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O Trovador da Alma do Povo

Ele fez músicas de todos os gêneros: baião, fado, tango, samba, bossa-nova, música de natal, marcha-rancho e até samba-enredo. Mas, tinha uma habilidade especial em compor boleros e canções marcadamente românticas. Todas as suas músicas tinham em comum uma característica: caiam no gosto popular. Fez mais de mil canções. Teve músicas gravadas pelo espanhol Julio Iglesias, pelo cantor e violonista Jose Feliciano e por vários outros artistas latino-americanos. Poucos foram os grandes intérpretes brasileiros, a partir do final dos anos 1950, que não cantaram as suas músicas, quase sempre transformadas em sucessos populares. Era o que se chama, atualmente, um hitmaker. Além do mais, os seus grandes êxitos não ficaram restritos a determinado período temporal, continuam a ser regravados e cantados pelo povo.

Se vivesse em um país em que os valores da cultura nacional fossem devidamente reverenciados, a exemplo daquele em que a maioria da elite brasileira se espelha, o grande compositor chamado Evaldo Gouveia seria cultuado com as honras e homenagens devidas. Evaldo Gouveia morreu no último dia 29 de maio. Estava com problemas de saúde e foi uma das vítimas da covid-19. Ia fazer, no próximo mês, 92 anos. Quase não houve registro, na mídia em geral, sobre o seu falecimento. No jornal de maior circulação do País, a Folha de São Paulo, Evaldo Gouveia não mereceu, até hoje, um reles obituário de pé de página ou qualquer outro tipo de menção. O jornalista José Trajano, três dias depois da morte do compositor, reclamava indignado, no seu blog, contra o que ele considerava um desrespeito à obra de Evaldo Gouveia: “O brasileiro prefere valorizar tudo o que é de fora. Se o cearense Evaldo tivesse nascido na França…nos States…na Inglaterra…teríamos no mínimo livros, coletâneas de discos e CDs, peça de teatro falando de suas serestas, sambas, canções, sambas- canções e músicas de dor de cotovelo … Quem se mete a entendido da MPB tem que saber mais ainda quem foi o Evaldo Gouveia… Porém, o Evaldo Gouveia morre no fim de semana em Fortaleza e pouca gente escreve sobre um compositor de mais de mil músicas, sabe-se lá quantos sucessos nas vozes de Altemar Dutra, Nélson Gonçalves, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Jair Rodrigues, Maysa… ”

 Nascido em Orós, Evaldo Gouveia passou a sua infância em Iguatu. O pai abandonou a sua mãe quando ele tinha cinco anos e, aos onze, a família se mudou para Fortaleza. Ainda adolescente, trabalhou como feirante para ajudar nas despesas da sua casa. Desde os tempos em Iguatu, já gostava de cantar e tocar violão. Incentivado por amigos, participou de um programa em uma rádio de Fortaleza. Durante seis semanas seguidas, tirou o primeiro lugar no concurso de calouros e foi contratado como cantor pela rádio. Na mesma época, com a idade aumentada, tocava violão em um cabaré da cidade. Com mais dois amigos formou um trio vocal, o Trio Nagô, que se apresentou em várias cidades nordestinas, dentre elas Campina Grande. No início dos anos 1950, o Trio Nagô foi convidado a se apresentar em São Paulo, onde fez um grande sucesso. A partir daí, Evaldo e seus companheiros decidiram se fixar no Rio de Janeiro. O trio foi, durante a sua existência de cerca de uma década, um dos principais conjuntos vocais do País. O Trio Nagô excursionou por vários países e ficou quase um ano na França, onde gravou alguns discos. Dentre os maiores sucessos do Trio Nagô destacam-se a toada Prece ao Vento e a guarânia Cabecinha no Ombro.

Paralelamente às suas atividades com o Trio Nagô, Evaldo Gouveia começou a fazer suas primeiras composições, uma delas Deixe que Ela se Vá teve grande repercussão na voz do cantor Nelson Gonçalves. Mas, foi a partir do seu encontro com Jair Amorim, jornalista e letrista já renomado (Ponto Final, Alguém como Tu, Conceição), que Evaldo Gouveia firmou uma parceria que foi a mais longeva e profícua da música popular do Brasil. Durante mais de trinta anos, até a morte de Jair Amorim em 1993, a dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim produziu inúmeras canções que, pela empatia com o gosto popular, permanecem, até hoje, sendo executadas. Evaldo Gouveia, embora sem formação musical, era um compositor intuitivo e um grande melodista. Jair Amorim escrevia letras com construções simples, mas sem resvalar na vulgaridade. Foi uma combinação perfeita para atingir o sentimento popular. Duvido que alguém da minha geração, que tenha escutado rádio, não conheça algumas das músicas de Evaldo Gouveia e Jair Amorim.

Evaldo Gouveia e Jair Amorim

O apogeu da parceria de Evaldo Gouveia com Jair Amorim se deu na década de 1960, os últimos tempos da chamada Era do Rádio, quando a radiofonia ainda exercia o predomínio na divulgação da cultura de massa. Uma das músicas mais remotas na minha memória é uma composição da dupla. Na cidade de Alagoa Grande, na casa do meu avô, eu ouvia, incontáveis vezes, de um alto-falante colocado em um pavilhão na festa da padroeira, a voz anasalada do baiano Anísio Silva cantando:

“Alguém me disse / Que tu andas novamente / De novo amor, nova paixão / Toda contente …”

Alguém me Disse foi o primeiro sucesso nacional da parceria. A música, que foi composta faz seis décadas, ainda continua sendo executada. Há poucos anos, a canção foi regravada por Gal Costa, Emílio Santiago, Tânia Alves e Ana Carolina. Seguindo a mesma linha de boleros e canções românticas, Evaldo Gouveia e Jair Amorim compuseram Ninguém Chora Por Mim (Mas, se um dia eu tiver que chorar / Ninguém chora por mim…), E A Vida Continua (Tu passas pela rua / E a vida continua …) e várias outras. Em 1963, Altemar Dutra, um jovem cantor iniciante, com voz inteiramente adequada àquele estilo de músicas, começou a gravar as canções dos dois compositores, tornando-se o principal intérprete da dupla, colecionando um sucesso atrás do outro: Tudo de Mim (De que é feito afinal / Esse seu coração / E que espécie de amor / Você deseja dar…), Somos Iguais (Acabei de saber / Que você riu de mim / E depois perguntou, se eu vivi se eu morri / Já que tudo acabou…), Brigas (Veja só, que tolice nós dois / brigarmos tanto assim / Se depois, vamos nós a sorrir / ficar de bem no fim…), Poema do Olhar (Em teu olhar / Busquei perdão / Busquei sorriso e luz…), Serenata da Chuva (Só, lá fora à chuva que cai, / Só, eu pego meu violão / Ah, tanjo o bordão e esta canção, tão triste sai…) e as muito conhecidas Sentimental Demais e Que Queres Tu de Mim.

Mas, a parceria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim não ficou restrita a músicas demasiadamente sentimentais. Eles fizeram uma bossa-nova de alto estilo, Garota Moderna, que foi gravada por Wilson Simonal (Tão bonita que ela é / Cabelos lisos como eu nunca vi / Camisa esporte sobre a calça Lee…). O Conde (Encontrei hoje cedo no meu barracão / Minha roupa de conde no chão / Fantasia de plumas azuis a rolar…) se iguala aos sambas dos mestres. Enveredaram, também, na trilha das marchas-rancho e deixaram duas das melhores do gênero: O Trovador (Sonhei que eu um dia era um trovador / Dos velhos tempos que não voltam mais…) e Bloco da Solidão (Angústia, solidão / Um triste adeus em cada mão…). E a grande façanha dessa dupla de talentosos compositores foi fazer samba-enredo. Em 1974, a Portela foi a vice-campeão do desfile de Escolas de Samba do Rio de Janeiro com um samba-enredo, que tirou a nota máxima no concurso, O Mundo Melhor de Pixinguinha (Lá vem Portela / Com Pixinguinha em seu altar…), com a assinatura na autoria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. O último grande sucesso popular da dupla foi o Tango Para Tereza (Hoje alguém pôs a rodar / Um disco de Gardel no apartamento junto ao meu / Que tristeza me deu…), gravado pela cantora Ângela Maria.

Após a morte de Jair Amorim, Evaldo Gouveia continuou compondo com outros parceiros, de gerações mais novas, os mais recentes foram o cearense Fausto Nilo, o piauiense Clodô Ferreira e, com mais constância, um dos maiores letristas do País, Paulo César Pinheiro, com quem fez várias canções (Preciso de Alguém, Entre o Mar e o Sertão, Pôster, Lembranças de Amor, Minha Alma Gêmea…). Um fato notório é que a música de Evaldo Gouveia nunca foi muito bem aceita por certa elite e por alguns pretensos intelectuais do País, que têm sabido desprezo pelas manifestações culturais nascidas do povo ou que sejam do gosto popular, como são as músicas de Evaldo Gouveia. Talvez as palavras que Aldir Blanc colocou em Querelas do Brasil, sua parceria com Maurício Tapajós, expliquem o silêncio que cobriu o falecimento de Evaldo Gouveia e o descaso com que é tratada a sua obra: “O Brazil não conhece o Brasil […] O Brazil não merece o Brasil”.

Fausto Nilo e Evaldo Gouveia

Uma seleção com trechos de músicas de Evaldo Gouveia:

https://open.spotify.com/playlist/5oZoyHNfnuI8dcgjriYcWo?si=8XByxS_YR4evJW-S-y2muw

 Alguém me disse (Evaldo Gouveia e Jair Amorim) – Leo Gandelman e Paula Lima

O Conde – (Evaldo Gouveia e Jair Amorim) – Jair Rodrigues

Serenata da chuva – (Evaldo Gouveia e Jair Amorim) – Evaldo Gouveia

Flávio Ramalho de Brito
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2 COMENTÁRIOS

  1. O texto é do colaborador, colega e amigo Flávio Brito um estudioso de música e que toda terça feira está conosco, trazendo informações como a de hoje. Agradecemos o prestígio e a leitura qualificada de um público seleto que muito nos honra e estimula a manter e melhorar cada vez mais o site(prefiro sítio).

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