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O processo de convivência com a seca



A questão da água no mundo está na ordem do dia e é pauta diária da imprensa nacional e internacional.

Divagando sobre esses fatos  durante a caminhada matinal, fomos reprisando  na mente o cenário do semiárido e toda luta do seu povo para construir uma convivência pacífica com o fenômeno natural das secas,  sem abandonar o  seu torrão natal, as suas origens e as suas raízes.
Como filho de agricultores, acompanhei ainda menino as apreensões e angustia do meu pai, que anualmente e  a partir de outubro, começava a ouvir e conversar com a natureza para decifra-la, o que nem todo ano era possível.

Observações diversas eram feitas, já que não havia o instrumental científico de  que dispomos hoje em dia,  mas mesmo assim,  a cada ano o índice de acertos da sabedoria popular  ia  aumentando. 
O sertanejo, um observador permanente das coisas  da natureza  ia desvendando e transmitindo a sabedoria popular às futuras gerações, levando em conta: a florada do pau d’arco, o  canto do acauã, a  mudança das formigas, a experiência das  pedras de sal, a barra do natal e por fim a passagem do equinócio do outono que coincide com o dia de São José.
A vinculação dos experimentos com uma ou outra divindade faz parte da cultura e da fé do nosso povo e no caso da seca não iria ser diferente. Nesse particular  cultuam:  Santa Luzia, cuja data é celebrada em  13 de dezembro; o nascimento do Cristo em 25 de dezembro, data em  que o  sertanejo observa  a barra do Natal; o dia de  São Jose Operário, padroeiro do Ceará, que é celebrado e 19 de março, coincidindo com a passagem do equinócio do outono.  Esses eram os astros maiores da fé, sem prejuízo para outras veneradas divindades que presidem outras crendices ainda presentes na vida do nosso povo.

Pela amostra é possível perceber o forte vínculo da nossa gente com a água, considerada tão preciosa como o sangue corporal, e se comprova na expressão que cunhou e usa, representativa da valoração da água: “o açude está sangrando” e não transbordando como é comum se ouvir  no sul/sudeste do Brasil  e até nas universidades.

Dizer que nunca foi feito nada para o processo de convivência com as secas é incorrer em erro e numa grande injustiça. Podemos até não ter políticas públicas que formatem um planejamento estratégico para o uso racional e sustentável dos recursos hídricos e o seu manejo, como de fato não temos. Todavia não é a falta de água o fator impeditivo do nosso desenvolvimento e a sua escassez uma justificativa adequada para o nosso atraso. Com uma pluviometria média de 400mm/ano nas nossas áreas mais críticas, nós não podemos falar em  secas e sim em   irregularidades de chuvas.

Muitos já leram sobre o espanto de D. Pedro II que era um intelectual sensível, confrontado com a dura realidade da seca.
Numa de suas andanças a cavalo, pelos sertões do nordeste, o único meio de transporte da época e com certeza muito mais eficiente do que os inúteis sobrevoos das autoridades de hoje em dia, ele se deparou com a dura realidade da seca e a sua mais cruel consequência, a fome! 

Segundo os registros da época ele cunhou uma frase indelével que ficou para a história: “venderei até a última joia da coroa, mas solucionarei o problema da seca no nordeste”. Disse isso e ato continuo destinou recursos para a construção do primeiro açude público do nordeste, o belo Açude do Cedro na cidade de Quixadá no Ceará, fato ocorrido em 1850.  Creio eu que a ideia do DNOCS foi fecundada nessa data e dela nasceu em 1910 o seu embrião.


Foi criado inicialmente com o nome de Inspetoria de Obras Contra as |Secas- IOCS, em 21 de outubro de 1906. Em 1919 passou a ser Inspetoria Federal de Obras contra as Secas – IFOCS, para em 1945 passar a chamar-se definitivamente Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS. 


Creio eu que os inspiradores pioneiros da ideia do DNOCS, ao colocarem esse C na sua sigla, nunca quiseram dizer que o C significaria Contra e sim Convivência com as secas. Afinal ninguém pode ser contra a natureza! Não é possível imaginar que o esquimó ou o siberiano sejam contra o gelo, ou que o beduíno seja contra o deserto. São fenômenos naturais com os quais temos de aprender a conviver.

A área do DNOCS, antes restrita a três ou quatro estados mais secos, passou a abranger toda área do semiárido e hoje  se estende desde o norte de Minas Gerais até o estado do Maranhão, cuidando além da construção e recuperação de médios e grandes açudes, da perfuração de poços e da piscicultura. 
Já foi até mais versátil e chegou a  construir estradas, pontes e abastecimentos, urbano de água nas cidades interioranas e pela sua capacidade  e know how  próprio, transformou-se  na maior escola de barragens de terra do mundo. 

Hoje, malgrado está sendo criminosamente esvaziado e perdendo a memória técnica por falta de renovação dos seus quadros, ainda subsiste  prestando bons  serviços.
Construiu mais de 300 açudes entre médios e grandes como: Coremas/Mãe D’água na Paraíba, Orós e Castanhão no Ceará e Armando Ribeiro Gonçalves no Rio Grande do Norte, para falar dos maiores, tudo isso com dinheiro público. 
Espelho do Açude  Estevam Marinho - Coremas
Parede do Açude Estevam Marinho – Coremas


Passados todos esses anos, ideias novas foram surgindo e se somando às antigas e no somatório tornando o problema da seca mais suportável. 
A construção de cisternas de placas ou de terraço, de pequenos açudes, de poços profundos, de barragens subterrâneas e barragens trincheira, do  reuso da água, da potabilização de águas salobras e tudo isso somado às grandes barragens, nos permitiu atravessar 07 anos de seca ou de invernos irregulares, de 2012 a 2019.
Isso também só foi possível graças aos investimentos públicos ao longo de todos esses anos e acentuados nos governos Lula/Dilma em parceria com os estados, os quais somados aos programas sociais que foram implementados, contribuiu para que não tivéssemos um único saque de feiras livres no longo período de irregularidades de chuvas. 

Lançamos aqui um repto a quaisquer investidores privados que tenham investido um só centavo para generosamente construir equipamentos de convivência com as secas: açudes, cisternas, poços, barragens subterrâneas ou qualquer outra forma de aplacar a sede do  povo! Se existir pelo menos um deles, que se apresente para que eu possa me desculpar publicamente. Esse é o maior exemplo de que o capital existe para obter lucro e nunca para fazer o bem estar público ou filantropia. 

Aparece agora a iniciativa privada, estimulada e apoiada pelo governo federal e pela maioria do congresso nacional, prometendo tudo e mais alguma coisa para resolver a falta de água e esgotos, acenando com a universalização do saneamento  básico.
Alegam que temos 15 milhões de pessoas sem acesso à água, sem dizer se na zona urbana ou rural, escondendo propositadamente os  195 milhões de pessoas têm água e que não foi por obra da iniciativa privada  e sim do poder público.

Afirmam que 100 milhões de pessoas não dispõem de esgotos e escondem que 105 milhões  têm acesso ao serviço e que também não foi obra da iniciativa  privada.

Como o povo tem dificuldade de  acesso às  informações, não sabe que o mesmo governo federal que executou nos orçamentos de 2018 e 2019 e investiu em saneamento básico o “um volume maciço”  correspondente a 0,02% da peça orçamentária  por dois anos seguidos. O sistema financeiro queridinho de Paulo Guedes,por sua vez foi contemplado com 40,66% em 2018 e 38,27% em 2019, recursos esses que seriam suficientes para construção de 800 mil casas populares em um ano, o que corresponderia a uma cidade do porte de Salvador. 

Agora  promove a entrega da  água à iniciativa privada, embalado por promessas de miraculosos investidores privados, sem considerar o impacto social para os mais carentes que é a classe mais pobre. A prevalecer essa lógica á água já, já será transformada em  mercadoria que só tem quem tem dinheiro.

A hora é de reação e luta!


João Vicente
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