
Por:Mirtzi Lima Ribeiro
Estamos com o perigo rondando as frestas de nossas portas. Nesses tempos contemporâneos, foi criado um inimigo monstruoso, dando-lhe corpo, palavras de ordem, estereótipo e motivos propositais para nutrir ódios ferrenhos a esse ser imaginário, que segundo a lenda de certa bolha ideológica é sinônimo de ciência, de civilidade, da diplomacia, da soberania nacional, de qualificativos positivos e da vida em harmonia. Para essa bolha o monstro é esse!
Criaturas de almas dantescas criaram esse monstro e o jogaram como holograma sobre a pele negra, o corpo da mulher, a fisionomia de um indígena, nas universidades, nos órgãos de controle, nas leis, nas nuances da cor vermelha e nos gêneros que conhecemos enquanto diversidade, assim como também projetaram essa imagem hedionda sobre as esculturas das Santas Femininas, em especial as que representam a padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida.

Por que será que demonizam tanto as mulheres e o campo feminino? Por que vociferam contra, inclusive, o voto feminino? Por que gostam tanto de desqualificar as mulheres e seu potencial laboral, intelectivo, criativo e numinoso? É um retorno mais macabro de caça às bruxas e essas bruxas seriam aquelas que não abraçaram o fundamentalismo religioso que tenta banir as Santas? Freud e Jung já demonstraram algumas razões muito fortes por trás de pensamentos e ações desse nível. É patológico!
Esse monstro que tais criaturas projetaram, que funciona como um carimbo definitivo e inapagável, fomenta e inspira o veneno mais potente do ódio, que segundo eles, é legítimo e os move a palavras e atos de violência brutal, escandalosa e cruel.
Era de se esperar ou imaginar a nossa adesão à cooperação, à diplomacia, às relações civilizadas, ao respeito, ao diálogo, aos consensos, às premissas de vanguarda em um mundo parceiro, com o rompimento e substituição dos velhos e arcaicos modelos de dominação, de usurpação e de exploração crassa.

Entretanto, ao invés disso, o que se viu no país foram as massas rezando para pneus, invocação de alienígenas para intervirem no Brasil, queriam intervenção militar e extraterrestre, beberam detergente de lavar pratos, assim como se entupiram de cloroquina durante a Pandemia e medicamentos que não eram adequados para o vírus da Covid, foram contra as vacinas e perpetraram toda a sorte de absurdos. Mataram algumas pessoas que pensavam diferente gratuitamente, só porque usaram como motivo de uma festa de aniversário dentro de sua residência o motivo do partido que preferiam. Coisas grotescas e absurdas foram vistas para nosso espanto e estupefação. Podemos dizer que isso é surto, é psicose, é uma inversão assustadora de valores e de caráter.
Para os adeptos dessa seita tacanha, as vítimas sobre as quais o holograma é focalizado merecem ser desqualificadas, xingadas, trucidadas e mortas com requintes cruéis e com bestialidade. De preferência, esquartejadas, cujos pedaços de carne e ossos, pelos e vergonha, devem ficar expostos em praça pública.
Sim, na prática, estamos constatando os prelúdios do que consta no livro “The Handmaid’s Tale”, de Elisabeth Moss, ou “O Conto da Aia” (título em português), que retrata a República de Gilead, enredo transformado em série e divulgado em várias plataformas de streaming.

E tudo isso ocorre em um contexto bem pior do que o que ocorria na baixa Idade Média, uma vez que na atualidade já teríamos avançado consideravelmente na estruturação da filosofia, das ciências, da informação e naquela época não havia acesso à cultura, informação, recursos, estrutura. Não era para que nos dias de hoje houvesse gente alienada, com entendimento torpe ou inescrupulosas.
Essa cena dantesca, de ódios, aparece descrita em mensagens recentes remetidas ao Poder Judiciário de nosso país, que teria por objetivo os assassinatos de seus magistrados, cujos processos de queixa-crime devem ser formalizados, com vistas aos trâmites e apurações de praxe.
Isso se constitui crime hediondo planejado nos calabouços do ambiente da “Surface Web” (parte visível da web, sites indexados por mecanismos de buscas comuns), da “Deep Web” (conteúdos não indexados publicamente, com credenciais de acesso, restritos, usados para e-mail, internet banking, internet de empresas e ambientes de pesquisa científica) e da “Dark Web” (face mais oculta da Deep Web, de redes criptografadas, com programas específicos para navegação anônima, alvos de mercados ilegais e atividades criminosas).

Mas, esses incautos não ficam apenas em ameaças. Partem para coerção verbal e emocional, e muitas vezes para as agressões físicas. Perseguem alvos que eles julgam mais frágeis. Os tais cursos para “machos alfa” estão pululando nesse país, de modo a formarem e nutrirem a agressividade dessas criaturas contra as mulheres e os homossexuais femininos e masculinos. Querem maltratá-los, querem apagá-los, querem fazê-los sofrer. Que desejos reprimidos essas criaturas teriam para desejarem tanta maldade assim?
É surreal esse ponto ao qual a sociedade brasileira chegou. Milhares de homens e mulheres, vêm oferecendo armas às crianças, incentivando ódios dentro de suas igrejas, ao invés de cuidarem de uma fé sadia e do religare a Deus (termo do latim, que significa “ligar novamente”). Não, eles não se pautam a esse objetivo ao adotarem o ódio ao invés do amor, ensinando brutalidade e insensibilidade ao invés de compaixão, querem a escravidão de volta, querem matar os pobres de fome e negar quaisquer regalias ou suavidade. Que ódio é esse contra as políticas públicas sociais e as campanhas de não violência contra a mulher?

Os países mais modernos e com as prerrogativas mais avançadas, inclusive os de maior IDH – Índice de Desenvolvimento Humano e melhores índices de qualidade de vida, possuem políticas de inclusão, ajuda e apoio financeiro tanto a patrícios como a imigrantes, assim como escores para suporte em vários níveis. Essas políticas públicas sociais não existem apenas no Brasil, em especial onde a desigualdade social ainda é imensa.
Entretanto, muitos querem ressuscitar as senzalas, produzir e usar chicotes (uma parlamentar da extrema-direita que usa um diadema de flores, semelhante ao usado pelas nazistas e supremacistas, apareceu recentemente usando um chicote, chicoteando o chão, simbolizando essa mentalidade).
Muitos deles, além de pensar assim, falam abertamente em invalidar a atual Constituição/88, denominada Constituição Cidadã, estabelecendo em seu lugar um código medonho, mais antiquado e radical que a antiga Lei de Talião, que só deverá ser aplicado contra o povão, às mulheres, indígenas, negros e homossexuais. Aqui, esses radicais têm falado até mesmo em estabelecer pena de morte, que seria aplicada a quem pensa diferente dos ditadores fundamentalistas religiosos e hipócritas. Sim, porque enquanto bradam slogans do fascismo, frequentam locais onde o sexo desenfreado, prostituição, drogas e luxúrias que até o Diabo ficaria corado.

A Lei de Talião (do latim lex talionis), foi um conjunto de leis que estabeleciam retribuição proporcional, cujo resumo seria “Olho por olho e dente por dente”, que à época era considerado um “avanço” por limitar as vinganças privadas que detinham alta capacidade de crueldade.
Esse retrocesso representa uma quebra na evolução do tipo do sistema de punições, onde se substituiu as penalidades físicas diretas por compensações em dinheiro (multas) e pela estruturação de sistemas penais gerenciados pelo Estado, sob a tutela de leis que protegem os bens jurídicos considerados essenciais, a exemplo da vida, da liberdade, da saúde e do patrimônio, com vistas ao objetivo de garantir estabilidade, segurança no ir e vir, além de equilíbrio nas relações sociais.
Mas, e quem defende tal tipo de retrocesso? Os que querem se locupletar do poder para massacrar quem pensa diferente carimbando-os como inimigos da sociedade (pura maldade) e os inocentes úteis da classe proletária, da classe média e da abastada, que pensam que não serão atingidos por esse aviltamento. Mas, serão! Essas pessoas estão apenas sendo usadas para que seja implantado um absurdo desse nível em seu governo totalitário. Ao pugnarem pela abolição da Constituição Cidadã de 1988 e suas alterações, além da extinção das leis que já balizam as relações no nosso país, nesse modelo medonho, apenas uma família deterá o privilégio de estar acima de quaisquer regras ou leis.

Isso é abominável? Claro que sim! Avizinha-se um perigo real, desumano e insano. Uma distopia sem precedentes. Por isso é urgente reavaliar o voto e optar pela democracia, pelo direito de pensar diferente, pelo direito de ir e vir, pela manutenção dos direitos adquiridos, pela Constituição que possuímos. Ela é ainda imperfeita, mas é o melhor que pudemos ter até o momento.
Regredirmos nisso seria suicídio de nossa sociedade contemporânea, seria matar o futuro de nossos filhos e netos. Por quê? Porque quem quer instaurar um governo totalitário no viés dessa teocracia nefasta, já afirmou que quer ficar no poder por décadas, o que nos indica golpe. E os brasileiros não merecem outro golpe além dos que já enfrentamos.
Pense nisso na hora de apertar a tecla de seu voto.

“Que nossas escolhas deixem aos que vêm depois mais liberdade para existir e menos medo de ser quem são.”
Curadoria – Gorette Wanderley




