculada de Tavares / Município de Princesa / Bala matou tanta gente / Que foi horror e tristeza / A mortandade foi crua / Sangue correu pela rua / Que chega foi correnteza”.

Paulo Emílio Vanzolini foi um dos idealizadores da FAPESP, a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo, uma das principais instituições de apoio e fomento à pesquisa científica no País, tendo sido encarregado, pelo governador do Estado da época, de redigir a lei de criação da Fundação. Paulo Vanzolini, como era comumente conhecido, recebeu o título de professor emérito da Universidade de São Paulo.


Paulo Vanzolini, além dos seus atributos como grande cientista, tinha também a ciência do samba, que para ele era um mero passatempo, mas, que o levou a se tornar um dos mais importantes compositores da música popular do Brasil, mesmo sem tocar nenhum instrumento, nem mesmo, como ele próprio dizia, uma simples caixa de fósforos. Vanzolini contava que quando a sua primeira música fez sucesso popular, ele se encontrava no Norte do País fazendo pesquisas. “Depois de três meses eu volto do Amazonas e no domingo ao meio dia ligo a Bandeirantes na parada de sucessos – pela terceira semana consecutiva ‘Volta por Cima’ – foi a maior surpresa que eu já tive na minha vida”.

“Chorei, não procurei esconder / Todos viram, fingiram / Pena de mim, não precisava / Ali onde eu chorei / Qualquer um chorava / Dar a volta por cima que eu dei / Quero ver quem dava / Um homem de moral não fica no chão / Nem quer que mulher / Venha lhe dar a mão / Reconhece a queda e não desanima / Levanta, sacode a poeira / E dá a volta por cima”

Volta por Cima, uma das canções mais conhecidas de Paulo Vanzolini, obteve tal sucesso que levou a locução “dar a volta por cima”, criada por ele para a letra da música, a ser inscrita no Dicionário de Português de Aurélio Buarque de Hollanda, como sinônimo de “superar uma situação difícil”.

A primeira música de Paulo Vanzolini que foi gravada, em 1953, talvez a sua composição mais bonita e uma espécie de hino da cidade de São Paulo, passou um tempo meio despercebida. Somente em 1977, numa magistral gravação da cantora Márcia, a música chamada Ronda veio a ocupar o seu devido lugar entre as grandes canções brasileiras. Vanzolini, um cronista do cotidiano, contava que nas noites paulistanas: “cansei de ver mulher chegar na frente do bar, olhar para dentro como se procurasse alguém e ir embora. Não foi uma só que vi. Escrevi sobre isso”. Vanzolini não gostava muito de Ronda: “Minha primeira composição é Ronda!   Fiz a música em 1945, no tempo em que andava na “zona”. Vocês veem que é um negócio de uma pieguice tremenda. mas ‘Ronda’ dá algum dinheiro de karaokê. Japonês quando fica com dor de corno, vai ao karaokê e canta essa música, o que eu vou fazer?”

Ronda: “De noite eu rondo a cidade / a te procurar sem encontrar / No meio de olhares espio, / Em todos os bares / Você não está / Volto pra casa abatida / Desencantada da vida / O sonho alegria me dá / Nele você está […] Porém, com perfeita paciência / Volto a te buscar / Hei de encontrar / Bebendo com outras mulheres, / Rolando um dadinho / Jogando bilhar / E neste dia, então, / Vai dar na primeira edição / Cena de sangue num bar / Da Avenida São João.

Capa do disco – Elifas Andreato

Paulo Vanzolini: “A única música minha que deu dinheiro foi “Volta por cima”. Com “Volta por cima” eu fiz um banheiro novo na diretoria do museu. Eu não queria levar dinheiro de música para casa, porque era um dinheiro muito incerto. No mês que vem a mulher pergunta: “Cadê o dinheiro?” Então, eu guardava o dinheiro numa gaveta no museu e gastava em pequenas despesas, não era muita coisa, pequenas despesas do museu. Precisava comprar isso, vai lá e compra. E inventaram o negócio de Fundação Volta por Cima. Gozação comigo. Um dia, apareceu o doutor Conrad, da Fundação Rockefeller, querendo conversar comigo. Falei: pois, não. “É que nós soubemos da sua Fundação […]”

Paulo Vanzolini fez a maioria das suas músicas sem parceiros, sozinho, apesar de não saber distinguir um tom maior de um menor, como dizia o seu amigo, o violonista Paulinho Nogueira. Para Antônio Cândido, renomado crítico literário, Vanzolini tem a capacidade de achados verbais que fazem a palavra render o máximo”, como se pode ver nessas amostras:

“Boca da Noite”: “Cheguei na boca da noite, parti de madrugada / Eu não disse que ficava nem você perguntou nada / Na hora que ia indo, dormia tão descansada / Respiração tão macia, morena nem parecia / Que a fronha estava molhada  […]  O vento vai pra onde quer, a água corre pro mar / Nuvem alta em mão de vento é o jeito da água voltar / Morena, se acaso um dia tempestade te apanhar /  Não foge da ventania, da chuva que rodopia, / Sou eu mesmo a te abraçar.”

“Samba Erudito”: Andei sobre as águas / Como São Pedro / Como Santos Dumont / Fui aos ares sem medo / Fui ao fundo do mar / Como o velho Picard / Só pra me exibir / Só pra te impressionar / Fiz uma poesia / Como Olavo Bilac […] Mas você nem ligou / Para tanta proeza […] E então, como Churchill / Eu tentei outra vez / Você foi demais / Pra paciência do inglês / Aí, me curvei / Ante a força dos fatos / Lavei minhas mãos / Como Pôncio Pilatos.

Além das suas canções, Paulo Vanzolini ainda fez uma letra definitiva para Pedacinho do Céu, o belíssimo choro de Waldir Azevedo. A letra que existia, como diria Aracy de Almeida, era muito fajuta e, nas palavras de Vanzolini:

“Levei 25 anos para fazer. Letra de choro não é fácil, porque tem que ser muito exata, coincidindo com a pinicada da palheta do bandolim ou do cavaquinho. A exatidão que você tem de ter na contagem da sílaba e onde cai o acento é um trabalho de ourives, é uma mão-de-obra danada”.

Paulo Vanzolini faleceu, em 2013, com 89 anos. No refrão da sua última composição Quando Eu For Eu Vou Sem Pena, Vanzolini foi, mais uma vez, certeiro:

“Quando eu for, eu vou sem pena / Pena vai ter quem ficar”

 

Volta por cima – Maria Bethânia

Boca da Noite – Márcia

Ronda – Márcia

Samba Erudito – Mônica Salmaso

Trailer do documentário Um Homem de Moral

Flávio Ramalho de Brito

 

 

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Como biólogo eu digo, quem não leu Vanzolini é como aquele cristão que não sabe que a bíblia existe. Vanzolini é um dos papas da zoologia. Mais sua genialidade não encontrou fronteiras, foi um grande mestre em tudo que se dedicou. Obrigado João por esse resgate histórico.

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