
Por:Mirtzi Lima Ribeiro
Na paleta de cores, todas são belas e é importante trabalhar através das vibrações de cada uma delas, pois elas possuem propriedades, funções e beleza intrínseca, capaz de acionar sensações e estados emocionais distintos. Em seus matizes, qualquer mistura proporcionará novos tons, que se apresentarão em seu esplendor e singularidade. Na colorimetria e na teoria das cores, o matiz se apresenta em três características fundamentais: a família da cor (matiz), o seu grau de pureza ou intensidade (saturação ou croma), o nível de claridade ou escuridão que ela traz (luminosidade ou valor).
Desde minhas fases, da infância à adolescência, da juventude à maturidade, eu me fascino com as cores, as nuances que delas surgem, os tons, as combinações assim como todos os encantos que elas me apresentam.
Não me atenho aqui às técnicas e terapêuticas ou até mesmo às frequências de cada uma delas, porque seria impossível descrever em síntese, dadas as infindáveis variações que podem resultar disso. Antes, vou me debruçar nas sensações que algumas nos evocam ou nos despertam.

O vermelho, por exemplo, dos tons mais abertos aos mais fechados, nos lembra o nosso sangue, a semente que chamam de “olho-de-pombo” (da árvore Abrus precatorius ou popularmente conhecida como jequiriti), as dobras e anéis concêntricos de pigmentação carmim do urubu-rei, a cor do tronco e da seiva da árvore do Pau-Brasil, e, certas nuances das labaredas de fogo.
Nos lembra também a vida, a menstruação que representa a fase de fertilidade na mulher, a ação, o alerta, o fulgor, o ruborizar-se, as sedas mais seletas de antigas dinastias, os tapetes estendidos nas solenidades de premiação ou para recepcionar autoridades, Reis e governantes proeminentes.

Entretanto, alguns literalmente demonizaram o vermelho ao representar o Diabo tendo sua pele composta da cor vermelho vivo. Por sua vez, no filme “O Diabo veste Prada”, é um scarpin vermelho tendo como salto fino um tridente, que é o protagonista. Mas, lembremos que há muitos diabos e crápulas usando terno caro com colarinho branco andando por aí. Há carimbos difíceis de apagar, mas não é impossível fazê-lo.
Em contrapartida, o vermelho está nas vestes santas de Jesus assim como na de sua mãe Maria, contrastando com a cor azul claro celeste. Na iconografia cristã, o vermelho representa a humanidade e o sangue, enquanto o azul simboliza o céu e a pureza. O manto vermelho sobre Nossa Senhora simboliza a maternidade divina, a dor compartilhada na Paixão de Cristo e a força do Espírito Santo.
Na cromoterapia, o vermelho é utilizado para acionar a energia e vitalidade, trazer o ânimo de volta, fomentar a vontade de viver, para devolver o vigor, para trazer vida e glamour em ambientações, vestimentas e acessórios.

Os sapatos vermelhos cerimoniais do Papa, chamados de “múleos”, simbolizam o sangue de Cristo e o martírio dos santos. Nos contos de fadas, o vermelho sempre está presente. Nas cartas de Tarô, é o vermelho que representa a ação e os campos positivos.
No âmbito do feminino, o arquétipo do sapato vermelho significa o poder numinoso da mulher que assume seu poder interior. Para esse gênero, o sapato vermelho é um arquétipo feminino que retrata a assunção do poder pessoal. Os sapatinhos vermelhos, especialmente aqueles que são feitos manualmente, referem-se à preservação do self feminino e ao vigor do poder criativo na mulher.
Esses sapatos vermelhos para o universo feminino, significam a evolução da mulher que sai da insignificância para estabelecer uma vida que tem motivação e é emotivamente saudável. Representa o fato dela ter tomado consciência de quem é e de assumir-se como realmente ela é.

E os relógios clássicos mecânicos para o pulso? Os rubis sintéticos eram e ainda são imprescindíveis a esse tipo de relógio com a finalidade de aumentar sua precisão e qualidade.
Já nas joias de alto requinte, o rubi e seu tom vermelho são um charme à parte! O rubi é uma das quatro pedras mais preciosas do mundo, símbolo histórico de poder, paixão, vitalidade e amor intenso. Essa gema é da família do corindo (dureza 9 na escala de Mohs), e a sua importância está na alta joalheria, possuindo simbologia cultural e uma excepcional durabilidade.
Os povos originários brasileiros também pintavam o corpo e o rosto de preto e vermelho como alerta, assim como na ritualística prévia para a luta.

Vermelho cobriu mantos sagrados e de renome, levou requinte a monarcas, assim como fez e faz parte de bandeiras partidárias que pleiteiam a justiça social e a equidade de direitos ao povo. Tem sido assim em recantos do mundo inteiro.
Os corações de enamorados, rabiscados em cartões, desenhos e arabescos, são vermelhos, assim como as rosas vermelhas inspiram os apaixonados. Esse tom contrasta e orna com diversas cores e formas.
No Brasil atual, simbolicamente, o tom vermelho tem se mostrado a cor da esperança, e é o lembrete de que a vida tem que seguir um fluxo no viés democrático, pacífico, com diplomacia e respeito às instituições que consolidamos e que norteiam a civilidade e as relações de toda sorte. Representam, ainda, as conquistas alcançadas nas mais recentes décadas, passo a passo, degrau a degrau, embate a embate, sacrifício a sacrifício.

Quanto à importância do Brasil como um país diferenciado para os novos tempos, vemos em livros que tratam da “história secreta” de Portugal e do Brasil, indicando que essas nações se unem através das águas do Rio Amazonas como continuação simbólica do Rio Tejo.
Talvez esse tenha sido o pensamento do autor Almeida Garrett (João Batista da Silva Leitão, escritor português, 1.º Visconde de Almeida Garrett, 1799/1854), ao escrever o poema “Camões”, em que seu personagem proclama que o legado da cultura e da língua portuguesa cruzaria o oceano para renascer e ser guardado pelo rio Amazonas, ao dizer: “Onde levas tuas águas, Tejo aurífero? (…) recebe-o, guarda-o generoso Amazonas, o legado de honra, de fama e brio: não se acabe a língua.”

Essa sagração que está em poemas e inferências históricas, não pode morrer porque está sob o manto vermelho de Nossa Senhora, conforme um dia se contou naqueles mares distantes, no Velho Continente. E será essa Santa, que vem abençoar nossa terra, cobrindo-a e amparando-a com seu manto na cor rubi, para que se consolide como berço de um novo tempo, em um despertar coletivo de consciência e de conscientização, como nação protagonista da cooperação entre os povos.
Há uma onda vermelha, que se ergue acima de diversos espectros e ideais, que converge e que agrega. Essa onda possui uma característica partilhada: o abraço e o entrelaçamento de desiguais na mesma finalidade que é reconstruir e ressignificar um país que se impregnou de elementos nocivos, elitistas, arrogantes, que se acham acima das leis, que são destrutivos, mesquinhos, individualistas e sem consciência, querendo destruir conquistas seculares de seu povo.

Havemos de estabelecer uma Távola Redonda nesse país, onde desiguais possam se sentar à mesa sem cabeceira, para que nenhum seja menos importante que o outro, estando todos no mesmo patamar de negociação e de reivindicação, com vez e voz, com representatividade.
Então, que essa onda vermelha vença, que vençam a diplomacia, a cooperação, a vontade de sermos irmãos, para que juntos possamos trabalhar pelo hoje e pelo futuro, na construção de uma nação grandiosa, a Terra vermelha do Pau-Brasil.

“Que o vermelho nos lembre: um país floresce quando a dignidade chega a todas as suas raízes.”
— Curadoria: Gorette Wanderley




