fbpx
27.1 C
João Pessoa
Início Notícias Frutas Estranhas

Frutas Estranhas

Em 1939, o Cafe Society, uma boate localizada em um porão no Greenwich Village, em Nova York, era o único local da espécie, existente na cidade, em que havia integração entre brancos e negros, tanto no palco, onde se davam os shows, como na plateia. A casa era frequentada por artistas, intelectuais, políticos e pessoas liberais, caracterizando-se a sua clientela o que poderia se considerar como progressista, a comprovar o lema do lugar: “The wrong place of the Right people”. A principal atração da boate, desde a sua inauguração no ano anterior, era uma jovem cantora negra de pouco mais de vinte anos, que já despontava como uma das mais prestigiosas da música norte-americana.

Por: Flávio Ramalho de Brito

    Certo dia, a jovem cantora foi procurada no Café Society por Abel Meeropol, professor de inglês, poeta, ativista político, e, também autor de músicas, que assinava com o pseudônimo de Lewis Allan. Meeropol apresentou à cantora uma canção de sua autoria, e, nas palavras dele: “tive a impressão de que ela não se sentiu à vontade com a música […] ela olhou para mim depois que eu terminei de apresentar a canção e disse: o que você quer que eu faça com isso, cara?, e eu respondi: seria maravilhoso que você cantasse essa música. Se quiser, não se sinta obrigada”. A canção não se enquadrava bem no repertório da cantora, formado de baladas que falavam de amor e romance. Mesmo considerando o perfil liberal da plateia do Café Society a cantora relutou em apresentar a música na boate. Mas, por fim, decidiu cantá-la, segundo ela, porque ficara muito impressionada com o poema, “parecia que falava de todas as coisas que tinham morto meu pai […] mas não tinha a certeza se conseguia transmitir essas coisas, que tinham significado para mim, ao público de um clube fino. Tinha medo que a detestassem”. A cantora relatou, em depoimento posterior, a primeira vez que cantou a música: “A primeira vez que a cantei fiquei com a sensação que tinha sido um erro e tinha razões para ter medo. Não houve sequer um ameaço de palmas quando acabei de cantar. Então uma só pessoa começou a bater palmas nervosamente. E de repente toda a gente estava a bater palmas”. São essas as primeiras palavras da canção de Meeropol:

“Southern trees bear a strange fruit. / Blood on the leaves and blood at the root. / Black body swinging in the Southern breeze. / Strange fruit hanging from the poplar trees” “Árvores do Sul dão uma fruta estranha/ Sangue nas folhas e sangue nas raízes / Corpos negros balançando na brisa do Sul / Fruta estranha pendurada em galhos de árvores”.

 A obra de Abel Meeropol era uma denúncia cortante contra os linchamentos de negros que vinham acontecendo, principalmente em pequenas cidades do Sul dos Estados Unidos, desde o fim da guerra civil, sendo estimado um número de 3 mil linchamentos entre 1889 e 1940. Os atos eram feitos como punição a crimes que teriam sido praticados pelas vítimas. Em alguns casos, o justiçamento visava a apenas demonstrar para negros mais salientes e intrometidos a “conhecer o seu lugar”. A canção de Meeropol foi composta dezesseis anos antes que a negra Rosa Parks, em 1955, no Alabama, se recusasse a ceder o seu lugar em um ônibus a um branco, marco do movimento contra a segregação nos Estados Unidos.

A música de Meeropol, que tinha o título de Strange Fruit, tornou-se a mais emblemática obra contra o racismo nos EUA e em todo o mundo, chegando a ter sua execução proibida na África do Sul durante o período do apartheid. A intérprete, Eleanora Fagan Gough, com o nome artístico de Billie Holiday, com sua voz arrastada, arranhada e inconfundível, acrescentando o sentimento da discriminação por que já passara, carregou Strange Fruit, de forma indissociável da sua pessoa, até o final da sua breve vida, destruída pelo álcool e pela heroína.

Billie Holiday – Strange Fruit

Artigo anteriorAvalanche
Próximo artigoA mão invisível do mercado
Relacionados

Lula-lá: Sem Medo de Ser Feliz

Desde a minha infância vivida na minha cidade natal, Lavras da Mangabeira CE, me habituei a ouvir modinhas e parodias usadas no período de...

A esperança voltou!

  A semana que antecedeu as convenções partidárias foi muito movimentada, notadamente pela visita à Paraíba do presidente Luiz Inácio da Silva- Lula. A festa...

Processos eleitorais semelhantes?

As últimas eleições presidenciais realizadas nos Estados Unidos, aconteceram no ano de 2020 numa disputa ferrenha e num clima de discórdia acirrado, cenário nunca...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas

Medo e Liberdade

Tenho refletido muito, talvez pelo momento político, a respeito de liberdade em seu sentido mais amplo. Mas o que é liberdade? Segundo o dicionário...

Esqueceram o Marquês

A passagem de efemérides, como a do segundo centenário da nossa Independência, faz com que algumas figuras históricas daquele momento sejam rememoradas (em regra,...

Lula-lá: Sem Medo de Ser Feliz

Desde a minha infância vivida na minha cidade natal, Lavras da Mangabeira CE, me habituei a ouvir modinhas e parodias usadas no período de...

Asas que voam

Pelas frestas da janela, essas lembranças invadem o quarto sombrio daquele tempo escorrido nas noites do passado. Uma vez, recordo bem, reservara a mim...

Mais Lidas

OS 11 princípios de Joseph Goebbels

Texto originalmente publicado em 08/01/2020    Joseph Goebbels, para os que não têm a informação, foi ministro da propaganda de Adolf Hitler e comandou a...

A esperança voltou!

  A semana que antecedeu as convenções partidárias foi muito movimentada, notadamente pela visita à Paraíba do presidente Luiz Inácio da Silva- Lula. A festa...

Tudo Passa Sobre a Terra

   Não foram poucas as vezes   que fizemos uso da famosa frase do escritor cearense José de Alencar, usada por ele ao finalizar o...

Asas que voam

Pelas frestas da janela, essas lembranças invadem o quarto sombrio daquele tempo escorrido nas noites do passado. Uma vez, recordo bem, reservara a mim...