Por: João Vicente Machado
No dia 13 de dezembro passado, o Brasil celebrou os 112 anos de vida de Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido na cidade pernambucana de Exú que faz fronteira com a cidade do Crato e situa-se no sopé lado sul da Chapada do Araripe, e divide os estados de Pernambuco e Ceará. É o “ Meu Pé de Serra”!
Filho de Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus, (Santana) era o segundo na escala cronológica decrescente de nove filhos do casal.
Quatro deles tocavam fole de oito baixos, formados que foram na escola do Pai Januário, eram eles: Luiz, Severino, José e Francisca, com a adesão posterior de Luiz e José à sanfona de cento e vinte baixos, mas sempre respeitando os oito baixos do seu pai Januário.
Muitos livros foram escritos sobre o artista Luiz Gonzaga, objeto de pesquisas com muito mais profundidade sobre a saga de Gonzaga e qualquer depoimento a mais nessa vertente, seria incorrer em lugar comum, diante da obra musical fantástica do velho Lua.
Todavia resolvi discorrer um pouco sobre a importância antropológica de Luiz Gonzaga para a nossa nordestinidade e a nossa inter-relação do com o restante do país.
O nordeste, apesar de berço da colonização, sofreu e ainda sofre um preconceito arraigado, por grande parte da população do Sul/Sudeste, que teima em considerar o nordeste como um entrave, “ruim seco e ingrato” definido no verso(Nordeste Independente) do poeta Bráulio Tavares de Campina Grande.
Antes de se consagrar com o relançamento do baião e conseguir reunir em torno de si aquilo que eu chamo a santíssima trindade da musica popular nordestina, que foram os compositores mais famosos do seu repertório, Luiz Gonzaga, movido pelo instinto de sobrevivência, cantava e tocava na noite carioca, mais precisamente nos cabarés da zona do mangue.
A trindade a que me refiro era composta por um cearense do Iguatú, de nome Humberto Teixeira, um pernambucano de Carnaíba no vale do Pajeú, de nome Zé Dantas além de um paraibano do distrito da Prata, nas bordas do Pajeú das Flores. então pertencente a Sumé, de nome Zé Marcolino.
Como todo mal sempre traz um bem, esse período de anonimato e dificuldades lhe propiciou desenvolver uma versatilidade singular com a incursão musical em ritmos diversos como: tango, valsa, polka, maxixe, boleros e canções que mais tarde lhe engrossariam o caldo musical e confeririam ao seu talento um aditivo de qualidade que virou tempero da sua musicalidade.
Quando encontrou o primeiro dos parceiros, um advogado militante de muita sensibilidade, excelente escritor e narrador, que lhe fora indicado pelo seu cunhado Lauro Maia, ele conheceu Humberto Teixeira, “ O Doutor do Meu Baião”, o mais urbano dos três.
O primeiro dia de encontro da dupla foi tão intenso e proveitoso que varou a madrugada numa conversa a dois sobre o nordeste, “ a terra, o homem, a luta” como definiria tão bem o imenso Euclides da Cunha. Ali ele terminou por estabelecer o marco inicial de um ritmo que faria estrondoso sucesso com o nome de baião, chancelado por uma produção do momento, a música de mesmo título, Baião.
Eles precisavam desse avant première, dessa alavanca, como plataforma de lançamento daquilo que haveria de vir. Com o estímulo da música de lançamento, aí sim veio a denuncia cortante do drama social da seca e suas consequências retratados na musica Asa Branca. (ouça aqui).
Na sequência veio a Légua Tirana que mede não em quilômetros ou metros mas sim em léguas, a dificuldade do nordestino até de visitar e ver a pessoa amada. (ouça aqui).
Humberto Teixeira saíra de Iguatu para Fortaleza ainda menino e de lá para o Rio de Janeiro na pós-adolescência, e no casamento musical recém celebrado precisava sempre das narrativas de Gonzaga para conferir forma poética ao que o Lua descrevia e musicava. Ele perdera o contato com o sertão muito cedo e muito do cotidiano do semiárido lhe fugia. Os dois se completaram.
Nessa época lhe aparece um pernambucano da cidade de Carnaíba no Vale do Pajeú, de nome Zé Dantas, que acabara de se formar em medicina. Procurou Luiz Gonzaga e lhe mostrou algumas músicas de sua lavra, as quais despertaram em Gonzagão um enorme interesse. Entre elas Vozes da Seca, (ouça a seguir) que viria a ser a primeira música nordestina de protesto lançada no Brasil, paradoxalmente lançada por Luiz Gonzaga que havia servido o Exercito como forma de sobrevivência o que desenvolveu nele um viés conservador. Mesmo no tempo da ditadura ele mantinha uma amizade com Armando Falcão, um cearense ultraconservador que conheceu numa plêiade de cearenses, a quem depois homenageou num show no Teatro Tereza Raquel em Copacabana, zona sul carioca, que pela primeira vez abriu suas portas a um artista nordestino.
O respeito por Luiz Gonzaga era tamanho, que ele sequer foi apupado por um teatro lotado, que se não aplaudiu também não vaiou. Todos estavam atentos na expectativa de vê-lo e ele deu um verdadeiro show naquele seu estilo de dialogar com a plateia e fazer o leriado, em companhia de Sivuca, Dominguinhos e Oswaldinho.( ouça aqui)
Provavelmente Luiz Gonzaga tenha morrido sem se aperceber que ele e Patativa do Assaré, fizeram mais pelos nove estados, do que toda bancada nordestina da câmara e do senado.
Além do mais ele acendeu o facho da verdadeira nordestinidade e nos encheu de um orgulho telúrico que guardamos no fundo do peito, além de fazer escola que revelou vários talentos à posteriore:
Jackson do Pandeiro, Marinês, Trio Nordestino, Dominguinhos, Santana o Cantador, Pinto do Acordeom, Flavio José, Tom Oliveira, Maciel Melo, Petrúcio Amorim, Flávio Leandro, Ilmar Cavalcante, Waldonys, Nanado Alves, Dejinha de Monteiro, Elba Ramalho, Alceu Valença, Acióli Neto, entre outros.
Além disso, exerceu forte influencia musical sobre a obra Gilberto Gil, Caetano Veloso, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elomar, Xangai entre outros.
A dimensão do ser humano é medida pela sua obra e a obra de Luiz Gonzaga só pode ser medida em longas léguas, que não são tiranas.
Consulta: www.overmundo.com.br.
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